A Grande Transferência de Riqueza costuma ser apresentada como uma história sobre herança e consumo. Os baby boomers controlam um volume extraordinário de patrimônio, as gerações mais jovens devem herdar boa parte desses recursos e a conclusão natural é que trilhões de dólares acabarão sendo destinados à compra de imóveis, carros, viagens e outros gastos.
Acredito, porém, que os investidores podem estar prestando atenção à parte errada dessa transferência.
A Visa estima que os baby boomers detenham aproximadamente US$ 93 trilhões (R$ 486,39 trilhões) em ativos. Após gastos com aposentadoria, dívidas, impostos e outras deduções, em torno de US$ 36 trilhões (R$ 188,28 trilhões) possam chegar às famílias das gerações X e millennial.
O número que mais me interessa, entretanto, é o que acontece depois. A Visa calcula que aproximadamente US$ 28 trilhões (R$ 146,44 trilhões) dessa herança poderão permanecer poupados ou investidos, enquanto US$ 8 trilhões (R$ 41,84 trilhões) poderão ser direcionados a gastos adicionais de consumo.
Nenhuma projeção para as próximas duas décadas será precisa, e outras estimativas para a Grande Transferência de Riqueza são ainda maiores. A Cerulli Associates, por exemplo, projeta transferências de US$ 124 trilhões (R$ 648,52 trilhões) até 2048, considerando gerações mais velhas, cônjuges e doações para instituições de caridade. Eu não perderia muito tempo discutindo qual desses números acabará se mostrando mais próximo da realidade.
A questão para os investidores é mais simples. O que acontece quando dezenas de trilhões de dólares continuam investidos, mas a pessoa que controla esse patrimônio muda?
Sob essa perspectiva, a Grande Transferência de Riqueza se parece menos com um boom de consumo e mais com uma mudança de propriedade em todo o sistema financeiro.
Por que os mercados podem sentir mais a transferência de riqueza do que os consumidores
Haverá, claramente, um efeito sobre o consumo. Pais já ajudam os filhos a comprar imóveis, pagam despesas importantes e transferem patrimônio antes de morrer. Habitação, viagens, automóveis e algumas áreas de consumo discricionário devem se beneficiar.
O impacto geral, contudo, pode ser menor do que os números bilionários e trilionários associados à transferência de riqueza fazem parecer. A Visa estima que os gastos adicionais relacionados às heranças poderão acrescentar apenas 0,1 ponto percentual por ano ao crescimento real do consumo até 2046.
Parte da explicação está em quem recebe esses recursos. Segundo a Visa, quase três quartos dos beneficiários de heranças já possuem patrimônio familiar acima da mediana. Pessoas que já têm imóveis, contas de aposentadoria e ativos financeiros são menos propensas a gastar cada dólar adicional recebido.
É nesse ponto que, para mim, a tese de investimento se torna mais interessante.
O dinheiro gasto em uma viagem ou em um carro deixa a carteira de investimentos. Já os recursos que permanecem aplicados ainda precisam ser administrados, alocados e mantidos em algum lugar. Se a estimativa de US$ 28 trilhões (R$ 146,44 trilhões) estiver minimamente correta, um dos maiores acontecimentos financeiros das próximas duas décadas envolverá a transferência de capital de uma geração de proprietários para outra sem que esse dinheiro necessariamente deixe os mercados.
Os mercados dedicam enorme quantidade de tempo a analisar onde os consumidores gastarão seu próximo dólar. Eu dedicaria mais tempo a perguntar quem controlará o próximo trilhão de dólares em ativos disponíveis para investimento.
Disputa pelo cliente
Muitas avaliações de empresas de gestão de patrimônio partem do pressuposto de que os ativos são relativamente estáveis e permanecem na mesma instituição. Um cliente pode continuar com o mesmo assessor ou empresa durante décadas, fazendo com que as receitas geradas por esse patrimônio pareçam extremamente previsíveis.
O problema é que essa fidelidade pode durar apenas enquanto o cliente continuar sendo o proprietário dos recursos.
Imagine uma família que trabalha com o mesmo gestor de patrimônio há 30 anos. O profissional conhece os pais, entende sua tolerância ao risco e construiu uma relação lucrativa em torno daquela carteira. Quando esses ativos passam para os filhos, a instituição pode presumir que o relacionamento também será transferido. Mas por que seria assim? O herdeiro não escolheu aquele assessor.
A Capgemini constatou que uma grande maioria dos investidores de alta renda da próxima geração pretende deixar, em um período relativamente curto, a gestora de patrimônio utilizada pelos pais. Investidores ricos mais jovens têm expectativas diferentes em relação à tecnologia, investimentos alternativos, aconselhamento financeiro e à maneira como se relacionam com instituições financeiras.
Isso deveria importar para quem avalia bancos, corretoras e gestoras de ativos. Uma empresa pode apresentar hoje um volume robusto de ativos sob gestão e, ao mesmo tempo, carregar em seus resultados um risco de retenção de longo prazo praticamente invisível. O proprietário legal dos recursos ainda não mudou. Quando isso acontecer, a relação com o cliente passará a estar em disputa.
É nesse cenário que acredito que o mercado possa estar precificando de maneira equivocada parte da Grande Transferência de Riqueza. Investidores talvez atribuam valor excessivo à aparente permanência dos ativos mantidos por instituições com bases de clientes mais velhos, enquanto subestimam o valor das plataformas que já estão construindo relacionamentos com a geração que provavelmente herdará esses recursos.
Os ativos sob gestão podem parecer extremamente estáveis até o momento em que o proprietário muda.
A Capgemini também constatou que muitos clientes mais jovens de alta renda acompanhariam seu gestor de relacionamento caso o profissional migrasse para outra instituição. Isso sugere que a verdadeira fidelidade pode estar vinculada ao assessor individual, e não necessariamente à empresa que mantém os ativos em sua plataforma.
Para os acionistas, essa diferença importa. Uma grande operação de gestão de patrimônio não é simplesmente um conjunto de ativos. É uma coleção de relacionamentos, e essas relações podem ser colocadas à prova toda vez que a propriedade passa de uma geração para outra.
Acompanhe quem controla o patrimônio, não apenas quem gasta
Uma das perguntas às quais volto repetidamente ao analisar investimentos é: quem precisa vender? A Grande Transferência de Riqueza cria uma variação dessa questão. Nesse caso, eu perguntaria: quem precisa mudar?
Os próprios ativos não precisam necessariamente ser alterados. Uma carteira composta por ações, títulos, investimentos privados e imóveis pode permanecer perfeitamente sólida enquanto a pessoa responsável por decidir como esses recursos serão mantidos, administrados e alocados muda completamente.
Já observei uma dinâmica semelhante diversas vezes em processos despin-off. Uma empresa saudável é distribuída a acionistas que nunca escolheram ser seus proprietários. Alguns vendem porque o novo negócio é pequeno demais. Outros seguem mandatos que os impedem de mantê-lo. Também podem ocorrer vendas relacionadas a índices, independentemente do que esteja acontecendo dentro da companhia.
O negócio pode permanecer inalterado enquanto a base de acionistas é completamente reorganizada. Uma herança pode produzir o mesmo efeito em carteiras inteiras.
Um boomer pode ter passado décadas investindo em ações que pagam renda e títulos individuais por meio de um assessor tradicional. O filho que herdar esses ativos pode preferir ETFs, indexação direta, mercados privados ou simplesmente outra instituição. Outro herdeiro talvez queira maior liquidez, menos complexidade ou apenas um relacionamento financeiro que considere seu, em vez daquele herdado dos pais.
Nem todos os investidores mais jovens abandonarão a gestão de patrimônio tradicional ou se tornarão mais especulativos. Essa interpretação seria simplista demais. A questão é que a transferência da propriedade cria um momento em que antigas premissas podem ser reconsideradas.
Por isso, para os investidores, euprestaria muita atençãoà idade da base de clientes de uma gestora de patrimônio, ao nível de relacionamento que ela mantém com a próxima geração da família e ao que acontece com os ativos depois de uma herança.
Uma empresa pode parecer muito forte enquanto atende aos pais e, ainda assim, perder os filhos. O vendedor forçado dessa história talvez não seja alguém se desfazendo de ações. Pode ser um herdeiro encerrando o relacionamento financeiro que recebeu como parte da herança.
Movimento já começou
A Grande Transferência de Riqueza costuma ser discutida como se trilhões de dólares fossem aparecer repentinamente em algum momento da década de 2030. Na realidade, o processo já começou e continuará ocorrendo gradualmente durante décadas.
Pais estão ajudando os filhos a comprar imóveis. Famílias transferem ativos ainda em vida. O patrimônio passa primeiro entre cônjuges e, posteriormente, para a geração seguinte. Algunsbaby boomerspreferem ver suas famílias se beneficiarem do dinheiro enquanto ainda estão vivos, em vez de deixar tudo para ser distribuído por meio de uma herança.
Esse processo mais lento pode, na verdade, tornar as implicações para os investimentos ainda mais importantes.
As instituições financeiras têm tempo para defender seus relacionamentos com clientes, enquanto os concorrentes também dispõem de tempo para construir novos vínculos. Gestoras de patrimônio que começarem a trabalhar com filhos e cônjuges antes da chegada da herança deverão ter uma vantagem evidente sobre aquelas que simplesmente presumirem que os recursos permanecerão onde estão.
É por isso que eu teria cautela ao tratar a Grande Transferência de Riqueza principalmente como uma tese de investimento em ações ligadas ao consumo.
Podem surgir oportunidades nos setores imobiliário, automotivo, de viagens e de consumo discricionário, mas a questão estrutural mais relevante está dentro dos serviços financeiros.
Se dezenas de trilhões de dólares permanecerem investidos, bancos, corretoras, gestoras de ativos, assessores financeiros, provedores de ETFs, plataformas de mercados privados e empresas de tecnologia financeira passarão anos disputando o controle desses recursos.
Os vencedores talvez sejam instituições que hoje administram uma parcela menor do patrimônio dosbaby boomers. Podem ser justamente as empresas que já conquistaram a confiança das pessoas que serão proprietárias dessa riqueza amanhã.
Depois de mais de três décadas nos mercados, aprendi a prestar atenção sempre que a propriedade muda de mãos em grande escala. Às vezes, o ativo subjacente praticamente não se altera. O que muda é quem o controla, o que essa pessoa espera dele e quem será remunerado para administrá-lo.
É dessa maneira que eu analisaria a Grande Transferência de Riqueza. O número de destaque pode ser US$ 93 trilhões (R$ 486,39 trilhões), US$ 124 trilhões (R$ 648,52 trilhões) ou algum outro valor gigantesco.
Para os investidores, porém, a cifra mais útil talvez seja a de aproximadamente US$ 28 trilhões (R$ 146,44 trilhões) que, segundo a Visa, deverão permanecer poupados ou investidos.
Esse dinheiro precisará ir para algum lugar. Eu gastaria menos tempo tentando adivinhar o que os herdeiros comprarão com ele e mais tempo perguntandoquem irá administrá-lo.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com