Quem já frequentou os salões do Tuju ou do Evvai – os únicos restaurantes nacionais a ostentar três estrelas Michelin –, é provável que tenha encerrado a experiência de degustação provando meles. Mas não qualquer mel: os de abelhas nativas do Brasil, fornecidos pela empresa Mbee e tratados pelos chefs como um verdadeiro “ouro líquido” nacional, tamanha sua qualidade gastronômica e disponibilidade limitada.
“Sou muito fã dos meles brasileiros. A virada de chave da minha carreira foi um pão de mel de abelhas da Mbee”, lembra Bianca Mirabili, chef de confeitaria do Evvai. “É muito bom poder viajar o mundo e levar pratos com esses ingredientes para os chefs de fora conhecerem. Eles ficam meio chocados com a variedade e a qualidade desses produtos”.
Assim como vinho, os meles brasileiros têm terroir. A depender da espécie e da região onde forem coletados, o resultado final tem características completamente diferentes (e muito longe da concepção de mel tradicional, de mercado, que temos): podem ter textura aquosa, altas doses de acidez ou até notas alcoólicas, de canela e mais. Foi com eles que a Mbee consolidou seu nome e reputação no mercado da gastronomia, um trabalho feito desde 2014 pelo casal Márcia e Eugênio Basile.
Agora, o casal quer mais.
Ao completar 12 anos de operação, com uma rede de 80 produtores em 16 estados brasileiros, a empresa familiar decidiu profissionalizar a gestão para dar um salto de crescimento. Para isso, acaba de anunciar a executiva Priscila Sabará como sua nova CEO. Com experiência na fundação da plataforma gastronômica Foodpass e passagens pelo mercado de tecnologia, Priscila assume o desafio de modernizar os bastidores da marca.

A missão tem um alvo claro: transformar a autoridade construída na alta gastronomia em uma marca mais próxima do consumidor final. “Queremos furar a bolha da gastronomia e chegar, mesmo, na casa das pessoas”, conta Sabará à Forbes.
Da alta gastronomia para o varejo
Hoje, as vendas B2B são o grande motor financeiro da Mbee. No primeiro semestre de 2026, 77% da receita vieram dessa modalidade – 52,04% do setor de restaurantes e 24,98% da hotelaria. Apesar do sucesso no foodservice, o planejamento para o ano que vem mira o consumidor final.
O plano estratégico começará acelerando a atuação via distribuidores no início de 2027, para então fortalecer os canais próprios (como o site da marca e a Amazon) e, no último trimestre do ano, fazer uma entrada robusta no que Priscila chama de “varejo VIP”, focado em empórios e mercados selecionados.
A grande barreira para essa popularização no varejo, porém, é cultural. O Brasil é o 11º maior produtor de mel do mundo, mas o brasileiro consome 15 vezes menos que os americanos e 25 vezes menos que os suíços. A culpa recai sobre nossa forte ligação histórica com a cana-de-açúcar.

“Na cabeça do brasileiro, o mel é um remédio”, ressalta a nova CEO, também nutricionista de formação. “Óbvio que tem mil propriedades medicinais, mas é também um ingrediente. Estamos mesmo em uma luta pela substituição do açúcar”.
Tecnologia para crescer
Para sustentar a incursão rumo ao varejo, Priscila quer primeiro “organizar a casa”, especialmente com tecnologia. “A inteligência artificial entra muito na gestão e na operação do negócio”, explica a executiva. A ideia é automatizar tarefas diárias,desde o recebimento de pedidos até o estoque.
Com processos mais ágeis e eficientes, a Mbee projeta consolidar um crescimento na faixa de 20% ao ano. Só a partir disso que a captação de investimentos passa a entrar no radar para sustentar a expansão no futuro.
Priscila já tem experiência na área – conduziu quatro rodadas na época da Foodpass –, mas prega cautela. Para ela, buscar capital externo é um plano ideal para 2027 ou 2028. “O dinheiro do investidor precisa chegar no momento em que a gente esteja realmente pronto para fazer os 20% de crescimento. Se não, vira uma corda no pescoço”, pondera.

E mesmo com chefs estrangeiros ficando maravilhados com o sabor do mel brasileiro, a exportação não é a prioridade da Mbee agora. O motivo é prático: o Brasil já exporta mais de 80% do mel que produz, deixando o setor extremamente vulnerável a mudanças nas tarifas internacionais (como taxações repentinas). Fortalecer o consumo interno é a forma mais segura de proteger o negócio.
“A gente tem aqui, pelo menos nessa próxima fase, que chegar num patamar de scale up [crescimento estruturado em escala]. Esse é o grande foco. Antes de exportar, a gente tá focando realmente no mel puro”, afirma a CEO. “O mercado nacional é muito interessante. Então, temos que crescer muito aqui antes de ir pra fora”.