As bolsas asiáticas fecharam em forte queda nesta quarta-feira, 19, pressionadas por uma combinação de juros longos elevados, correção das ações ligadas à inteligência artificial e petróleo acima de US$ 91. O movimento, porém, não se repetiu no Brasil. O Ibovespa avançava perto de 1% durante a tarde, enquanto o dólar recuava para R$ 5,17.
A maior perda ocorreu na Coreia do Sul. Segundo relatório da Lev Intelligence, o Kospi despencou 5,8%, aos 6.471 pontos, na segunda queda consecutiva. A Samsung recuou 7,82%, enquanto a SK Hynix caiu 9,75%. As duas fabricantes de chips respondem por perto de metade do índice sul-coreano.
O mecanismo que suspende ordens programadas de venda foi acionado logo nos primeiros minutos do pregão. No Japão, o Nikkei 225 perdeu 3,16%, com queda superior a 10% do SoftBank. Na China, o CSI 300 recuou 2,9%.
Para Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, três fatores que se alimentam explicam a queda. O primeiro é a alta dos juros longos globais. O rendimento do Treasury americano de 30 anos ultrapassou 5,33%, maior nível em 19 anos. As taxas também alcançaram máximas de vários anos no Japão e na Europa.
“O primeiro é o choque de juros longos globais, com o título americano de 30 anos rodando no maior nível em quase duas décadas e as taxas longas de Japão e Europa também em máximas de vários anos, o que comprime as avaliações de ações de crescimento e tecnologia”, afirmou.
O segundo fator foi a correção dos semicondutores ligados à inteligência artificial, iniciada em Wall Street e ampliada na Ásia. Juros mais altos pesam principalmente sobre empresas cujas avaliações dependem dos lucros esperados para os próximos anos.
Trevisan destaca ainda que a bolsa coreana vinha de um rali superior a 100% no primeiro semestre, com as posições concentradas em poucos papéis de tecnologia.
“Parte relevante do movimento é desmonte de posição lotada, com estrangeiros e institucionais na ponta vendedora e a pessoa física comprando”, disse.
Segundo o executivo, essa foi a 48ª ativação do mecanismo de contenção da bolsa de Seul em 2026. Em todo o ano de 2008, foram 26 ocorrências.
O petróleo completou o quadro. O Brent superou US$ 91 diante da falta de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã. A alta da commodity aumenta o temor de inflação e devolve pressão aos juros longos.
Por que o Brasil seguiu na direção contrária
O tombo asiático não contaminou o mercado brasileiro. Depois de 11 quedas consecutivas, o Ibovespa chegou a subir 2,41%, aos 170.340 pontos. Por volta das 14h40, o avanço havia diminuído para perto de 1%. O dólar caía aproximadamente 1%, negociado a R$ 5,17.
A diferença está em um fator que entrou no radar depois do fechamento asiático. O Tesouro dos Estados Unidos anunciou que dobrará o volume das operações de recompra de títulos de longo prazo. O limite passará de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a medida foi uma das principais engrenagens por trás do alívio observado no Ibovespa e no câmbio.
“Quando o Tesouro anuncia que vai comprar ativamente esses papéis, ele gera uma demanda artificial que eleva o preço dos títulos. Como o preço e a taxa de retorno caminham em direções opostas, essa recompra força os yields para baixo”, afirmou.
Com os rendimentos menores, os títulos americanos perdem parte de sua atratividade e o capital encontra mais incentivos para buscar retornos em mercados emergentes.
“Grande parte do capital mundial estava estacionada nos Estados Unidos aproveitando justamente aquelas taxas de juros altíssimas e extremamente seguras. Quando o Tesouro atua para derrubar esses juros longos, o dólar perde parte do seu apelo”, disse Nossig.
No Brasil, o movimento foi reforçado por compras de ações que haviam acumulado perdas nas últimas semanas. O Ibovespa recuou 6,55% durante sua sequência de 11 baixas. Petrobras e Vale, duas das empresas com maior peso no índice, subiam mais de 1% durante a tarde.
Nossig pondera que ainda é cedo para afirmar que houve uma virada definitiva. As incertezas fiscais brasileiras, a perspectiva de juros elevados por mais tempo e as tensões geopolíticas continuam no radar.
Trevisan também vê riscos para os mercados internacionais. “O balanço da Nvidia na semana que vem e o simpósio de Jackson Hole serão os próximos testes de fôlego para esse mercado”, afirmou.