Nunca se investiu tanto para construir o futuro da inteligência artificial. Big techs estão investindo bilhões de dólares em chips, data centers e infraestrutura, enquanto ações ligadas à tecnologia acumulam valorizações e renovam máximas. Relatórios divulgados por Microsoft, Alphabet e Meta Platforms ajudam a dimensionar essa corrida.
Juntas, as três companhias ampliaram em US$ 78 bilhões (R$ 399 bilhões) suas despesas de capital relacionadas à IA em 2025. Nesta segunda-feira, 10, o Financial Times noticiou que gigante da inteligência artificial Nvidia trabalha com algumas das maiores instituições financeiras de Wall Street na criação de um pacote de US$ 500 bilhões (R$ 2,555 trilhões) para financiar infraestrutura de IA. A divulgação teve impacto direto no valor das ações da empresa.
E a tendência é de aceleração. Segundo projeção da consultoria Gartner, os gastos globais com inteligência artificial devem alcançar US$ 2,59 trilhões (R$ 13,25 trilhões) em 2026, alta de 47% em relação ao ano anterior. Com cifras cada vez maiores, o fantasma da bolha das “.com” voltou a rondar os investidores. Em outras palavras, será que o mercado está financiando a próxima grande revolução tecnológica ou inflando uma nova bolha?
Para Àlex Fusté, economista-chefe global do Andbank, o cenário ainda está longe de ser o que antecedeu o colapso das pontocom no início dos anos 2000. “De forma alguma estamos em uma situação como aquela”, afirma Fusté, em entrevista exclusiva à Forbes Brasil.
Para o economista, investidores que enxergam uma bolha nas empresas ligadas à IA estão olhando para as métricas erradas, principalmente ao comparar os preços atuais das ações apenas com os lucros passados. “Se estou dizendo que o crescimento das receitas e dos lucros está em um ritmo de 100%, um múltiplo preço/lucro que parece bastante alto em relação aos resultados passados pode ser baixo em relação aos resultados futuros”, diz.
Na prática, Fusté argumenta que uma ação que hoje parece cara quando comparada ao lucro atual da companhia pode se tornar relativamente barata se os resultados crescerem rapidamente nos próximos anos.Isso porque o múltiplo preço/lucro (P/L) relaciona o valor da ação ao lucro gerado pela empresa.
Ou seja, se os lucros avançarem em ritmo próximo ao projetado pelo economista, essa relação tende a cair mesmo que a cotação permaneça elevada. Por isso, segundo ele, analisar apenas os resultados passados pode dar uma impressão distorcida sobre o preço das empresas ligadas à IA.
“Na minha visão, muitos investidores pensam que esses setores e as empresas relacionadas à IA e aos semicondutores estão em uma bolha. Na minha opinião, não estão. Estão olhando para isso da maneira errada”, afirma.
Fantasma da bolha “.com” ?
No final dos anos 1990 e início dos 2000, a internet inaugurou uma era de conectividade como nunca vista. Os investidores corriam para financiar qualquer projeto com “.com” no nome, acreditando que o fato de estar online seria suficiente para garantir lucros exponenciais.
A realidade se impôs pouco tempo depois, já que nem todas as ideias se mostraram sustentáveis. Esse excesso de capital acabou gerando um colapso que ficou conhecido como a “bolha da internet” ou, de forma mais popular, a “bolha ponto com”.
De fato, há semelhanças com o passado — investimentos elevados em empresas de tecnologia que ainda não apresentam resultados tão robustos, otimismo exacerbado e preços das ações próximos às máximas históricas. Porém, apesar das similaridades com o início dos anos 2000, há fatores que diferenciam o momento atual.
Enquanto a euforia das “.com” levou ao mercado empresas jovens, muitas delas sem modelos de negócio consolidados, a corrida pela IA é liderada, em grande parte, por gigantes de tecnologia já estabelecidas como Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta, com operações globais, geração de caixa e negócios que vão além da própria IA.

Fusté também chama a atenção para o prêmio de risco das ações — indicador que compara o retorno implícito dos lucros das ações com o rendimento dos títulos públicos (equity yield X bond yield). Na bolha de 2000, essa relação ficou em 300 pontos-base negativos, o que significava que as ações (com mais risco) rendiam 3% menos do que os títulos do governo (seguros). Hoje, essa diferença está em zero.
Para que o cenário voltasse àquele extremo de distorção, o índice Preço/Lucro (P/L) do S&P 500 teria que disparar de sua faixa atual de 23 a 24 para o patamar de 50 vezes, caso as taxas de juros ficassem paradas.
Fusté avalia ainda que o mercado se aproximaria de uma situação de maior estresse caso dois movimentos ocorressem simultaneamente: os rendimentos dos Treasuries — títulos da dívida emitidos pelo governo dos Estados Unidos e considerados uma referência de baixo risco no mercado — subissem para a faixa de 5% a 5,5%, enquanto o múltiplo preço/lucro (P/L) das ações avançasse para algo entre 30 e 35 vezes.
Nesse cenário, os títulos americanos se tornariam mais atraentes em relação às ações, justamente por oferecerem retornos maiores com menor risco. Como o S&P 500 negocia atualmente a cerca de 23 vezes o lucro, Fusté considera que o mercado ainda está distante desse patamar. “Se eu estiver certo e alcançarmos um P/L de 30 a 35 vezes, ainda há muito espaço para este rali continuar”, afirma.
Mas afinal, o que é uma bolha de ações?
O que chamamos de “bolha” é caracterizado por uma disparada dos preços das ações com fundamentos fracos ou inexistentes. Durante uma bolha, os investidores se mostram dispostos a pagar preços cada vez mais altos pelas ações, com múltiplos mais caros, baseados em premissas que se distanciam de fatos reais.
É como se a alta dos preços dos ativos fosse um dos principais catalisadores para realimentar as expectativas e ocasionar novas altas, em um ciclo vicioso. Ou seja, os preços dos papéis sobem de maneira totalmente especulativa, desconectando-se do valor fundamental das empresas. Esses indicadores podem ser medidos por diferentes métricas, como lucro, fluxo de caixa, receita ou até mesmo estimativas de tamanho de mercado.

Na maioria dos casos, a bolha é identificada quando já está prestes a estourar. Porém para ela acontecer é preciso que haja valuations excessivamente inflados e desvinculados dos lucros e receitas, além de um entusiasmo exagerado dos investidores.
Também aparece o chamado “fear of missing out”(FOMO) ou medo de ficar de fora que leva muitos aplicadores a pagar qualquer preço pelos ativos, sem avaliar fundamentos. Outro indicativo é uma alta rápida e desproporcional dos preços, movida mais por sentimento coletivo do que por resultados concretos.
Em geral, uma bolha estoura quando o mercado deixa de acreditar na própria alta. À medida que os preços se tornam insustentáveis e os resultados reais não acompanham as projeções, parte dos investidores começa a vender. Isso rompe o ciclo de confiança que sustentava a valorização. A partir desse ponto, os ativos são descartados e as cotações despencam, ocasionando prejuízos.
O próximo gargalo da inteligência artificial
Atualmente, se o excesso de capacidade não é a principal preocupação, a falta dela é. O economista-chefe ressalta que um dos maiores desafios da próxima etapa da IA serão os gargalos físicos da infraestrutura, principalmente em processadores e memória.
A razão está na transição da fase de treinamento dos grandes modelos para uma nova era e de sistemas de IA compostos por agentes capazes de executar tarefas continuamente. Durante a etapa de treinamento, as GPUs, chips especializados em processar grandes volumes de cálculos em paralelo, assumiram papel central. Com o crescimento da dos sistemas multiagentes, Fusté explica que aumenta também a necessidade de CPUs, processadores responsáveis por coordenar e gerenciar essas operações
Segundo o economista, uma relação que anteriormente poderia envolver uma CPU para quatro GPUs está caminhando para uma CPU por GPU. “Enquanto o número de GPUs não diminuir, precisaremos de milhões e milhões de CPUs adicionais. E não estamos preparados para isso. Esse é um gargalo”, afirma.
Já entre as principais oportunidades de investimento para os próximos anos, Fusté cita companhias como General Electric, Hitachi e Schneider Electric. Isso porque elas fornecem a infraestrutura necessária para sustentar o avanço da IA.
Segundo o economista, a expansão da inteligência artificial deve beneficiar não apenas big techs e fabricantes de chips, mas também companhias de diferentes setores necessários para sustentar o crescimento dos data centers.
Quando a IA vai virar dinheiro?
Por outro lado, Fusté destaca que um dos principais pontos de atenção está no volume de capital que as grandes empresas de tecnologia vêm destinando à infraestrutura. Para ele, o mercado passou a exigir uma resposta cada vez mais clara para uma pergunta: quando os bilhões investidos em data centers, chips e capacidade computacional serão convertidos em geração consistente de caixa?
“Temos que esperar e ver se essa monetização vai acontecer. Esse é o único ponto em que temos que nos concentrar quando falamos como investidores”, diz.
Um dos riscos dessa corrida de investimentos é que as empresas construam mais capacidade computacional do que o mercado será capaz de absorver. Fusté, porém, considera essa possibilidade limitada diante da expectativa de forte crescimento da demanda por processamento à medida que o uso da inteligência artificial se expande.
Para o economista, o volume de recursos necessário para atender a essa demanda também ajuda a dimensionar as oportunidades ao longo da cadeia. “Se essa capacidade computacional for construída, significa que muitas empresas terão investido trilhões de dólares. Alguém vai receber esses trilhões em forma de receita e lucro”, afirma.
Outro aspecto é o financiamento da corrida por infraestrutura, já que os investimentos das empresas de tecnologia não estão apenas no radar dos acionistas.O mercado de crédito também acompanha esse movimento de perto, com o aumento do endividamento para financiar os planos de expansão do setor.

A dívida relacionada a inteligência artificial emitida globalmente já soma em torno de US$ 489 bilhões (R$ 2,5 trilhões) neste ano, valor que supera os US$ 322 bilhões (R$ 1,6 trilhões) registrados em 2025, segundo estimativa do Goldman Sachs. Ainda, o banco Morgan Stanley projeta que essa emissão ultrapasse US$ 570 bilhões (R$ 2,9 trilhões) até o fim de 2026, praticamente o dobro do volume do ano passado.
Fusté também destaca que o spread — a diferença entre a taxa de juros paga pelos títulos corporativos e a paga pelos títulos do governo, considerados mais seguros —dos títulos corporativos de algumas companhias de tecnologia em relação aos títulos do governo tem aumentado. Isso sinaliza maior preocupação dos investidores de renda fixa com a capacidade de financiar os investimentos.
Um dos casos de maior atenção é o da Oracle, que, segundo o especialista do Andbank, dispõe de menos caixa e fluxo de caixa livre do que companhias como Google e Microsoft, ao mesmo tempo em que assumiu um programa agressivo de capex superior a US$ 90 bilhões (R$ 460,39 bilhões) para o próximo ano.
Apesar dos receios de analistas de que esses bônus corporativos pudessem sofrer um rebaixamento de nota de crédito para a categoria especulativa (junk bonds), Fusté revelou que sua equipe obteve garantias diretas da administração da companhia: “Conversamos com o CFO da Oracle e eles têm total compromisso com a classificação de grau de investimento. ‘Não vamos perder o grau de investimento’, garantiram”, comenta Fusté.