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Moody’s Vê Brasil Sob Pressão Fiscal e Alerta Para Dependência da China na América Latina

Agência mantém perspectiva estável para os soberanos da região, mas aponta crescimento abaixo de outros emergentes, juros altos, necessidade de ajuste no Brasil e risco de perda industrial com avanço das importações chinesas

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A Moody’s manteve estável a perspectiva para os países da América Latina e Caribe em 2026 e 2027, mas alertou, em relatório divulgado nesta quinta-feira (1º), para dois riscos centrais na região: a dificuldade de grandes economias, como o Brasil, em estabilizar a dívida em um ambiente de juros altos, e a dependência crescente da China, que aumenta o peso das commodities nas exportações latino-americanas e pressiona a indústria local.

Segundo a agência, a recuperação em países de rating mais baixo ocorre em paralelo a um quadro mais desafiador nas maiores economias da região. O crescimento segue moderado, os custos da dívida continuam elevados e o avanço fiscal é desigual. A Moody’s projeta que a mediana de crescimento do PIB real da América Latina desacelere para 2,5% em 2026, ante 2,8% em 2025, antes de avançar para 3% em 2027. Mesmo assim, a região deve continuar abaixo da mediana dos mercados emergentes, estimada em 3,4% em 2026 e 3,7% em 2027.

No caso do Brasil, o ponto de atenção é fiscal. O país aparece ao lado de México e Colômbia entre os soberanos que enfrentam maior pressão para estabilizar a relação dívida/PIB. De acordo com o relatório, Brasil e México precisam de consolidação fiscal adicional equivalente a 2,6% do PIB para estabilizar a dívida. Na Colômbia, a necessidade é de 1,8% do PIB.

A agência afirma que países com dívida inicial elevada, custos altos de financiamento e crescimento moderado enfrentam ajustes mais difíceis. No Brasil, esse quadro se combina com uma estrutura de gastos rígida e juros ainda elevados, o que limita a capacidade de reduzir o peso da dívida sem medidas adicionais de ajuste.

A Moody’s também destaca que a eleição presidencial brasileira de outubro de 2026 deve determinar a direção da política fiscal nos próximos anos. O relatório cita o Brasil, ao lado de Colômbia e Peru, como um dos países em que o calendário eleitoral terá implicações importantes para a agenda econômica e para a confiança dos investidores.

China é risco e oportunidade

A pressão fiscal não é o único risco apontado pela agência. O relatório também chama atenção para o aumento da exposição da América Latina à China. As exportações chinesas para a região quase dobraram desde 2020 e chegaram a cerca de US$ 300 bilhões em 2025. Ao mesmo tempo, as vendas latino-americanas para o mercado chinês estão cada vez mais concentradas em commodities, como minerais, soja e petróleo.

Para a Moody’s, essa relação traz oportunidades e riscos. De um lado, a demanda chinesa ajuda a sustentar exportadores de matérias-primas, especialmente em países com peso relevante de mineração, energia e agronegócio. De outro, o avanço das importações chinesas aumenta a concorrência sobre fabricantes latino-americanos, comprime margens e pode reduzir a participação da indústria local em mercados internos e externos.

O relatório alerta que essa dinâmica pode fazer a região “descer” na cadeia de valor, ao reforçar a dependência de produtos básicos e reduzir o espaço para atividades industriais de maior valor agregado. Na avaliação da agência, isso aumenta a vulnerabilidade da América Latina a choques de demanda, volatilidade nos preços das commodities e desindustrialização de longo prazo.

A geopolítica também pesa sobre o México, principal economia latino-americana integrada à cadeia produtiva dos Estados Unidos. A Moody’s espera que o país mantenha acesso preferencial ao mercado norte-americano por meio do USMCA, acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, mas afirma que a incerteza sobre a revisão do tratado ainda pressiona as perspectivas de crescimento. A agência também observa que os anúncios ligados ao nearshoring, a realocação de fábricas para países próximos ao mercado consumidor, ainda não se traduziram em aumento relevante do investimento privado no México.

Apesar dos riscos, a perspectiva regional estável reflete uma combinação de fatores. A América Latina tem exposição direta limitada ao conflito no Oriente Médio e conta com termos de troca favoráveis em algumas commodities, como cobre, lítio, ouro, produtos agrícolas e proteínas. O relatório também destaca que a região tem elevada participação de fontes renováveis na geração de eletricidade, especialmente por causa da energia hidrelétrica, o que reduz parte da vulnerabilidade a choques de energia.

O que pode mudar os ventos na América Latina

Ainda assim, a Moody’s afirma que uma disrupção nos mercados de capitais, uma queda forte nos preços das commodities ou uma desaceleração mais intensa do crescimento poderiam mudar a perspectiva. No lado positivo, reformas capazes de destravar o crédito doméstico e ampliar investimentos em tecnologias de maior valor agregado poderiam melhorar o perfil de crédito da região.

A publicação não representa uma ação de rating, mas mostra que a estabilidade da América Latina depende menos de um cenário externo favorável e mais da capacidade dos governos de enfrentar problemas conhecidos: dívida cara, baixo investimento, produtividade fraca e dependência excessiva de commodities.

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