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Como As Stablecoins Estão Redefinindo o Mercado de Criptomoedas

De proteção cambial a transferências internacionais, o uso prático das stablecoins transforma o acesso ao dinheiro em países emergentes tais como o Brasil

7 min

As stablecoins deixaram de ser coadjuvantes no universo das criptomoedas e estão assumindo o papel principal. Cerca de 90% das moedas digitais em circulação no Brasil são stablecoins, segundo a Chainalysis. Esse volume coloca o país entre os maiores mercados criptoativos do mundo.

O destaque vem da funcionalidade. As stablecoins combinam segurança e velocidade. Elas são usadas para preservar valor em moedas fortes, receber pagamentos internacionais, enviar remessas e acessar serviços financeiros onde os bancos não chegam.

Um relatório do Standard Chartered aponta que o movimento não é passageiro. O banco estima que as stablecoins e outras tecnologias semelhantes possam drenar até US$ 1 trilhão (R$ 5,40 trilhões) de depósitos de bancos e economias emergentes nos próximos anos.

Na ponta do lápis, o dinheiro digital está ganhando cada vez mais terreno, com as stablecoins sendo o elo entre o sistema financeiro tradicional e o mercado de criptomoedas.

Crescimento em larga escala

O avanço das stablecoins nas carteiras digitais nascem de uma necessidade. Em países com volatilidade cambial ou inflação elevada, como na Argentina e em nações africanas, elas ajudam a preservar o poder de compra.

“Nessas regiões a desvalorização da moeda nacional faz com que o salário recebido, por exemplo, perca valor rapidamente”, explica Sofia Düesberg, General Manager da Conduit Brasil. “As stablecoins permitem que o aplicador preserve seu poder de compra de forma mais estável”, complementa.

Outro fator para o crescimento desses ativos digitais é o “cross-border settlement” ou a solução para transferências internacionais. No caso do Brasil, o Pix revolucionou as transações domésticas, mas enviar dinheiro para o exterior ainda é caro e burocrático.

“As stablecoins simplificam esse processo, atuando como ponte entre diferentes sistemas de pagamentos”, diz Sofia Düesberg. A operação pode substituir métodos tradicionais e caros, como o SWIFT, sistema que processa a maioria das transferências interbancárias atualmente.

Um exemplo prático ocorreu em 2024, quando o boxeador ucraniano Oleksandr Usyk, campeão mundial dos peso-pesados, premiou um conterrâneo seu, o campeão olímpico Oleksandr Khizhnyak, com US$ 100 mil (R$ 540 mil) em stablecoins. Isso só foi possível por meio dessa forma, já que o sistema bancário tradicional não conseguiria processar a transferência, devido às restrições impostas pela guerra, que bloqueavam o envio de moedas estrangeiras.

O que são?

Na tradução literal, stablecoin significa “moeda estável”. Diferentemente dos criptoativos voláteis, tais como o bitcoin, ela é lastreada em ativos de valor fixo, como moedas fiduciárias (dólar, real) ou até ouro.

Essas moedas operam em redes blockchain, que registram transações de forma descentralizada, sem depender de bancos ou governos.
Entre as mais conhecidas e utilizadas estão a USDT (Tether) e a USDC (USD Coin), ambas lastreadas em dólar. Para manter a paridade entre o entre o token e o ativo existem alguns mecanismos que podem ser utilizados.

As stablecoins mais confiáveis costumam manter suas reservas em ativos seguros e de alta liquidez. Esses mecanismos podem ser rapidamente convertidos em dinheiro, garantindo a troca imediata dos tokens pelos valores correspondentes em dólar.

O CIO da Underblock, Paulo Camargo, explica que esse é o caso da Tether e da Circle, emissoras das duas maiores stablecoins de dólar no mercado. Por exemplo, ambas as empresas mantêm garantias em títulos do Tesouro americano de curta duração e dinheiro líquido para emitir novas stablecoins no mercado e realizar saques da moeda fiduciária.

Ou seja, para cada unidade de stablecoin emitida existe uma reserva equivalente de pelo menos um dólar nas contas da empresa.

Utilidade em destaque

O perfil do investidor latino-americano também impulsiona a adoção das stablecoins. “Na região, o uso desses ativos é predominantemente utilitário, voltado para exposição ao dólar ou transferências internacionais. Em outros mercados, o uso tende a ser mais especulativo”, afirma a General Manager da Conduit Brasil.

Paulo Camargo, CIO da Underblock, explica que as stablecoins podem atuar como caixa dentro da estratégia de investimento, abrindo espaço para operações mais avançadas como alavancagem ou operações vendidas em algum ativo mesmo no ambiente on-chain (processo que ocorre diretamente na rede principal de uma blockchain).

Para os executivos, o crescimento das transações com stablecoins no território não representa uma mudança no perfil do investidor no Brasil e na América Latina. “Isso confirma um comportamento já predominante que é o uso voltado à utilidade. Essa é a principal diferença em relação ao modelo norte-americano de investimento.”, comenta Sofia Düesberg.

Nos Estados Unidos, o investimento em criptoativos é visto como uma estratégia especulativa. Nela, o investidor aposta que o ativo adquirido, como o Bitcoin, aumentará de preço com o tempo. Já na América Latina, embora exista um público que também invista por motivos de especulação, o avanço das stablecoins revela que o uso prático é o que realmente impulsiona a adoção.

Entre as razões utilitárias que explicam esse comportamento destacam-se duas:

  • Exposição ao dólar: muitos usuários compram stablecoins lastreadas na moeda americana para proteger seu poder de compra diante da volatilidade das moedas locais;
  • Facilidade em remessas: a stablecoin também se tornou uma solução prática e barata para enviar ou receber dinheiro do exterior, superando barreiras e custos dos sistemas tradicionais.

Perspectivas futuras

Com o avanço acelerado das stablecoins, a regulamentação virou prioridade. O desafio é acompanhar o ritmo da tecnologia. “Como as stablecoins são relativamente novas, os órgãos reguladores ainda estão aprendendo a lidar com o mecanismo”, explica a especialista da Conduit Brasil.

Outro ponto que Sofia destaca é garantir que as futuras regras não travem a eficiência que tornou essas moedas digitais tão populares. Paulo Camargo também concorda que o principal obstáculo é a criação de uma regulamentação que estimule a adoção das ferramentas, que cumpra requisitos de AML (Anti-Money Laundering, conjunto de medidas que protegem o sistema financeiro contra crimes) e seja evolutiva junto com o próprio mercado.

“Nem toda stablecoin funciona da mesma maneira, e existem riscos de acordo com o modelo adotado pelo emissor e a liquidez da moeda”, diz o CIO da Underblock. No longo prazo, a expectativa é de um ecossistema em que várias stablecoins convivam simultaneamente, cada uma vinculada a operações financeiras específicas ou moedas locais.

Além das versões atreladas ao dólar, ganham espaço as nacionais, como o DREX, do Banco Central. Empresas também avançam.

Confira abaixo os principais movimentos:

  • O PayPal lançou sua própria stablecoin, a PYUSD;
  • O JPMorgan desenvolve redes de liquidação em blockchain e explora recompensas vinculadas a criptoativos;
  • Na Europa, um consórcio de nove grandes bancos anunciou planos de criar uma stablecoin em euro, regulada pelo MiCA, voltada a liquidações instantâneas e de baixo custo.

Para o CIO da Underblock, a ascensão das stablecoins não representa ameaça ao sistema financeiro tradicional. Para ele, o segmento é a própria evolução do sistema financeiro atual.

Porém, o Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou um relatório neste mês em que alerta sobre riscos à estabilidade do mercado de stablecoins. O Fundo destacou que esses ativos digitais poderiam ameaçar a estabilidade financeira, substituir o crédito tradicional, prejudicar a política monetária e desencadear uma corrida por “ativos seguros”, como títulos do Tesouro.

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