O Brasil é hoje a terceira maior operação da francesa Indigo no mundo, mas já ocupa o segundo lugar na fila dos investimentos. O país responde por aproximadamente 15% dos negócios do grupo e deve receber entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões por ano para financiar a expansão.
“O Brasil é superestratégico para a gente”, afirma Thiago Piovesan, CEO da Indigo Brasil, em entrevista à Forbes. “Hoje, somos a terceira operação, mas a segunda em foco de investimento e crescimento, tamanho da oportunidade que temos aqui de desenvolver tanto a parte de inovação quanto crescer propriamente dito.”
A França, sede da companhia, continua distante na liderança. Além de concentrar mais da metade da operação, o país tem contratos de concessão que podem chegar a 70 anos. A Espanha aparece na segunda posição, seguida pelo Brasil.
O peso brasileiro deve aumentar. A Indigo faturou aproximadamente R$ 1,7 bilhão no país em 2025 e espera alcançar R$ 2 bilhões neste ano. Nos últimos quatro anos, a empresa dobrou de tamanho por aqui.
“Se pudermos dobrar de tamanho novamente nos próximos ciclos, vamos buscar isso. Cada vez que a empresa cresce, dobrar fica mais difícil, mas a ideia é continuar avançando de forma acelerada”, diz Piovesan.
O plano anual de até R$ 300 milhões não representa um teto. Segundo o executivo, há dinheiro disponível para novos projetos se aparecerem oportunidades capazes de trazer retorno e ampliar o negócio.
“Em nenhum cenário, o valor do investimento foi um limitador. Muitas vezes, o limitador foi de fato o mercado não trazer todas as oportunidades”, afirma.
Em novembro de 2025, o grupo francês assumiu 100% do capital da Indigo Brasil. Na época, a operação reunia mais de 320 ativos em 24 estados e cem cidades.
No mundo, a Indigo faturou € 1,015 bilhão em 2025, alta de 10%, e registrou Ebitda de € 479 milhões. A companhia administra 1,7 milhão de vagas em 2.800 estacionamentos, distribuídos por mais de 580 cidades em dez países, segundo os resultados anuais do grupo.
No Brasil, são mais de 350 mil vagas e quase 5 mil funcionários. Mesmo com esse tamanho, a estimativa da companhia é que sua participação no mercado nacional ainda esteja abaixo de 15%. É essa conta que sustenta a disposição da matriz em continuar investindo.
A lição da pandemia
Piovesan está na Indigo desde 2018 e acompanhou a mudança de estratégia que reduziu a dependência dos shopping centers. Naquela época, boa parte do resultado vinha desse segmento. A pandemia expôs o risco da concentração.
“A pandemia nos ensinou muito disso”, diz. “Estávamos muito concentrados em shopping centers, e uma das missões passou a ser crescer também em outros segmentos. Apesar de ser tudo estacionamento, as operações são completamente diferentes, assim como a expectativa do cliente.”
Os shoppings ainda são o maior negócio da Indigo no Brasil, com mais de 180 empreendimentos. A companhia, porém, passou a buscar espaço em aeroportos, hospitais, universidades, parques e arenas esportivas.
O portfólio inclui os parques Ibirapuera e Villa-Lobos, em São Paulo, o Parque Nacional do Iguaçu e unidades de hospitais como Albert Einstein, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz.
A diversificação também permite testar uma solução em um segmento e levá-la para outro. Foi o que aconteceu com o uso de inteligência artificial para prever o fluxo nos estacionamentos, adotado primeiro nos aeroportos.
A Indigo acaba de assumir as operações dos aeroportos de Florianópolis, Natal e Vitória, administrados pela Zurich Airport Brasil. Os contratos elevaram para 12 o número de terminais atendidos pela empresa e acrescentaram 5,5 mil vagas ao portfólio.
Juntos, os três aeroportos devem receber 4,5 milhões de carros por ano. Com os novos contratos, o segmento se tornou o segundo maior negócio da Indigo no país, atrás apenas dos shopping centers. A expectativa é que passe a representar entre 10% e 15% da operação brasileira, dependendo do fluxo de passageiros.
O avanço ocorre em um bom momento para a aviação. Entre janeiro e maio de 2026, os aeroportos brasileiros receberam o recorde de 54,9 milhões de passageiros. O número é 6,7% maior que o registrado no mesmo período de 2025, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos.
O estacionamento virou um negócio de dados
Há cerca de dois anos, a Indigo começou a usar inteligência artificial nos estacionamentos de aeroportos brasileiros. Curitiba foi a primeira operação a testar o modelo, desenvolvido no Canadá e adaptado ao mercado nacional.
O sistema cruza o histórico de ocupação com informações sobre sazonalidade, previsão do tempo, agenda de eventos e preços de aplicativos de transporte e estacionamentos concorrentes.
Com esses dados, a companhia tenta prever o movimento das semanas seguintes. A ferramenta sugere campanhas, mudanças na distribuição das vagas e preços diferentes para reservas antecipadas feitas pelo Indigo Neo.
Não se trata de trocar o valor cobrado a cada minuto. A tarifa varia por período e tipo de vaga, principalmente nas compras feitas com antecedência. Depois da reserva, o preço não muda.
Nas ações testadas pela empresa, a conversão de passageiros em clientes dos estacionamentos cresceu mais de 10%. Em alguns casos, o avanço chegou a 20% na comparação com períodos equivalentes.
“O estacionamento não deve mais ser um local pronto, estático, que você revisa uma vez por ano para decidir se aumenta a tarifa pela inflação”, afirma Piovesan. “Ele tem de ser um corpo vivo, que se adapta à necessidade do público daquele local.”
A previsão do movimento ajuda a organizar as equipes e a preparar os acessos para os horários de pico. Também permite decidir se a empresa deve estimular uma área mais barata ou oferecer serviços adicionais nas vagas premium.
Nos shopping centers, a Indigo já processou mais de 4 bilhões de dados sobre entradas, tempo de permanência e frequência dos usuários. As informações ajudam a medir, por exemplo, se uma mudança no período de isenção ou a realização de um evento aumentou o fluxo de clientes.
Piovesan diz que o Brasil não está atrás de outros mercados no uso dessas ferramentas. O desafio é adaptar a tecnologia ao comportamento do consumidor local.
“Todo mundo acha que o Brasil está atrasado, mas estamos em um nível de desenvolvimento muito parecido com o de outros países”, diz. “O que funciona para o francês, o belga ou o canadense não pode ser colocado aqui automaticamente.”
Arenas entram no portfólio
A próxima frente de crescimento está nas arenas esportivas. A Indigo começou 2026 assumindo os estacionamentos do Mineirão, em Belo Horizonte, e do Serra Dourada, em Goiânia. Os dois se juntaram à Neo Química Arena, do Corinthians, atendida pela empresa desde 2018.
As três arenas somam mais de 11 mil vagas. A aposta acompanha uma mudança no modelo de negócios dos estádios, que passaram a receber shows, eventos corporativos e outras atrações além das partidas de futebol.
No Mineirão, aproximadamente 95% dos veículos que entram no estacionamento em dias de eventos já chegam com reservas feitas pelo aplicativo ou pelo site. A operação é totalmente digital e não recebe pagamentos em dinheiro no local.
Saber de antemão quantos carros chegarão ajuda a distribuir as vagas e organizar a entrada e a saída, especialmente quando milhares de pessoas se movimentam quase ao mesmo tempo. Também dá à Indigo informações sobre a origem e a frequência do público.
É uma mudança importante para uma empresa que não quer mais ser vista apenas como administradora de cancelas.
“Menos operador de estacionamento e mais parceiro de mobilidade”, resume Piovesan. “O resultado muitas vezes não aparece apenas na receita do estacionamento, mas na performance do empreendimento como um todo.”
O problema que a tecnologia não resolve
Apesar dos investimentos em digitalização, o maior desafio de Piovesan hoje é encontrar e reter funcionários. A Indigo emprega quase 5 mil pessoas no Brasil e ainda depende do atendimento humano em boa parte das operações.
A necessidade muda conforme o local. Em um aeroporto, o motorista quer entrar e sair sem precisar falar com ninguém. Em um hospital, o funcionário do estacionamento pode ser a primeira pessoa a receber uma família que chega para celebrar um nascimento ou acompanhar um momento de perda.
“No hospital, existem propósitos muito diferentes. Você pode ir para festejar um filho ou para se despedir de alguém”, afirma. “A mão de obra é crítica não apenas pela quantidade, mas principalmente pela sensibilidade e pelo acolhimento que precisamos oferecer.”
De acordo com o CEO, entre 5% e 10% dos investimentos da Indigo Brasil são destinados a inovação e tecnologia. A automação avança, mas não cabe da mesma forma em todos os contratos.
Nos aeroportos e nas arenas, o objetivo é reduzir atritos e tornar a passagem pelo estacionamento quase invisível. Nos hospitais, a tecnologia precisa conviver com um serviço que ainda depende de gente preparada para receber gente.