A geração global de energia nuclear atingiu um novo recorde histórico em 2025, e a China foi responsável por todo o crescimento líquido registrado no período.
De acordo com a mais recente edição do Statistical Review of World Energy, as usinas nucleares produziram 2.845 terawatt-hora (TWh) em todo o mundo no ano passado, um aumento de 30 TWh, ou 1,3%, em relação a 2024. A China ampliou sua produção em mais de 34 TWh, o que significa que, sem o desempenho do país, a geração nuclear global teria recuado.
Esses números retratam a situação do setor com mais precisão do que as afirmações amplas sobre um renascimento mundial da energia nuclear. A produção está aumentando, mas a expansão continua altamente concentrada. Os Estados Unidos ainda operam a maior frota de usinas nucleares do mundo, enquanto a China reduz rapidamente essa diferença.
O Japão recupera sua capacidade de geração de forma gradual, mas boa parte da Europa permanece abaixo dos níveis registrados há uma década.
Recorde que levou quase duas décadas para ser alcançado
O novo recorde precisa ser analisado em contexto. A geração nuclear mundial alcançou 2.803 TWh em 2006, de modo que o total registrado em 2025 foi apenas cerca de 1,5% superior, apesar dos 19 anos transcorridos. A energia nuclear finalmente superou seu recorde anterior, mas esse período não foi marcado por uma rápida expansão global.
Mais recentemente, a produção aumentou de 2.576 TWh em 2015 para 2.845 TWh no ano passado. Isso representa um crescimento de 10,5% ao longo da década, equivalente a aproximadamente 1% ao ano.
A China respondeu por mais do que todo esse aumento, elevando sua geração nuclear de 171 TWh em 2015 para 485 TWh em 2025. No mesmo intervalo, a produção mundial cresceu cerca de 270 TWh, enquanto a China, sozinha, adicionou quase 314 TWh.
Se os números da China forem excluídos, o restante do mundo gerou cerca de 44 TWh a menos de eletricidade nuclear em 2025 do que produzia dez anos antes. Isso não invalida o recorde global, mas demonstra o quanto esse resultado passou a depender da expansão de um único país.
Os EUA ainda lideram
Os Estados Unidos produziram 826 TWh de eletricidade nuclear em 2025, o equivalente a 29% do total mundial. Esse volume foi superior ao de qualquer outro país e quase 70% maior do que a produção da China. A China ocupou a segunda posição, com 485 TWh, representando 17,1% da geração global, seguida pela França, com 390 TWh, ou 13,7%.
A Rússia gerou 219 TWh, a Coreia do Sul produziu 185 TWh e o Japão alcançou 94 TWh. O Canadá apareceu logo em seguida, com quase 85 TWh. Em conjunto, esses países respondem pela maior parte da produção mundial de energia nuclear, refletindo os elevados investimentos necessários e os longos prazos de desenvolvimento que restringem essa tecnologia a um grupo relativamente pequeno de nações.
A frota nuclear dos Estados Unidos continua altamente produtiva, mas sua geração mudou pouco. Em 2015, o país produziu 839 TWh de eletricidade nuclear, volume ligeiramente superior ao registrado no ano passado. Já a China quase triplicou sua produção nuclear ao longo da década, com uma taxa média de crescimento anual de quase 11%.
Os Estados Unidos seguem com uma vantagem confortável, mas a diferença está diminuindo. Se as taxas recentes de crescimento de ambos os países forem mantidas, a China deverá ultrapassar os EUA como maior produtora mundial de energia nuclear em cerca de cinco anos.
França e Japão também impulsionaram o crescimento
A China respondeu pela maior parte do avanço registrado em 2025, mas outros países também apresentaram aumento na produção. A geração nuclear da França cresceu 9,6 TWh, chegando a 390 TWh. O país se recuperou do desempenho excepcionalmente fraco observado no início da década, embora sua produção ainda permaneça cerca de 47 TWh abaixo do nível de 2015.
O Japão acrescentou mais 9,2 TWh, elevando sua geração em 11,1%, para 94 TWh. A produção japonesa aumentou significativamente desde os níveis mínimos registrados após o acidente de Fukushima e a paralisação da frota de reatores do país, mas continua muito abaixo do patamar anterior ao desastre.
Em 2010, o Japão produziu aproximadamente 292 TWh de eletricidade nuclear, mais de três vezes o volume registrado em 2025.
Os Estados Unidos adicionaram cerca de 3,1 TWh no ano passado, enquanto a Rússia ampliou sua produção em 2,9 TWh. Também houve aumentos menores na África do Sul, República Tcheca, Belarus, Ucrânia, Eslováquia e Paquistão. Esses ganhos foram parcialmente compensados por quedas em outros países. A produção nuclear de Taiwan recuou quase 9 TWh, a Bélgica perdeu 7,5 TWh, e Reino Unido, Suíça, Coreia do Sul e Suécia também registraram reduções relevantes.
O crescimento da energia nuclear migra para a Ásia
Os números por região mostram como o centro da expansão da energia nuclear mudou de forma significativa. A geração nuclear da região Ásia-Pacífico passou de cerca de 420 TWh em 2015 para quase 845 TWh em 2025. A região mais do que dobrou sua produção e agora responde por quase 30% da eletricidade nuclear gerada no mundo.
A América do Norte continua ligeiramente à frente, com 921 TWh produzidos no ano passado, mas abaixo dos 952 TWh registrados em 2015. A Europa apresentou uma queda muito mais acentuada, passando de 968 TWh em 2015 para 759 TWh em 2025. Isso representa uma redução de quase 22%.
A comparação entre economias desenvolvidas e em desenvolvimento é igualmente expressiva. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a geração nuclear caiu cerca de 96 TWh ao longo da década, enquanto nos países fora da OCDE houve um aumento de quase 366 TWh. Os países da OCDE ainda respondem por aproximadamente dois terços da produção mundial de energia nuclear devido às suas grandes frotas já instaladas, mas deixaram de ser os principais responsáveis pelo crescimento do setor.
Geração recorde, mas sem aumento da participação na matriz energética
O recorde também ganha outra dimensão quando a energia nuclear é comparada ao sistema energético global. Em 2025, ela forneceu 31,0 exajoules, acima dos 30,7 exajoules registrados no ano anterior. No entanto, a oferta mundial de energia cresceu em ritmo mais acelerado, passando de 592,2 exajoules para 600,3 exajoules.
Como consequência, a participação da energia nuclear na oferta global de energia caiu ligeiramente, de 5,19% para 5,17%. O setor produziu mais energia do que em qualquer outro momento da história, mas não ganhou espaço em relação ao petróleo, gás natural, carvão, hidrelétricas e fontes renováveis.
Os números variam bastante entre os países. Em 2025, a energia nuclear respondeu por cerca de 47% da oferta total de energia da França. Na Finlândia, a participação foi de aproximadamente 33%; na Suécia, de 31%; na Ucrânia, de 25%; e na República Tcheca, de 23%. Nos Estados Unidos, a energia nuclear representou cerca de 9,6% da oferta total de energia.
Na China, apesar da rápida expansão e da posição como segunda maior geradora mundial de energia nuclear, a participação foi de apenas cerca de 3,3%. O setor nuclear chinês já é grande o suficiente para determinar a direção dos números globais, mas ainda representa uma parcela relativamente modesta do enorme sistema energético do país. Isso indica um potencial significativo para novas expansões caso a China mantenha o ritmo recente de construção de reatores.
O panorama geral
O recorde de 2025 confirma que a energia nuclear voltou a crescer, mas ainda está longe de representar uma expansão ampla em escala global. Os Estados Unidos continuam produzindo mais eletricidade nuclear do que qualquer outro país, embora sua geração permaneça praticamente estável há uma década. França e Japão registraram avanços importantes no ano passado, mas a produção europeia ainda está muito abaixo dos níveis de 2015. A participação da energia nuclear na oferta mundial de energia também permanece praticamente inalterada.
A China é a grande exceção. Ao longo da última década, o país adicionou mais geração nuclear do que todo o crescimento líquido registrado no mundo, e o aumento obtido apenas em 2025 superou a expansão global do período. Por enquanto, esse recorde da energia nuclear representa menos uma evidência de um amplo ciclo mundial de construção de usinas e mais a rápida expansão chinesa, enquanto grande parte do mundo desenvolvido continua dependente de reatores construídos há anos ou até décadas.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com