O Dia dos Pais abre o calendário de datas comemorativas do segundo semestre e deve movimentar R$ 8,52 bilhões, uma alta de 2,9% em relação a 2025, de acordo com dados da CNC – a Confederação Nacional do Comércio. No entanto, para especialistas, esse fôlego deve ser pontual e não sinaliza uma melhora efetiva na economia do país ou um aquecimento do setor para o segundo semestre.
Dentre os motivos, que são capazes de retrair os próximos resultados, estão: a inflação, a taxa de juros em 14% ao ano; o endividamento das famílias e o consequente encarecimento dos itens.
Para a Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores – empresa especializada nas demandas do varejo nacional, os números não animam o mercado e o setor. “Embora as pesquisas apontem um avanço nominal de 2,9% nas vendas, esse crescimento não repõe a inflação acumulada dos últimos 12 meses, que ficou em 4,64%”. Na prática, não há um crescimento real já que o aumento não compensa a inflação acumulada.
Do lado do comércio e do varejo, a principal frustração é a alta taxa de juros que aperta o capital de giro, inviabiliza o crédito saudável e força o varejo a atuar com margens menores. Apesar do corte de 0,25 ponto porcentual na Selic na última quarta-feira, o setor continua com a corda no pescoço.
O Brasil está no topo da lista com maior juro real do mundo, divulgada pela MoneYou em parceria com a Lev Intelligence. A alíquota de 9,30% ganha das taxas de países como Rússia, Colômbia e Indonésia.
Para Alexandre Bertoncello, PhD em economia e fundador da Bella Investimentos, esse cenário é inviável. “Pensa assim: qualquer empresa no Brasil não dá 14% de lucro líquido. E então essas empresas que já estão, geralmente, endividadas. Esse fator explica também por que grandes corporações estão entrando em recuperação judicial”.
Medindo forças do outro lado, estão os dois fatores que impulsionam a data comemorativa: a taxa de desocupação em 5,6% no trimestre encerrado em maio de 2026, que atingiu o menor patamar dos últimos 13 anos para o período, e o rendimento das famílias que apresentou um crescimento de 5% na comparação anual, ambos de acordo com a PNAD Contínua do IBGE.
Endividamento das famílias, cultura do parcelamento e apostas
Do lado do consumidor, existem alguns grandes vilões e o endividamento das famílias é apontado como o maior rival do consumo.
De acordo com a CNC, 82% das famílias brasileiras estão endividadas com cartões de crédito, carnês, financiamentos e outros compromissos financeiros que comprometem parte da renda e empurram gastos para o parcelamento.
“O presente do Dia dos Pais vai influenciar no gasto do Natal assim como compras antecipadas influenciaram no dia dos pais. Então, o aumento da renda no segundo semestre serve para equilibrar as contas e não necessariamente para aumentar o consumo”, comentou Bertoncello.
Para o economista, presentear usando o crédito virou uma necessidade. O endividamento das famílias também tem sido agravado pelas apostas online. O consumidor endividado se conecta às casas de apostas na tentativa de ganhar dinheiro para resolver suas pendências financeiras, mas acaba se endividando ainda mais, criando um ciclo que retira recursos que seriam destinados ao consumo no varejo.
Tozzi trouxe uma visão de insider para a discussão. “Se você conversar com qualquer varejista, você vai escutar que as bets afetam as vendas, não tenha dúvida. O varejo recebe flechadas de todos os lados.”
O setor varejista também é afetado diretamente pela inadimplência. O percentual de famílias com contas em atraso ficou em 29,9%, mantendo-se próximo ao recorde histórico de 30,5% registrado em setembro do ano passado.
E-commerce descolado das projeções
Outro comportamento que influencia o consumo é a praticidade que o e-commerce oferece. Para Tozzi, o consumidor tende a gastar mais online e cria outra barreira para o varejo físico. “O consumidor quer conveniência, quer preço bom, quer receber em casa ou retirar na loja com eficiência. Então, você tem toda uma questão de criatividade aí que o varejo vem trabalhando para vencer.”
As compras online devem movimentar R$ 9,7 bilhões em faturamento entre os dias 3 e 9 de agosto, alta de 16,2% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com um levantamento exclusivo realizado pela Confi, um ecossistema brasileiro de tecnologia, dados, inteligência e inovação.
O estudo aponta um faturamento equivalente a 97% do registrado na semana do Dia das Mães – R$ 9,69 bilhões contra R$ 9,98 bilhões.
Para Pedro Chiamulera, CEO da Confi, a projeção evidencia que o Dia dos Pais deixou de ser uma data secundária no calendário do e-commerce. “Os números indicam que o consumidor está antecipando suas decisões de compra e distribuindo melhor os pedidos ao longo da semana, o que demonstra maior maturidade do mercado e melhor planejamento por parte dos varejistas”.
Todas as regiões brasileiras devem apresentar expansão nas vendas durante a semana do Dia dos Pais. O maior avanço percentual registrado até o momento foi no Norte (+42,4%), seguido por Centro-Oeste (+32,4%), Sudeste (+30,8%) e Sul/Nordeste (+24%). Apesar do crescimento mais acelerado no Norte, o Sudeste continua respondendo por cerca de 59% do faturamento nacional do comércio eletrônico.
Para Bruno Pati, CEO do E-Commerce Brasil, o calendário comercial do varejo digital passa por uma transformação importante. “Durante muito tempo, as grandes datas eram momentos isolados de pico de vendas. Hoje, elas fazem parte de uma estratégia contínua de geração de demanda. O consumidor é impactado por diferentes estímulos ao longo da mesma jornada e responde cada vez menos a campanhas pontuais.”