Os brasileiros enviam atualmente 215 milhões de mensagens por dia ao ChatGPT, volume 54% superior aos 140 milhões registrados em novembro de 2025. No mesmo período, a base de usuários da plataforma no país quase dobrou.
Com audiência, frequência de uso e uma comunidade ativa de desenvolvedores, o Brasil passou de grande mercado consumidor para uma peça relevante na estratégia de expansão da OpenAI. Nesta segunda-feira (17), a dona do ChatGPT anunciou formalmente sua operação de negócios no país, novas contratações e uma série de parcerias nas áreas de educação, pesquisa, serviços públicos e capacitação profissional.
“O Brasil já é um de nossos mercados prioritários. Os brasileiros enviam cerca de 215 milhões de mensagens ao ChatGPT todos os dias, e nossa base de usuários no país quase dobrou no último ano”, afirmou Oliver Jay, vice-presidente de Estratégia Internacional da OpenAI, durante encontro com jornalistas em São Paulo.
“Mais do que a escala, vemos uma adoção cada vez mais sofisticada da IA por pessoas, empresas e desenvolvedores. Nosso próximo passo é ajudar a transformar esse movimento em mais produtividade, inovação e oportunidades econômicas para o país”, disse.
A OpenAI já abriu um escritório em São Paulo, formou uma equipe local e prepara novas contratações. Segundo Jay, a companhia pretende “aprofundar suas raízes” no mercado brasileiro e desenvolver soluções em conjunto com empresas, universidades e órgãos públicos.
“O Brasil já é um dos mercados mais importantes no cenário da inteligência artificial. E acreditamos que esse papel está apenas começando”, afirmou o executivo. “Queremos aprofundar nosso compromisso de construir no país.”
Jason Kwon, Chief Strategy Officer da OpenAI, reforçou a importância do mercado brasileiro para a companhia. Ao responder a uma pergunta da Forbes sobre os desafios encontrados no país, ele afirmou que a prioridade é transformar o avanço tecnológico em benefícios práticos.
“É um dos nossos mercados mais importantes. O Brasil está entre os três maiores em usuários ativos semanais e queremos garantir que estamos fazendo um bom trabalho para as pessoas daqui”, afirmou Kwon, que participou do encontro por videoconferência.
“Uma das oportunidades que vemos é reduzir o que chamamos de lacuna de capacidade. A inteligência dos modelos cresceu de maneira incrível. A questão é como colocar os benefícios desse avanço nas mãos das pessoas para que elas consigam usá-los no dia a dia”, acrescentou.
Da audiência para o trabalho
O uso profissional é um dos diferenciais do mercado brasileiro. Em junho de 2026, 35% das mensagens classificadas enviadas por brasileiros em planos individuais estavam relacionadas ao trabalho. Globalmente, o percentual era de 30%.
Entre essas interações, 53% envolviam pedidos para que o ChatGPT concluísse uma tarefa ou produzisse algum resultado. Isso inclui atividades como redigir documentos, analisar planilhas, preparar apresentações e organizar informações.
Os números consideram contas individuais e não abrangem planos administrados por empresas. No mercado corporativo, porém, a OpenAI afirma que seu número de usuários no Brasil aumentou cinco vezes em relação ao ano anterior.
“A adoção do ChatGPT pelas empresas segue uma curva que eu realmente nunca tinha visto. É praticamente vertical”, afirmou Jay. “As companhias estão usando cada vez mais o ChatGPT para trabalhos realizados por agentes, que efetivamente executam tarefas.”
Segundo o executivo, a adoção ocorre de maneira horizontal. Em vez de ficar restrita às empresas de tecnologia, aparece em funções comuns a diferentes setores, como finanças, marketing e jurídico.
“Quando pensamos na área financeira de uma empresa, os processos não são tão diferentes entre os setores. O mesmo vale para marketing e jurídico. Todos estão usando o ChatGPT”, disse.
Jay afirmou que os modelos passaram a executar atividades como elaborar apresentações, construir e analisar planilhas e realizar pesquisas que antes exigiam horas de trabalho. A mudança, segundo ele, foi acelerada pela possibilidade de conectar a inteligência artificial ao contexto interno das empresas.
Essas conexões, chamadas pela OpenAI de plugins, permitem que o ChatGPT acesse ferramentas como e-mail, Microsoft Teams e SharePoint, respeitando as permissões já definidas pelas companhias.
“Nossa abordagem é manter o modelo de permissões que a empresa já possui. Os agentes que trabalham em seu nome devem ter acesso aos dados aos quais você tem acesso. Ao que você não tem, eles também não devem ter”, afirmou Jay.
O executivo também afirmou que os dados de clientes corporativos não são utilizados para treinar os modelos da OpenAI.
“No ambiente empresarial, não treinamos os modelos com os dados das empresas. Não há treinamento com esses dados”, disse.
O agente que participa de reuniões de investimento
Durante o encontro, os executivos ouviram o relato sobre uma gestora de venture capital que passou a utilizar um agente de inteligência artificial em suas reuniões de investimento.
Além de resumir os encontros, o sistema analisa os materiais apresentados, acompanha as discussões e aponta fatores que deveriam ser considerados antes da decisão final sobre um aporte.
Para Jay, o caso mostra como agentes personalizados começam a deixar tarefas operacionais para assumir um papel mais próximo ao de um integrante da equipe.
“Esse exemplo é muito interessante porque o agente foi altamente personalizado. Ele funciona e já é parte da equipe”, afirmou.
A experiência também levanta dúvidas sobre o futuro dos profissionais em início de carreira, tradicionalmente responsáveis pelas tarefas mais operacionais. Na avaliação dos executivos, as empresas continuarão contratando jovens, mas a capacidade de trabalhar com inteligência artificial deverá ganhar peso.
“Um dos maiores valores que essa nova geração pode levar às empresas é o conhecimento avançado de como utilizar agentes e introduzi-los em ambientes que talvez não tenham mudado sua forma de trabalhar nos últimos dez, vinte ou trinta anos”, disse Jay. “Vocês nos verão investir cada vez mais nisso.”
Contratações para implantar IA nas empresas
Para capturar essa demanda, parte relevante das contratações da OpenAI no Brasil será destinada à área de implantação. Os profissionais trabalharão diretamente com empresas para identificar processos que podem ser automatizados e integrar as ferramentas da companhia aos sistemas internos.
“Estamos investindo muito em parcerias com empresas para levar nosso conhecimento, as lições aprendidas e as melhores práticas para dentro das organizações”, afirmou Kwon. “Vocês verão um número significativo das nossas contratações nessa área.”
O Itaú foi citado como exemplo de adoção corporativa do ChatGPT. A OpenAI também trabalha com Nubank e Localiza em projetos construídos sobre sua tecnologia.
No Nubank, a companhia participa do desenvolvimento de um private banker apoiado por inteligência artificial e de uma plataforma de atendimento capaz de coordenar diferentes recursos especializados.
“Estamos construindo fluxos de trabalho bastante complexos junto com o Nubank”, afirmou Jay. Segundo ele, a tecnologia pode ajudar a ampliar o acesso a serviços que historicamente ficaram restritos aos clientes de maior patrimônio.
A Localiza utiliza o ChatGPT para tornar mais simples e conversacional a busca por veículos e serviços. A companhia também aplica a ferramenta para apoiar suas equipes nas atividades cotidianas.
O Boticário, marca do Grupo Boticário, emprega a tecnologia da OpenAI para auxiliar revendedores e funcionários, ampliar o acesso a informações e personalizar o atendimento. Segundo a empresa, a aplicação inclui privacidade, governança e supervisão humana.
Na educação, o Insper disponibilizará o ChatGPT Edu para toda a sua comunidade acadêmica. A iniciativa pretende apoiar o ensino, a pesquisa e o desenvolvimento de habilidades práticas em inteligência artificial.
A OpenAI também anunciou uma colaboração com a Rappi. Clientes elegíveis poderão receber um mês de ChatGPT Go, enquanto assinantes elegíveis do Rappi Pro Black poderão ter acesso por até seis meses.
O próximo passo está entre as empresas que pretendem desenvolver produtos próprios sobre a API da OpenAI. O Brasil ocupa a segunda posição mundial em número de desenvolvedores que utilizam a plataforma.
“É aí que as coisas ficam muito interessantes”, afirmou Jay. “Espero que vejamos bastante inovação, especialmente com os novos modelos de voz. Acredito que haverá uma adesão muito forte dos brasileiros.”
A disputa pelo preço da inteligência artificial
O avanço da OpenAI no mercado corporativo ocorre em meio ao aumento da concorrência com empresas americanas e desenvolvedores de modelos chineses, alguns deles oferecidos a preços mais baixos ou em código aberto.
Questionado sobre essa disputa, Kwon afirmou que o custo isolado de cada token não é a principal medida considerada pela companhia.
“Não se trata apenas de preço. Trata-se de desempenho em cada faixa de preço. Você sempre pode comprar algo barato, mas, se aquilo não fizer o trabalho, não importa que seja barato”, disse.
Segundo ele, a OpenAI reduziu recentemente os preços dos modelos Terra e Luna, da família GPT-5.6. A demanda adicional teria compensado a redução cobrada pelo uso.
“Continuamos indo tão bem quanto antes, ou até melhor, ao mesmo tempo em que permanecemos competitivos em preço e desempenho”, afirmou.
Jay acrescentou que a empresa prefere avaliar o custo de uma tarefa concluída, e não apenas o preço por token processado.
“O que realmente importa é o custo por trabalho realizado. Quando se considera a eficiência dos modelos, é isso que faz diferença no campo”, disse.
ITA, Prodam, ENTER e Estímulo
Uma das frentes da nova operação está na formação de profissionais. A OpenAI fornecerá contas do ChatGPT Edu para estudantes, professores e funcionários do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA.
A parceria também prevê créditos para acesso a recursos avançados, como modelos de raciocínio e o Codex. A proposta é apoiar o uso da inteligência artificial no ensino, na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico.
No setor público, a OpenAI e a Prefeitura de São Paulo, por meio da Prodam, assinaram uma carta de intenções para ampliar o uso responsável da inteligência artificial na administração municipal. As partes vão avaliar como a tecnologia pode melhorar os serviços públicos e como a experiência poderá ser levada a outras administrações.
A empresa também fechou uma parceria com a ENTER, companhia brasileira de inteligência artificial voltada ao setor jurídico. As duas estão desenvolvendo um programa nacional de letramento em IA para profissionais do Direito.
A formação combinará o uso do ChatGPT com treinamento para que advogados e outros profissionais utilizem a tecnologia de forma crítica, segura e eficaz.
Para alcançar os pequenos negócios, a OpenAI se uniu ao Estímulo, organização voltada ao apoio de empreendedores. A iniciativa será gratuita, online e aberta a micro e pequenos empresários de todo o país.
O programa ensinará como aplicar o ChatGPT em atividades como marketing, vendas, atendimento ao cliente, finanças, produtividade e gestão. O conteúdo terá aulas curtas e exemplos relacionados à realidade das pequenas empresas.
Educação para além da universidade
A educação também apareceu na entrevista como uma das principais frentes de expansão da OpenAI no Brasil. Kwon reconheceu a preocupação de professores com o uso da inteligência artificial por alunos, mas argumentou que a tecnologia pode ser empregada para orientar o raciocínio, em vez de simplesmente entregar uma resposta.
Ele citou o Modo Estudo, recurso no qual o ChatGPT conduz o usuário por etapas para ajudá-lo a compreender um problema.
“Quando você faz uma pergunta, ele orienta sobre como pensar naquela questão, em vez de simplesmente dar a resposta”, afirmou.
O executivo também indicou que a OpenAI pretende ampliar no Brasil as atividades da OpenAI Academy, iniciativa voltada ao letramento em inteligência artificial e à capacitação de comunidades.
“Provavelmente faremos mais ao longo do ano no Brasil. É um programa que entra nas comunidades e tenta ajudá-las a entender como usar melhor a inteligência artificial”, disse Kwon.
Pesquisa no IMPA e no SUS
A OpenAI anunciou apoio financeiro a dois projetos brasileiros de pesquisa independente.
O Instituto de Matemática Pura e Aplicada vai estudar o que as instituições científicas precisam para transformar o acesso à inteligência artificial em avanços efetivos. O trabalho incluirá capacitação, governança, suporte de engenharia, infraestrutura e uso confiável da tecnologia na matemática.
O segundo projeto será conduzido pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. A instituição fará uma avaliação controlada de uma infraestrutura de informação clínica assistida por IA para o Sistema Único de Saúde.
O estudo utilizará dados sintéticos ou devidamente não identificados e avaliará possíveis benefícios para os fluxos clínicos, a organização das informações e a navegação dos pacientes pelos serviços de saúde. A decisão médica e a supervisão humana serão preservadas.
Os projetos fazem parte de um grupo de 14 iniciativas independentes selecionadas pela OpenAI no mundo. Juntas, elas receberão US$ 1 milhão em financiamento e até US$ 1 milhão em créditos para a API. Os resultados devem ser divulgados em 2027.
Imagens, voz e português impulsionam o uso
O Brasil tem a maior penetração de uso do ChatGPT Images no mundo e está entre os cinco principais mercados para recursos de voz e ditado.
O número de usuários semanais do modo de voz dobrou no último ano. O português já é o terceiro idioma mais utilizado no ChatGPT globalmente.
Em junho, recursos multimídia representaram 12% das mensagens classificadas enviadas por contas individuais no Brasil. A média mundial ficou em 8%.
“Isso mostra que, no Brasil, os usuários já avançaram muito além dos tempos em que a inteligência artificial era apenas um chatbot”, disse Jay. “Eles estão trazendo sua cultura, sua língua e sua criatividade para a forma como usam a tecnologia.”
Entre as mensagens enviadas por brasileiros que informaram a idade, 63% partiram de pessoas entre 18 e 34 anos. Usuários com 35 anos ou mais responderam pelos 37% restantes. Os percentuais representam a distribuição das mensagens, e não a proporção de usuários em cada faixa.
Eleições e conteúdo produzido por IA
Com o Brasil em ano eleitoral, Kwon disse que o ChatGPT foi treinado para não favorecer candidatos e para recusar pedidos que solicitem orientação sobre em quem votar.
“Nossa abordagem se concentra em ajudar as pessoas a encontrar informações confiáveis”, afirmou.
Segundo o executivo, imagens e áudios gerados pelas ferramentas da OpenAI incluem metadados baseados no padrão C2PA, que permitem identificar a origem do conteúdo.
“Se uma imagem foi gerada por nossa ferramenta, existe uma forma de consultar seus detalhes e verificar de onde ela veio”, disse.
Kwon afirmou ainda que a OpenAI monitora tentativas de uso indevido de seus sistemas e pode interromper contas envolvidas, além de divulgar casos identificados. A empresa pretende buscar parcerias locais ao longo do ano para explicar o funcionamento das ferramentas e suas medidas de proteção.
Relação entre Brasil e Estados Unidos
Os executivos também foram questionados sobre os efeitos das tensões entre os governos brasileiro e americano sobre a operação local.
Kwon afirmou que a OpenAI pretende manter o diálogo com autoridades brasileiras independentemente das divergências diplomáticas.
“Continuaremos trabalhando com as autoridades locais de maneira produtiva para garantir que os benefícios da inteligência artificial sejam para todos”, disse.
Segundo ele, a expansão internacional da empresa precisa partir das necessidades de cada mercado.
“Para sermos bem-sucedidos, precisamos fazer as coisas a partir da realidade local. O que a comunidade local efetivamente precisa? É assim que tentamos operar ao expandir nossa presença pelo mundo.”
Ao ser questionado sobre eventuais restrições impostas pelo governo dos Estados Unidos ao acesso internacional a modelos avançados, Kwon afirmou que a relação da OpenAI com a administração americana tem sido positiva.
Ele citou o lançamento gradual do GPT-5.6 Sol, inicialmente submetido a uma distribuição em etapas antes de ter seu acesso internacional ampliado.
“Nossa capacidade de trabalhar com o governo tem sido, de forma geral, bastante positiva. Houve um processo de lançamento em fases e, depois, fomos autorizados rapidamente a ampliar o acesso internacional”, afirmou.
E os data centers?
A possibilidade de investimentos em infraestrutura computacional no Brasil permanece em discussão. Kwon afirmou que a OpenAI está aberta a avaliar projetos, mas não confirmou a construção de data centers nem apresentou valores ou prazos.
“Estamos abertos a essas conversas e falamos sobre esse tipo de investimento em várias partes do mundo”, afirmou. “A quantidade de uso em cada região será importante para entender onde efetivamente investir.”
A dimensão econômica é outro argumento usado pela empresa para justificar sua expansão. Um estudo do centro de pesquisa RegLab, encomendado pela OpenAI, estimou que a adoção da inteligência artificial pode acrescentar até R$ 1 trilhão ao PIB brasileiro até 2030. O valor equivale a 7,6% do PIB projetado para 2026.
Jay reconheceu que o número representa um potencial, e não um resultado garantido.
“Para transformar esse potencial em realidade, precisamos investir em competências”, afirmou. “As empresas de tecnologia precisam trabalhar com pequenos e grandes negócios e investir na qualificação das pessoas.”
A audiência brasileira já está consolidada. O movimento da OpenAI agora é transformar milhões de interações diárias em contratos, novos produtos e ganhos mensuráveis de produtividade.
“Está muito claro que o Brasil está à altura deste momento da inteligência artificial”, disse Jay. “E queremos estar aqui para acompanhar o país.”