1. Início
  2. /
  3. Forbes Money
  4. /
  5. “A Gente Ainda Tem a Filantropia Familiar para Destravar”, Diz Paula Fabiani
Forbes Money

“A Gente Ainda Tem a Filantropia Familiar para Destravar”, Diz Paula Fabiani

CEO do IDIS afirma que doações das grandes fortunas ainda estão abaixo do potencial brasileiro e aposta em fundos preventivos para transformar contribuições emergenciais em financiamento contínuo

12 min

A economista Paula Fabiani, CEO do IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), passou meses, em alguns casos quase um ano, tentando agendar reuniões com interlocutores internacionais. Depois de se tornar a primeira brasileira incluída na lista das cem pessoas mais influentes da filantropia mundial da revista TIME há pouco mais de dois meses, os mesmos encontros passaram a ser marcados em poucas semanas.

A exposição abriu portas, e na avaliação dela, ajudou a colocar o Brasil na agenda filantrópica internacional e a mudar a percepção sobre o papel que o país pode desempenhar nesse campo.

“A gente ainda tem uma filantropia familiar para destravar, que é o recurso de grandes famílias com alto poder aquisitivo”, afirma Fabiani, em entrevista à Forbes. “Tivemos uma evolução nos últimos anos, mas muito tímida em relação ao potencial que o país tem.”

Fabiani aparece na TIME100 Philanthropy 2026 ao lado de alguns dos maiores doadores e nomes mais conhecidos do mundo, entre eles MacKenzie Scott, Michael e Susan Dell, Elton John e David Furnish, Howard Buffett, Shiv Nadar, Kate Capshaw e Steven Spielberg, Rihanna e Lionel Messi.

Scott doou US$ 1,5 milhão ao IDIS em 2024. O recurso foi utilizado para incentivar contribuições de famílias e fundações brasileiras ao Fundo de Fomento à Filantropia, criado pela organização.

“Eu noto uma mudança de percepção do país a partir dessa indicação, de as pessoas enxergarem o Brasil também como um polo de inovação no campo filantrópico”, diz Fabiani. “A gente sai de um lugar, de um país que precisa de apoio para um país que pode oferecer apoio, pode oferecer soluções.”

Dentro de casa, porém, o potencial está longe de ser plenamente aproveitado. A população brasileira reage rapidamente a enchentes, secas e outras calamidades, e o volume estimado de doações institucionais feitas por indivíduos cresceu nos últimos anos. O desafio é transformar esse impulso em recursos recorrentes, ampliar a participação das famílias mais ricas e fazer com que as empresas tratem a filantropia como parte de uma estratégia de longo prazo. “A filantropia familiar tem grande potencial não exercido”, diz a CEO do IDIS.

Quatro fundos para agir antes da tragédia

Um dos testes dessa mudança de abordagem filantrópica está sendo realizado em quatro territórios de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Alagoas. O programa Transformando Territórios, do IDIS, estruturou fundos emergenciais preventivos com aportes iniciais de R$ 50 mil em cada localidade.

Os fundos foram criados pelo Instituto Cacimba, em São Miguel Paulista, na capital paulista; pela Associação Nossa Cidade, na Grande Belo Horizonte; pelo Instituto Comunitário Paraty, no Rio de Janeiro; e pelo Mundaú Mundo, em Maceió. Outros dois mecanismos, ligados à Fundação Gerações, na Grande Porto Alegre, e ao Fundo Comunitário Perifasul M’Boi Mirim, na capital paulista, estão em fase de estruturação.

O aporte inicial de R$ 200 mil é pequeno diante dos riscos climáticos enfrentados pelos territórios. O IDIS o define como capital semente, destinado a organizar a governança, mapear vulnerabilidades e articular empresas, moradores, organizações sociais e órgãos públicos. Parte do dinheiro permanece como reserva para ser acionada quando uma emergência ocorrer.

A proposta é inverter uma dinâmica recorrente de mobilização financeira cresce quando as imagens de uma tragédia tomam as redes sociais e o noticiário, mas que perde força à medida que a comoção diminui.

“O brasileiro é muito solidário na reação quando acontece o desastre”, afirma Rosana Ferraiuolo, gerente do Programa Transformando Territórios do IDIS.

Segundo ela, o objetivo é mudar essa lógica e fazer com que empresas, fundações, institutos e pessoas físicas olhem permanentemente para os territórios. Cada fundo precisa se tornar um ativo da região, capaz de captar recursos e organizar a resposta local.

No Instituto Cacimba, que atua em uma área de São Miguel Paulista afetada anualmente por enchentes, o diagnóstico relacionou parte dos alagamentos ao descarte inadequado de resíduos. O fundo deverá apoiar ações de educação ambiental, coleta seletiva, geração de renda e articulação com cooperativas, lideranças comunitárias, Defesa Civil e outros órgãos públicos.

Uma parcela do dinheiro ficará reservada para apoiar famílias quando as chuvas provocarem perdas materiais. Não se trata apenas de guardar recursos para distribuir depois de uma enchente. A intenção é financiar a infraestrutura social necessária para reduzir os danos antes que eles ocorram.

“Quem vive e atua nos territórios conhece de perto seus riscos, vulnerabilidades e potencialidades”, diz Rosana. “As fundações e os institutos comunitários desempenham um papel estratégico ao identificar riscos, mobilizar recursos, articular diferentes atores e fortalecer a capacidade dos territórios de prevenir, se preparar e responder a crises.”

O projeto ainda está em fase piloto. Segundo Rosana, os primeiros dados e indicadores provavelmente começarão a surgir em 2027. A avaliação considerará a qualidade da governança, a capacidade de atrair novos apoiadores e a sustentabilidade financeira dos fundos. No médio e no longo prazo, o objetivo será verificar se as comunidades se tornaram mais resilientes.

Brasileiro doou mais, mas com menor frequência

A Pesquisa Doação Brasil 2024, coordenada pelo IDIS e realizada pela Ipsos, ouviu 1.500 adultos das classes A, B e C, com renda familiar superior a um salário mínimo. A amostra representa um universo estimado em 117,8 milhões de pessoas.

Dentro desse universo, 50% fizeram algum tipo de doação em resposta a situações emergenciais em 2024. Entre aqueles que doaram dinheiro para emergências, 60% contribuíram para eventos ocorridos fora do próprio estado.

O levantamento mostra que 43% dos entrevistados fizeram doações institucionais em dinheiro. A categoria inclui recursos destinados a organizações sociais, obras sociais de igrejas, grupos organizados e campanhas de arrecadação para calamidades. Exclui esmolas, dízimos e dinheiro entregue a parentes, amigos ou conhecidos.

O percentual de 43% foi o maior registrado desde 2015, quando havia alcançado 46%.

O volume estimado de doações institucionais feitas por indivíduos chegou a R$ 24,3 bilhões em 2024, crescimento real de 64% diante dos R$ 14,8 bilhões de 2022. A mediana anual doada por pessoa passou de R$ 300 para R$ 480 no período.

Ao mesmo tempo, as contribuições ficaram mais espaçadas. Entre os doadores institucionais, a parcela que doava mensalmente caiu de 44% para 39%, enquanto as doações realizadas a cada seis meses subiram de 9% para 12%.

Também houve redução na proporção de entrevistados que fizeram algum tipo de doação, incluindo dinheiro, bens ou trabalho voluntário. O percentual recuou de 84% em 2022 para 78% em 2024, puxado principalmente pela queda das doações de bens.

O retrato, portanto, não é de avanço linear. Há mais dinheiro destinado a organizações e maior presença de doadores nas faixas superiores de renda, mas ainda falta recorrência.

“Acho que o desafio da filantropia brasileira não é só ampliar o volume de recursos, mas é ter continuidade nessa atuação”, diz Fabiani. “A solução de problemas sociais demora tempo, não é um, dois anos. Você precisa de muitos anos para ter uma transformação.”

Menos pessoas doaram no mundo em 2025

A redução da base de doadores não é exclusividade brasileira. Em 2025, 61% das pessoas pesquisadas pela Charities Aid Foundation fizeram algum tipo de doação, abaixo dos 64% registrados em 2024.

O dado inclui dinheiro destinado diretamente a pessoas necessitadas, doações para organizações e contribuições religiosas. Portanto, não mede apenas recursos enviados a organizações sociais.

O World Giving Report 2026 ouviu mais de 60 mil pessoas em 105 países. Em média, os entrevistados destinaram 1% da renda a essas três modalidades de contribuição.

Os números apontam uma diminuição na proporção de pessoas que doaram, mas não permitem concluir que o volume da filantropia privada tenha encolhido globalmente. O comportamento financeiro varia entre os países.

Nos Estados Unidos, indivíduos, empresas, fundações e heranças destinaram US$ 617,2 bilhões a organizações sociais em 2025, segundo o Giving USA 2026. O total cresceu 5,7% em valores nominais e 3% acima da inflação.

As doações individuais alcançaram US$ 394,2 bilhões. As fundações contribuíram com US$ 117,15 bilhões, enquanto as empresas destinaram US$ 43,67 bilhões. Neste último grupo, o crescimento foi de 3,1% em valores nominais e de 0,5% acima da inflação, resultado considerado estabilidade pela pesquisa.

Os dados mostram que a redução da proporção de doadores não significa, necessariamente, uma retração uniforme do dinheiro privado. No Brasil, a avaliação de Fabiani é que existe maior engajamento, mas as contribuições das famílias mais ricas continuam abaixo do potencial.

“O que eu vejo é um engajamento maior, mas o volume de recursos alocado ainda é aquém do que poderia ser em termos de percentual do patrimônio, percentual da renda”, afirma.

O que impede a filantropia de avançar no Brasil

Fabiani identifica três travas principais para o desenvolvimento da filantropia no Brasil. A primeira é tributária.

Pessoas físicas e empresas podem destinar parte do Imposto de Renda por meio de leis de incentivo, mas os recursos precisam ser direcionados a projetos previamente aprovados pelo poder público. Nas doações livres, feitas diretamente a uma organização escolhida pelo doador, não há o mesmo incentivo. “A gente não consegue nem abater da base de Imposto de Renda”, afirma Fabiani.

Segundo ela, menos de 5% das pessoas físicas que poderiam utilizar as leis de incentivo efetivamente fazem essas destinações. A burocracia também responde pela baixa adesão. Empresas conseguem recorrer a equipes jurídicas, financeiras e contábeis para operar esses mecanismos, estrutura que a maior parte dos indivíduos não possui.

A segunda trava é educacional. O tema raramente aparece nas escolas e universidades brasileiras, enquanto o voluntariado e a participação comunitária são estimulados desde cedo em outros países.

A terceira é cultural. O brasileiro ainda evita falar sobre quanto e para quem doa. Em 2015, 84% dos entrevistados pela Pesquisa Doação Brasil concordavam que as pessoas não deveriam comentar suas doações. Em 2024, o percentual ainda era de 75%. “Como é que você promove uma cultura de doação se você não pode falar do assunto?”, questiona Fabiani.

Por que a filantropia cria valor para as empresas

A continuidade também depende de convencer as empresas de que a filantropia não representa apenas uma saída de dinheiro. Economista formada pela FEA-USP e com passagem pelo mercado financeiro, Fabiani dedicou seu doutorado em Administração na Fundação Getulio Vargas ao estudo de como a filantropia corporativa pode criar valor para as próprias companhias.

Segundo ela, doações estruturadas podem melhorar a reputação, aumentar a motivação e a retenção de funcionários, fortalecer o relacionamento com comunidades e reduzir conflitos nas áreas onde as empresas operam.

“É óbvio que, quando você faz uma doação filantrópica, você apoia um projeto, você está criando valor para a sociedade, mas essa doação também precisa criar valor para a empresa”, afirma. “Porque senão esse valor não é percebido pelos dirigentes da empresa e aí é muito fácil você ter uma descontinuidade da ação filantrópica.”

Os dados da Pesquisa Doação Brasil reforçam o argumento. Entre os entrevistados que doaram em situações emergenciais, 70% afirmaram valorizar e lembrar das empresas que contribuíram. Ao mesmo tempo, 46% consideraram que as companhias doam menos do que deveriam nessas ocasiões.

O IDIS e o Instituto MOL criaram o Compromisso 1%, movimento que incentiva empresas de diferentes portes e setores a destinarem pelo menos 1% do lucro líquido anual a causas socioambientais.

Para Fabiani, contribuições episódicas podem ajudar a sociedade em um momento crítico, mas dificilmente criam valor duradouro para a empresa. A continuidade é necessária para construir relacionamentos com funcionários, comunidades e outras partes interessadas.

Essa regularidade é especialmente importante nos fundos emergenciais preventivos. As doações realizadas somente depois de uma tragédia ajudam a responder à crise, mas não financiam o planejamento, a governança e o conhecimento local necessários para reduzir perdas futuras.

Um capital que pode correr riscos

Ao combinar recursos privados, conhecimento comunitário e articulação com o poder público, os fundos preventivos buscam financiar medidas que normalmente não atraem dinheiro enquanto a emergência ainda parece distante.

Para Fabiani, a principal vantagem da filantropia está na liberdade para assumir riscos que empresas, governos e investidores tradicionais muitas vezes evitam.

“A filantropia pode ser um capital paciente, porque tem essa possibilidade de esperar, e capital de risco para a inovação social”, afirma.

Segundo ela, o dinheiro filantrópico pode financiar o teste de novos modelos e a produção de evidências e dados. Soluções bem-sucedidas podem, posteriormente, ser adotadas em maior escala pelo poder público.

O objetivo dos novos fundos será demonstrar que doar antes de uma enchente, uma seca ou uma onda de calor pode produzir mais impacto do que concentrar recursos apenas na reconstrução. Para isso, o projeto ainda terá de provar que consegue atrair novos financiadores, manter o dinheiro disponível e ampliar a capacidade de resposta das comunidades.

Se funcionar, o capital semente de R$ 50 mil poderá ter um valor maior do que o tamanho inicial sugere. Poderá mostrar como o potencial filantrópico que o Brasil apresenta ao mundo pode começar a ser exercido dentro dos próprios territórios.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.