A inteligência artificial pode elevar de 4,1% para 4,9% a taxa média anual de crescimento potencial das economias emergentes e em desenvolvimento ao longo da década de 2020, no cenário mais otimista considerado pelo Banco Mundial.
A projeção faz parte do Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2026, divulgado nesta terça-feira, 4. O documento apresenta a primeira avaliação abrangente da instituição sobre os efeitos da inteligência artificial nos países de baixa e média renda, onde vivem 6,5 bilhões de pessoas.
O impacto pode ser especialmente relevante em um momento de baixo dinamismo econômico. Segundo o Banco Mundial, as economias em desenvolvimento atravessam o período de crescimento médio mais fraco das últimas três décadas.
“A IA lançou uma tábua de salvação às economias em desenvolvimento, e elas deveriam aproveitá-la”, afirmou Indermit Gill, vice-presidente sênior e economista-chefe do Grupo Banco Mundial.
As projeções dependem, porém, da velocidade de adoção da tecnologia e das condições disponíveis em cada país. Energia, conectividade, dados, qualificação profissional e qualidade institucional serão determinantes para transformar o avanço tecnológico em produtividade.
Mais produtividade do que substituição
O Banco Mundial estima que 16,2% dos empregos nas economias em desenvolvimento podem ter a produtividade significativamente ampliada pela inteligência artificial. O resultado se aproxima dos 18,7% projetados para os países de alta renda.
O risco de automação pela IA generativa é menor nas economias de baixa e média renda. Nesses países, 4,5% dos empregos estão expostos à substituição, ante 14,2% nas nações mais ricas.
A diferença é explicada, em parte, pela composição dos mercados de trabalho. Países desenvolvidos concentram uma proporção maior de atividades cognitivas e administrativas, mais expostas à inteligência artificial generativa. Nas economias em desenvolvimento, o trabalho manual ainda representa uma parcela mais relevante das ocupações.
Por isso, a principal oportunidade não está em substituir profissionais, mas em ampliar o que eles conseguem fazer. A tecnologia pode ajudar médicos a realizar diagnósticos, agricultores a tomar decisões sobre suas lavouras e empresas a elevar a produtividade.
“Eles não precisam de grandes modelos ou de grandes centros de dados para colher seus benefícios”, disse Gill.
Segundo o economista-chefe, ferramentas menores e de baixo custo, adaptadas às condições locais, podem ampliar o acesso a serviços de saúde, educação, Justiça e assistência técnica no campo.
“Mas eles precisam se apressar. A IA está se disseminando mais rapidamente e depende mais do contexto do que tecnologias de uso geral anteriores, como a eletricidade e a internet”, afirmou.
Adoção avança mais rápido do que a transformação
A inteligência artificial está se espalhando em velocidade superior à de tecnologias anteriores. O motor a vapor levou aproximadamente 80 anos para alcançar os países de renda mais baixa. O intervalo caiu para 40 anos com a eletricidade e para aproximadamente 20 anos com os computadores e a internet.
No caso do ChatGPT, a diferença entre países desenvolvidos e em desenvolvimento para que a tecnologia alcançasse 3% da população foi de apenas cinco meses. Seis meses depois do lançamento, as economias de renda média já respondiam por metade do tráfego global da plataforma.
A adoção, contudo, ainda é desigual. Em abril de 2025, quase 25% dos usuários de internet nos países de alta renda haviam utilizado o ChatGPT. A proporção era de 5,8% nas economias de renda média alta e de apenas 0,7% nos países de baixa renda.
O uso também permanece superficial em muitas empresas. Uma em cada cinco pequenas companhias pesquisadas em seis economias em desenvolvimento já utiliza chatbots, percentual apenas um pouco inferior ao registrado nos Estados Unidos.
As ferramentas, no entanto, são empregadas principalmente em pesquisas, produção de textos e traduções. Mudanças mais profundas nos processos, nos produtos e nos modelos de negócios ainda são menos frequentes.
Ganhos podem ficar concentrados
O relatório alerta que a inteligência artificial tende a ser adotada primeiro pelas empresas mais produtivas, inovadoras e bem administradas. Essas companhias também possuem maior acesso a profissionais qualificados, financiamento e infraestrutura digital.
Como resultado, a tecnologia pode aumentar a distância entre os negócios líderes e aqueles que já enfrentam dificuldades. Mantido o ritmo atual de adoção, os ganhos de produtividade podem ser mais de três vezes maiores nas economias avançadas do que nos países em desenvolvimento.
Uma experiência com pequenos empresários no Quênia ilustra o risco. Um assistente de inteligência artificial melhorou os resultados das empresas que já apresentavam bom desempenho, mas prejudicou negócios menos produtivos, cujos proprietários tinham maior dificuldade para avaliar a qualidade das recomendações.
Para o Banco Mundial, disponibilizar a tecnologia não é suficiente. Trabalhadores e empresários precisam ter conhecimentos básicos para interpretar as respostas e decidir quando seguir ou rejeitar uma orientação produzida pela ferramenta.
Países em desenvolvimento atraem data centers
A expansão da inteligência artificial também abriu uma disputa por investimentos em infraestrutura. Os países em desenvolvimento já respondem por aproximadamente 40% dos novos projetos globais de investimento estrangeiro direto em centros de dados.
Esses empreendimentos podem atrair capital e ampliar o acesso local à capacidade computacional. Ao mesmo tempo, consomem grandes volumes de eletricidade e podem pressionar os preços da energia, especialmente em países nos quais o fornecimento já é limitado.
O Banco Mundial também chama a atenção para o custo dos incentivos tributários concedidos para atrair os projetos. Governos podem comprometer recursos públicos sem a garantia de que os investimentos criarão empregos, conhecimento ou empresas locais.
Para a maioria dos países em desenvolvimento, tentar reproduzir a corrida das grandes potências pelos modelos mais avançados seria uma estratégia cara e pouco eficiente.
Banco Mundial propõe caminho em três etapas
A recomendação do relatório é começar pela adoção das ferramentas disponíveis. O passo seguinte consiste em adaptar os sistemas aos idiomas, aos dados e às condições locais. Somente depois os países deveriam avançar para o desenvolvimento de modelos e infraestruturas próprios.
A estratégia permite obter ganhos com ferramentas menores e mais baratas, que podem funcionar em celulares básicos, por mensagens de texto ou mesmo sem conexão permanente à internet.
“A janela para fazer isso corretamente é estreita”, afirmou Gaurav Nayyar, diretor do Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2026.
Para Nayyar, a inteligência artificial oferece uma oportunidade rara para resolver problemas que persistem há gerações, mas os países precisam construir as condições necessárias para aproveitá-la.
“Os países em desenvolvimento que construírem agora as bases, energia, conectividade, competências e instituições, estarão em posição de adotar e adaptar a IA para suas populações”, disse.
Na África Subsaariana, quase um terço das escolas rurais ainda não possui fornecimento confiável de eletricidade. Mais de dois terços não contam com acesso estável à internet.
Sem a redução dessas lacunas, a inteligência artificial pode ampliar a desigualdade entre países, concentrar poder econômico e enfraquecer a confiança nas instituições públicas. Para o Banco Mundial, a tecnologia oferece uma oportunidade única, mas seus benefícios não serão distribuídos automaticamente.