O IPCA-15, considerado a prévia da inflação, desacelerou 0,40% em agosto, informou o IBGE nesta quarta-feira (26). Foi a primeira deflação do índice em um ano e a maior desde agosto de 2022, quando havia recuado 0,73%. O resultado também veio melhor que a mediana das projeções compiladas pelo mercado, de queda de 0,32%.
A leitura muda a fotografia da inflação brasileira, mas não necessariamente sua direção. Em 12 meses, o IPCA-15 desacelerou de 4,52% em julho para 4,24%, ficando abaixo do teto de 4,5% da meta perseguida pelo Banco Central. É a primeira vez desde abril que o indicador fica abaixo desse limite.
Parte importante da queda, porém, veio de um fator que não deve se repetir nos próximos meses. A energia elétrica residencial recuou 6,25% em agosto, com impacto de 0,26 ponto percentual para baixo no índice. O movimento refletiu a incorporação do bônus de Itaipu nas contas de luz emitidas no mês.
O mecanismo distribui aos consumidores o saldo positivo da comercialização de energia da usina de Itaipu apurado no ano anterior. O desconto reduz temporariamente a conta de luz e ajuda a explicar por que a deflação de agosto não deve ser extrapolada como uma mudança estrutural no comportamento dos preços. Mesmo com o bônus, a bandeira tarifária amarela continuou vigente em agosto, acrescentando R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos.
Outros fatores
A energia não foi a única fonte de alívio. O grupo Transportes passou de alta de 0,11% em julho para queda de 1% em agosto. As passagens aéreas despencaram 13,30%, enquanto os combustíveis recuaram 1,43%. Etanol, gasolina e diesel caíram 3,63%, 1,23% e 0,71%, respectivamente. O gás veicular foi a exceção, com alta de 1,42%.
A alimentação também ajudou a empurrar o índice para o terreno negativo. O grupo Alimentação e bebidas caiu 0,57%, enquanto a alimentação no domicílio recuou 0,97%. A queda foi liderada por itens como tomate, que ficou 27,38% mais barato, batata inglesa, com redução de 25,14%, e cenoura, que caiu 17,05%.
O café moído recuou 2,31%, interrompendo parte da pressão que vinha exercendo sobre o orçamento das famílias. Na direção oposta, o leite longa vida subiu 3,41% e as frutas avançaram 3,11%.
A alimentação fora do domicílio também perdeu força, embora tenha continuado em alta. A variação passou de 0,55% em julho para 0,42% em agosto. O preço das refeições desacelerou de 0,66% para 0,25%, enquanto os lanches aceleraram de 0,30% para 0,75%.
Nem todos os componentes acompanharam a deflação. Despesas pessoais subiram 0,66%, pressionadas principalmente pelo reajuste dos cigarros, de 5,56%, a partir de agosto. Educação aumentou 0,46%, com alta de 0,52% nos cursos regulares.
Em Saúde e cuidados pessoais, a alta foi de 0,40%. Os artigos de higiene pessoal subiram 0,47%. Os planos de saúde avançaram 0,42%, refletindo a incorporação dos reajustes autorizados pela ANS.
O contraste entre os grupos mostra por que a leitura de agosto exige cautela. A deflação de 0,40% resulta em grande medida da combinação de energia elétrica, transportes e alimentos, três componentes sujeitos a choques específicos e, em alguns casos, reversíveis. Não significa que a pressão sobre os preços tenha desaparecido.
Ainda assim, o dado altera a trajetória recente. O IPCA-15 acumula alta de 3,09% no ano até agosto e de 4,24%
em 12 meses.