Fabio La Selva não tem a menor intenção de trocar de cadeira. Há cinco anos, ele lidera a área de Learning do Google Cloud na América Latina, responsável por formar profissionais para o mercado de tecnologia.
“Olho todos os meus colegas aqui e falo: ‘Nossa, eu não quero mudar para nenhum lugar’”, diz. Aos 13 anos de Google e com mais de 15 anos de carreira em tecnologia, La Selva afirma que a posição atual ultrapassou o que havia imaginado para si. “Acho que é muito mais do que eu sonhei.”
A cadeira tem uma característica pouco comum em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. “Eu sou medido por pessoas capacitadas, não por receita”, afirma o executivo.
Isso não significa, porém, que o trabalho esteja distante dos negócios. O Google Cloud precisa de profissionais preparados para usar inteligência artificial, computação em nuvem, cibersegurança e dados. Seus clientes e parceiros enfrentam a mesma dificuldade. Sem gente qualificada, projetos demoram a sair do papel e a adoção da tecnologia perde velocidade.
“Quanto mais pessoas estão capacitadas, mais isso vai trazer receita no médio e longo prazo. Às vezes, até no curto prazo. Mas o nosso objetivo não é olhar para isso”, diz La Selva.
A formação de profissionais, portanto, abre caminho para o crescimento do próprio mercado no qual o Google Cloud atua. A empresa distribui a universidades conteúdos semelhantes aos usados para treinar seus engenheiros. Alunos formados nesses programas podem, depois, ser contratados por clientes e parceiros da companhia, entre eles grandes consultorias de tecnologia.
A estratégia ganhou uma meta maior em 2026. O Google Cloud triplicou o compromisso de capacitação no Brasil, de 1 milhão para 3 milhões de pessoas nos próximos anos. A companhia não informou quanto investirá no projeto nem estabeleceu uma data para alcançar o novo número.
Quando perguntaram a La Selva se seria possível triplicar a meta brasileira, a primeira reação foi de espanto. “Eu falei: ‘Nossa, como é que a gente vai fazer isso?’ A gente começa a conversar e fala: ‘Dá para fazer. Vamos fazer’.”
O tamanho da aposta acompanha o potencial econômico da inteligência artificial na região. Um estudo do Fórum Econômico Mundial, feito em parceria com a McKinsey, estima que o avanço da IA possa elevar a produtividade da América Latina entre 1,9% e 2,3% ao ano. A tecnologia também poderia gerar de US$ 1,1 trilhão a US$ 1,7 trilhão em valor econômico adicional anualmente.
Por enquanto, boa parte desse dinheiro continua fora do alcance das empresas. Apenas 23% das organizações latino-americanas dizem obter algum resultado econômico com a IA. Somente 6% relatam ganhos significativos. Entre as pequenas e médias empresas, seis em cada dez ainda não conseguem identificar valor mensurável.
Uma aula para 200 mil brasileiros
Um dos caminhos para chegar aos 3 milhões será uma nova edição do Capacita+, marcada para 25 de setembro, durante o Google Cloud Summit Brasil, em São Paulo. A empresa pretende treinar 200 mil pessoas em um único dia, com atividades presenciais e transmissão em parceria com mais de 100 universidades.
Em 2025, o programa reuniu mais de 200 mil participantes na América Latina e entrou, segundo o Google Cloud, para o Guinness World Records como a maior aula híbrida e simultânea de inteligência artificial.
O conteúdo deste ano dará um passo além da introdução à IA oferecida na edição anterior. A programação continuará acessível a quem não tem formação técnica, mas incluirá atividades práticas e uma apresentação sobre agentes de inteligência artificial.
“A gente já quer mover para uma ideia mais mão na massa, onde começa a falar um pouco mais de agentes também, de como colocar a inteligência artificial para trabalhar ao nosso favor”, afirma.
O Capacita+ é a parte mais visível de uma estrutura que funciona durante todo o ano. Mais de 150 universidades brasileiras já participaram ou ainda participam dos programas educacionais do Google Cloud, segundo La Selva. Na América Latina, a companhia informa trabalhar com mais de 550 universidades e escolas técnicas.
Os treinamentos não atendem apenas estudantes de engenharia ou tecnologia da informação. Há parcerias com cursos de medicina, direito, administração e finanças. Na plataforma do Google Cloud, são 289 cursos em português, dos quais 145 tratam de inteligência artificial.
A formação também pode terminar em emprego. A cada seis meses, o Google Cloud promove uma feira para aproximar os alunos de empresas que precisam contratar estagiários e profissionais em início de carreira. Participam clientes e parceiros da companhia, incluindo consultorias como Accenture e Deloitte.
La Selva afirma que centenas de profissionais já foram contratados por meio do programa. Segundo ele, todas as empresas consultadas posteriormente pelo Google Cloud avaliaram de forma positiva os talentos recebidos. A companhia, no entanto, não abre o total de contratações.
Para o executivo, o avanço da IA tornou sua função mais importante e mais difícil. Ninguém sabe exatamente como estará o mercado em dois ou três anos, diz. O que já está decidido é quem terá participação nessa construção: as pessoas que estão aprendendo a trabalhar com a tecnologia agora.
“Estou usando o meu melhor, as minhas habilidades e as minhas qualidades para entregar não somente resultado para mim como pessoa, mas para o mundo. É difícil até descrever.”