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“Bolha” nas Ações de IA? Saiba Identificar os Sinais, Riscos e Ciclos de Mercado

A euforia é evidente, e o crescimento do setor parece não dar sinais de desaceleração. Estamos realmente diante de uma bolha?

8 min

A inteligência artificial (IA) tornou-se o novo epicentro do entusiasmo nos mercados globais. Empresas ligadas ao setor têm atraído cada vez mais investimentos, impulsionadas pela promessa de transformar indústrias e redefinir a produtividade.

A euforia é evidente, e o crescimento do setor parece não dar sinais de desaceleração. Mas, entre investidores, cresce também a dúvida sobre até que ponto essa corrida pode sustentar tamanha valorização — ou se o mercado já estaria diante de uma bolha da IA.

Os resultados recentes reforçam essa sensação de avanço. Relatórios trimestrais divulgados pela Microsoft, Alphabet e Meta Platforms mostraram que as três juntas impulsionaram suas despesas de capital em IA em US$ 78 bilhões (R$ 417,89 bilhões). Isso representa um acréscimo de 89% ante a 2024.

A consultoria Gartner projeta que os gastos globais com IA devem chegar a US$ 1,5 trilhão (R$ 8,4 trilhões) antes do fim de 2025.

Neste ano, companhias ligadas à inteligência artificial responderam por 80% dos ganhos da bolsa americana. As ações da Nvidia, maior produtora de semicondutores usados em IA, valorizaram mais de 1200% nos últimos cinco anos. Em outubro, a empresa se tornou a primeira da história a atingir US$ 5 trilhões (R$ 27 trilhões) em valor de mercado, um mês após atingir a marca de US$ 4 trilhões.

Outras companhias de tecnologia também registraram expansão nos últimos cinco anos, como Microsoft (142%), Meta (158%) e Alphabet (220%). Em comparação, o S&P 500, principal índice de Wall Street, subiu em torno de 96% no período.

O otimismo no mercado, no entanto, não é unânime. A pesquisa mensal do BofA Global Research com gestores de fundo mostrou que 54% dos investidores já afirmam estar em uma bolha de IA, em comparação com 38% que não acreditam que exista uma.

Ecos de um passado não tão distante

Essa empolgação desperta paralelos com o início do século. No final dos anos 1990 e início dos 2000, a internet inaugurou uma era de conectividade como nunca vista. Os investidores corriam para financiar qualquer projeto com “.com” no nome, acreditando que o fato de estar online seria suficiente para garantir lucros exponenciais.

A realidade se impôs pouco tempo depois, já que nem todas as ideias se mostraram sustentáveis. Esse excesso de capital acabou gerando um colapso que ficou conhecido como a “bolha da internet” ou, de forma mais popular, a “bolha ponto com”.

O pesquisador e sócio da empresa britânica MacroStrategy Partnership, Julien Garran, publicou que o cenário atual é a maior e mais perigosa bolha que o mundo já viu. Para o especialista, a euforia é 17 vezes maior que a bolha das “.com” e quatro vezes maior que a bolha imobiliária de 2008.

A confiança excessiva também acendeu alertas entre os principais bancos dos EUA. O CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, reconheceu que “a IA é real”, mas que “parte do dinheiro investido agora provavelmente será desperdiçado”.

Em entrevista à BBC, ele comparou o momento atual a outras grandes revoluções tecnológicas. “A IA, no geral, vai render frutos, assim como os carros e as televisões renderam. Mas a maioria das pessoas envolvidas não se saiu bem.” Dimon ressalta que o mercado não precifica adequadamente os riscos de uma queda significativa nas ações.

Nem toda alta é bolha

De fato, há semelhanças com o passado — investimentos elevados em empresas de tecnologia que ainda não apresentam resultados tão robustos, otimismo exacerbado e preços das ações próximos às máximas históricas. Porém, apesar das similaridades com o início dos anos 2000, há fatores que diferenciam o momento atual.

O analista de BDRs do Santander, Lucas Serra, acredita que o movimento faz parte de um ciclo normal de mercado, e não de uma bolha. “Várias ações estão negociando próximo das suas máximas históricas, e as expectativas em relação à IA são elevadas. Porém, as empresas vêm entregando resultados. Para várias delas, o lucro, por exemplo, cresceu na mesma velocidade do que os preços das ações”, explica o analista.

Serra argumenta que a IA já é amplamente utilizada tanto por empresas quanto por consumidores, com ganhos reais de produtividade e escala, especialmente entre as gigantes do setor. Isso contrasta com o cenário da bolha nos anos 2000, quando as promessas tecnológicas ainda não se traduziam em lucro.

Segundo William Castro, estrategista-chefe da Avenue, o momento atual também se parece mais com um superciclo de investimentos do que com uma bolha. Ele explica que os aportes bilionários criam grandes expectativas, mas que as empresas envolvidas — como as gigantes de tecnologia — possuem capacidade financeira real para sustentar esses investimentos.

“O que existe é um hype elevado, alimentado por volumes de investimento cada vez maiores, que naturalmente geram expectativas futuras e acabam refletindo nos preços das ações”, comenta Castro. Outro fator é a forte demanda por data centers e infraestrutura de nuvem. No início do século, o problema foi justamente o contrário: uma oferta maior que a demanda.

“Além disso, estamos em um cenário de flexibilização da política monetária por parte do FOMC (Federal Open Market Committee), enquanto no início dos anos 2000, estávamos em um ambiente de aumento dos juros”, diz o especialista do Santander.

E se o ritmo mudasse?

Segundo Lucas Serra, se ocorresse bolha no setor, a oferta poderia avançar em passos mais acelerados que a demanda, frustrando as expectativas do mercado.

“É fundamental observar a utilidade real e os ganhos efetivos das novas tecnologias, avaliando se elas alcançarão o nível e a velocidade de adoção compatíveis com as projeções que hoje sustentam os preços das ações”, afirma Serra.

Outro ponto de análise é se a rentabilidade obtida pelas empresas com essas inovações está de fato próxima das expectativas iniciais, pois isso será determinante para sustentar o atual patamar de valorização.

“Observe os efeitos do aumento da depreciação”, diz o analista do Santander, já que o setor tem investido pesado em ativos de vida útil curta, como chips e data centers.

Autoridades do Banco da Inglaterra alertaram no começo de outubro sobre o risco de uma correção brusca nos mercados, caso os preços, inflados pelo boom da IA, se descolem da realidade.

“O risco de uma queda súbita do mercado aumentou significativamente”, afirmou o banco central britânico. Poucas horas depois, Kristalina Georgieva, Diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), fez declarações semelhantes, destacando que a valorização global das ações tem sido impulsionada pelo “otimismo em relação ao potencial da IA de aumentar a produtividade.”

Georgieva acrescentou, porém, que as condições financeiras podem sofrer mudanças repentinas, em discurso preparatório para a reunião anual da instituição em Washington.

Mas afinal, o que é uma bolha de ações?

O que chamamos de “bolha” é caracterizado por uma disparada dos preços das ações com fundamentos fracos ou inexistentes. Durante uma bolha, os investidores se mostram dispostos a pagar preços cada vez mais altos pelas ações, com múltiplos mais caros, baseados em premissas que se distanciam de fatos reais.

É como se a alta dos preços dos ativos fosse um dos principais catalisadores para realimentar as expectativas e ocasionar novas altas, em um ciclo vicioso. De acordo com William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, os preços dos papéis sobem de maneira totalmente especulativa, desconectando-se do valor fundamental das empresas.

Esses indicadores podem ser medidos por diferentes métricas, como lucro, fluxo de caixa, receita ou até mesmo estimativas de tamanho de mercado.

Na maioria dos casos, a bolha é identificada quando já está prestes a estourar. Porém para ela acontecer é preciso que haja valuations excessivamente inflados e desvinculados dos lucros e receitas, além de um entusiasmo exagerado dos investidores.

Também aparece o chamado “fear of missing out” ou medo de ficar de fora que leva muitos aplicadores a pagar qualquer preço pelos ativos, sem avaliar fundamentos. Outro indicativo é uma alta rápida e desproporcional dos preços, movida mais por sentimento coletivo do que por resultados concretos.

Em geral, uma bolha estoura quando o mercado deixa de acreditar na própria alta. À medida que os preços se tornam insustentáveis e os resultados reais não acompanham as projeções, parte dos investidores começa a vender.

Isso rompe o ciclo de confiança que sustentava a valorização. A partir desse ponto, os ativos são descartados e as cotações despencam, ocasionando prejuízos. O estrategista-chefe da Avenue lembra que as bolhas seguem um ciclo previsível: nasce uma nova ideia, surge um boom, a euforia se instala e, por fim, ocorre o colapso.

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