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Stablecoins Podem Virar o Pix dos Pagamentos Globais?

Empresas buscam reduzir custos e intermediários nas transferências internacionais

9 min

Nos últimos anos, o avanço das moedas digitais stablecoins reacendeu o debate sobre formas alternativas de realizar pagamentos internacionais. Isso acontece porque em uma economia cada vez mais digital, transferir dinheiro entre países ainda pode ser uma operação burocrática.

Embora a ordem de pagamento possa ser enviada em poucos minutos, a liquidação efetiva costuma depender de uma cadeia de bancos correspondentes, sistemas de compensação e diferentes regras regulatórias. Grande parte desse fluxo passa pela infraestrutura do Sistema Swift (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunications), rede que conecta mais de 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países e territórios.

O sistema é um dos pilares do comércio global e funciona como uma plataforma de troca de mensagens entre bancos — e não de liquidação financeira. Isso significa que a velocidade final de uma transferência depende de alguns fatores, como o número de intermediários, fusos horários, dias úteis e processos internos de cada instituição.

Na prática, uma empresa brasileira que precisa pagar um fornecedor no Canadá, por exemplo, pode levar vários dias para que o valor seja creditado. É nesse cenário que as stablecoins aparecem.

O que são as stablecoins?

Diferentemente de criptomoedas como bitcoin e ethereum, que têm preço determinado pela oferta e demanda e sofrem oscilações frequentes, as stablecoins são moedas digitais que mantém valor estável por serem lastreadas em um ativo de referência, geralmente o dólar americano.

Por operarem sobre redes blockchain — tecnologia que registra e valida transações digitalmente — essas moedas permitem a transferência de valor sem parte da infraestrutura tradicional utilizada nas remessas internacionais. Hoje, as maiores stablecoins do mercado são emitidas por empresas privadas, como a Tether (USDT), a Circle (USDC), a Ripple (RLUSD) e o PayPal (PYUSD).

Se novas formas de movimentar recursos entre países já estão disponíveis, por que o sistema financeiro global continua amplamente baseado na infraestrutura tradicional? A Forbes Brasil conversou com especialistas para responder à questão.

Entusiasmo?

Até pouco tempo atrás, quem perguntava sobre esse tipo de ativo eram equipes de inovação e entusiastas de blockchain. Hoje o interesse migrou para outro andar da empresa.

“Hoje a demanda que vem dos próprios CFOs já é quase do mesmo tamanho da procura que a gente faz para apresentar o produto”, conta Gustavo Gorenstein, CEO da Jeeves Brasil, plataforma financeira voltada a empresas que operam em vários países. Segundo ele, em outubro do ano passado clientes corporativos procuravam a empresa perguntando como organizar operações com stablecoin, mesmo antes de o produto estar disponível no país.

Embora as stablecoins existam há anos, o interesse corporativo ganhou força recentemente após avanços regulatórios. Nos Estados Unidos, a aprovação do Genius Act (Guiding and Establishing National Innovation for U.S. Stablecoins Act), a legislação que estabeleceu regras para esse tipo de ativo, incluindo exigências de lastro.

Para Gorenstein, foi esse ambiente regulatório que permitiu que as stablecoins deixassem de ser vistas apenas como um ativo associado ao universo das criptomoedas e passassem a ser encaradas como uma infraestrutura para pagamentos internacionais.

No Brasil, o Banco Central seguiu caminho semelhante. A autoridade monetária abriu consulta pública em 2025 e publicou a regulamentação que passou a valer no início deste ano. Para Gorenstein, esse movimento foi decisivo. “Quando a gente tem um Banco Central super ativo, inovador, falando que está ouvindo, está olhando e vai regular, o retorno do mercado é excelente”, afirma.

Segundo a Jeeves, as operações com stablecoins cresceram cerca de quatro vezes no Brasil em 2026, impulsionadas principalmente por empresas que movimentam recursos entre filiais, pagam fornecedores no exterior ou recebem valores de clientes estrangeiros.

Dados da Binance Research também ajudam a dimensionar esse avanço. De acordo com o levantamento, as stablecoins movimentam em torno de US$ 76 bilhões a cada fim de semana, volume comparável ao processado pela Visa em dias úteis, estimado em US$ 40 bilhões.

O professor do Insper Alexandre Chaia avalia, porém, que o crescimento da demanda não significa uma substituição imediata da infraestrutura tradicional. Para ele, a tecnologia tende a ganhar espaço principalmente nas operações internacionais, mas sua adoção deverá ocorrer gradualmente, acompanhando o amadurecimento regulatório.

No mercado, há quem enxergue as stablecoins como a infraestrutura capaz de redefinir os pagamentos internacionais. Entre especialistas, porém, há ressalvas

Quanto uma empresa pode economizar?

Os números variam conforme o tipo de transação, mas Gorenstein explica a conta. Em pagamentos que hoje passam por vários bancos correspondentes, cada intermediário retém entre 0,5% e 1%. Ao eliminar essa cadeia, a economia fica entre 0,5% e 1,5%. Em operações com câmbio embutido, o ganho pode chegar a 3,5%.

Há ainda o custo do tempo parado. “Se o mês tem 20 dias úteis e você perde nove dias em um pagamento com erro, perdeu quase meio mês de rendimento daquele dinheiro”, calcula o executivo da Jeeves, lembrando que no Brasil, com juros de referência em patamar elevado, manter caixa parado tem custo mais acentuado.

O professor do Insper, Alexandre Chaia, concorda que o ganho existe, mas pondera. “O Swift em si, na parte das transações, está mais rápido hoje. Não é aquele processo que demorava dias para o dinheiro chegar”, diz.

Para ele, a vantagem real do blockchain está em simplificar o processo e reduzir burocracia, mais do que em ganhar velocidade bruta. “Você deixa de precisar envolver instituições. Isso dá liberdade, dá flexibilidade.”

Pix mundial”?

No mercado, há quem enxergue as stablecoins como a infraestrutura capaz de redefinir os pagamentos internacionais. Entre especialistas, porém, há ressalvas.

Para Gorenstein, a tecnologia representa uma mudança na forma como o dinheiro circula entre países. Na avaliação do executivo, essas moedas digitais tendem a substituir parte da infraestrutura tradicional utilizada nas remessas internacionais, criando um novo “trilho” para liquidação de pagamentos. “O Pix que a gente vê no Brasil vai ter que funcionar do mesmo jeito mundialmente”, afirma.

No entanto, segundo o professor do Insper, as stablecoins devem ampliar sua participação nas operações internacionais, mas dificilmente alcançarão um nível de adoção semelhante ao do Pix. Na avaliação dele, as stablecoins tendem a ganhar espaço principalmente em remessas internacionais e operações entre empresas, mas não devem substituir os meios de pagamento utilizados no dia a dia da população.

O professor Lício Costa, da FIA Business School, concorda.”É possível que sua utilização cresça nos próximos anos, mas duvido que a taxa de utilização se aproxime das observadas na plataforma Pix”, afirma.

Isso porque, diferentemente do Pix, que opera sobre uma moeda nacional emitida pelo Banco Central, as stablecoins são ativos privados —o emissor é uma empresa — voltados principalmente para operações internacionais, limitando seu potencial de adoção em massa.

As stablecoins prometem reduzir etapas e custos nas transferências internacionais, por outro colocam em xeque parte do modelo de negócios de instituições que hoje atuam como intermediárias nessas operações

Desafios pela frente…

A redução dos intermediários nas stablecoins, porém, não elimina todos riscos. A segurança da operação depende da qualidade das reservas mantidas pelo emissor, da liquidez para resgate, da infraestrutura tecnológica utilizada e dos mecanismos de prevenção a fraudes e lavagem de dinheiro. Mesmo ativos desenhados para manter paridade com o dólar podem se afastar temporariamente desse valor em períodos de estresse.

Outro fator é a confiança do emissor. As stablecoins dependem da capacidade de uma empresa privada de manter reservas e honrar os resgates. Em outras palavras, o usuário precisa confiar que, sempre que desejar converter o ativo em moeda tradicional, a empresa terá recursos suficientes para garantir a paridade prometida.

Além disso, há a concorrência das futuras moedas digitais de Banco Central, como o Drex no Brasil. O real digital era para ter sido implementado no ano passado, mas teve seu lançamento adiado e segue em fase piloto de testes.

Há ainda um fator político interno. Chaia do Insper cita o episódio das fintechs envolvidas nos descontos irregulares do INSS como gatilho de um aperto de supervisão que deve atingir todo o setor, stablecoins incluídas. “Acho que vai ter algum tipo de restrição a essas fintechs trabalharem com tanta liberdade. Isso vai fazer o processo demorar um pouco mais para evoluir.”

Para Gorenstein, o desafio é outro. “O obstáculo é a gente não tratar stablecoin como uma moeda”, aponta.

Quem ganha e quem perde?

Se, por um lado, as stablecoins prometem reduzir etapas e custos nas transferências internacionais, por outro colocam em xeque parte do modelo de negócios de instituições que atualmente atuam como intermediárias nessas operações.

Os especialistas avaliam que bancos e demais instituições que concentram receitas com operações de câmbio, intermediação e transferências internacionais tendem a perder espaço à medida que novas alternativas ganhem escala.

“As casas de câmbio e os bancos que cobravam pedágios antigos perdem”, diz Gorenstein. “Eu posso, com um ativo só, comprar aqui no Brasil e liquidar em qualquer lugar do mundo, sem precisar passar por vários players no caminho. Na minha opinião, o Swift provavelmente não desaparecerá, mas deverá adaptar sua infraestrutura aos ativos digitais.”

A Swift já anunciou o desenvolvimento de um livro-razão digital baseado em blockchain— um registro compartilhado das transações — para processar pagamentos internacionais 24 horas por dia, além de projetos para movimentar ativos tokenizados.

Chaia aponta o mesmo alvo, sob outra perspectiva. “O principal perdedor são as instituições financeiras tradicionais. Elas perdem uma receita de corretagem que ganhavam na transação, e o processo tende a se tornar mais democrático”, afirma.

Costa, professor da Fia, também concorda. “Ganham principalmente os agentes emissores”, diz. Ao receber moeda tradicional em troca dos tokens, essas empresas passam a administrar grandes carteiras de reservas, normalmente compostas por caixa e ativos líquidos.

A rentabilidade dessas reservas pode se transformar em uma fonte relevante de receita, dependendo das regras aplicáveis ao produto. “Perdem aqueles que hoje têm parte não desprezível de suas receitas oriundas das taxassobre transações internacionais: os grandes bancos”, resume.

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