O Guinness World Records nasceu para encerrar discussões de bar. No início da década de 1950, depois de uma caçada na Irlanda, o então diretor-geral da cervejaria Guinness, Sir Hugh Beaver, entrou em um debate sobre qual seria a ave de caça mais rápida da Europa. Como ninguém encontrou uma fonte capaz de dar a resposta, ele percebeu que dúvidas semelhantes deveriam alimentar conversas em pubs de todo o Reino Unido.
Hoje, o próprio Guinness aponta o merganso-de-peito-vermelho (Mergus serrator) como a resposta mais provável. A espécie detém o recorde mundial de ave de caça mais rápida, com velocidade de 130 km/h em voo nivelado. A companhia faz a ressalva de que a pergunta original nunca chegou a ser oficialmente respondida pelos livros, que se concentraram em recordes mundiais e não continentais.
A ideia deu origem, em 1955, ao primeiro Guinness Book of Records. Sete décadas depois, o livro ainda é o rosto mais conhecido da marca, mas já não representa a maior parte de seu negócio.
Consultoria para empresas, conteúdo digital e televisão, entretenimento ao vivo e comércio eletrônico responderam por 71% do faturamento do Guinness World Records em 2025, segundo dados apresentados com exclusividade à Forbes.
Agora, a companhia quer usar a credibilidade construída com a certificação de recordes para ampliar sua presença em telas, eventos, lojas e espaços permanentes de entretenimento.
“Queremos nos tornar uma marca de mídia e entretenimento de classe mundial e diversificar nosso modelo de negócios para alcançar e envolver consumidores pelos diferentes meios do mundo moderno”, afirmou Nicole Pando, vice-presidente do Guinness World Records para as Américas, em entrevista exclusiva à Forbes.
Pando trabalha na empresa desde 2013 e assumiu o atual cargo em 2025. Segundo a executiva, a estratégia não passa por abandonar o livro que tornou o Guinness conhecido, mas por transformar o interesse despertado pelos recordes em novos formatos e fontes de receita.
“Como marca, o Guinness World Records mapeia o grandioso, o único e o incomum”, disse. “Respondemos à curiosidade humana de compreender nosso lugar no mundo, buscar a verdade, encontrar ordem no caos e à fascinação inata das pessoas pelos superlativos.”
Brasil ganha espaço na estratégia
O Brasil está entre os mercados que ganham espaço na expansão do Guinness World Records pela América Latina. Pando afirma ter acompanhado um crescimento expressivo da operação regional desde que entrou na companhia, impulsionado por tentativas que combinam elementos culturais, causas sociais e grandes acontecimentos.
“Vi um crescimento notável na América Latina e no Brasil”, afirmou. “A criatividade e o propósito por trás de cada evento de recorde na região são impressionantes, muitas vezes enraizados em tradições culturais, causas relevantes, como a sustentabilidade, ou momentos marcantes, como a Copa do Mundo.”
Para o Guinness, uma tentativa bem-sucedida não termina com a entrega do certificado. O evento pode se transformar em campanha publicitária, conteúdo para redes sociais, material para programas de televisão e experiência presencial para o público.
“Cada tentativa conta uma história envolvente”, disse Pando. Essa capacidade de gerar histórias também ajuda a atrair empresas interessadas em associar suas marcas a feitos inéditos.
“Marcas e empresas nos procuram para criar conexões com o público, ampliar suas mensagens e, em última análise, realizar algo que nunca foi feito antes”, afirmou.
Do livro aos novos negócios
A primeira edição do Guinness Book of Records chegou às livrarias em 27 de agosto de 1955. A publicação foi preparada pelos irmãos Norris e Ross McWhirter, pesquisadores especializados em fatos e estatísticas. O trabalho levou 13 semanas e meia, em jornadas que chegaram a 90 horas semanais, segundo o histórico oficial da companhia.
O livro nasceu como uma ação promocional da cervejaria, mas rapidamente ganhou vida própria. Em 1964, as vendas acumuladas chegaram a 1 milhão de exemplares. Dez anos depois, a publicação foi reconhecida como o livro protegido por direitos autorais mais vendido da história, com quase 24 milhões de cópias.
A marca de 100 milhões de unidades foi alcançada em 2003. Atualmente, a companhia informa ter vendido mais de 143 milhões de livros em mais de 100 países.
“O livro foi onde começamos e, todos os anos, as pessoas recorrem a nós para ajudá-las a ser, encontrar e medir o que há de maior no mundo”, disse Pando. “Acreditamos que isso é um privilégio, que nos oferece uma janela única para o mundo, e queremos compartilhá-la com o maior número possível de pessoas nos próximos 70 anos.”
Para a executiva, o acervo construído ao longo dessas sete décadas também funciona como um registro das transformações da sociedade.
“Temos muito orgulho da nossa herança e acreditamos que nossa história representa uma cápsula do tempo em constante expansão sobre as normas sociais e culturais de cada época”, afirmou.
A separação da cervejaria
A empresa adotou o nome Guinness World Records em 1999. Em 2001, foi vendida pela Diageo, controladora da cervejaria Guinness, para o grupo britânico Gullane Entertainment. Um ano depois, passou para a HIT Entertainment.
Desde 2008, o Guinness World Records pertence ao conglomerado canadense Jim Pattison Group e não mantém vínculo societário com a marca de cerveja. Os principais marcos estão reunidos na linha do tempo oficial da companhia.
A diversificação começou antes da mudança de controle. A primeira série de televisão relacionada ao Guinness foi produzida para a BBC em 1972. Em 1998, a companhia lançou sua primeira produção original nos Estados Unidos. O site entrou no ar em 2000.
O avanço no mercado corporativo ganhou uma estrutura própria em 2009, com a criação do GWR for Business. O braço de consultoria auxilia empresas a transformar tentativas de recorde em campanhas publicitárias, lançamentos de produtos, ações de engajamento de funcionários e projetos de turismo ou arrecadação de recursos.
O Guinness mantém mais de 60 mil títulos de recordes em sua base de dados. Eles podem servir como ponto de partida para as campanhas desenvolvidas com empresas, segundo a área de soluções corporativas.
Como o Guinness ganha dinheiro com recordes
O modelo de negócios separa tentativas pessoais de ações comerciais. Indivíduos e pequenos grupos que desejam estabelecer um recorde por realização pessoal podem usar o processo gratuito de inscrição. Segundo Pando, aproximadamente 98% dos pedidos são analisados por esse caminho.
Empresas, organizações ou pessoas que pretendem usar uma tentativa para promover produtos, aumentar vendas ou envolver consumidores precisam firmar um contrato com o Guinness. O acordo estabelece os serviços prestados e como o nome e os símbolos da companhia poderão ser usados.
Os valores variam de acordo com o alcance da campanha, o licenciamento da marca e os serviços profissionais contratados. A empresa pode participar da escolha do recorde, da elaboração das regras, da análise das provas e do envio de um juiz oficial ao evento.
O pagamento, porém, não garante a conquista do título. “Nós fornecemos os serviços de avaliação e acrescentamos nossa marca de autenticidade por meio do licenciamento do logotipo, mas a responsabilidade por alcançar o recorde permanece inteiramente com a empresa”, disse Pando. “Sempre foi assim e sempre será.”
Em 2025, o Guinness recebeu pouco mais de 49 mil inscrições provenientes de 190 países. Desse total, 3.247 recordes foram aprovados. A companhia também participou de 1.288 ativações de marcas durante o ano, de acordo com os números apresentados pela executiva à Forbes.
Da televisão às experiências presenciais
A produção de conteúdo é outro pilar da expansão. O GWR Studios, criado em 2022, reúne as operações de televisão e licenciamento. Segundo Pando, a divisão vende atualmente programas para mais de 150 países.
Desde 1998, as produções televisivas do Guinness já foram exibidas em mais de 190 territórios. O catálogo inclui programas infantis, documentários, atrações de variedades, séries sobre tentativas de recordes e conteúdos curtos para plataformas digitais.
Nas redes sociais, a marca reúne mais de 90 milhões de seguidores. O site do Guinnes World Records recebe mais de 30 milhões de visitantes únicos por ano.
“Com o lançamento do GWR Studios, ampliamos nossa equipe digital e de televisão para acompanhar um mundo cada vez mais acelerado, no qual os consumidores têm uma necessidade maior de velocidade e imediatismo”, afirmou Pando.
A empresa também avançou sobre shows em arenas, eventos corporativos, atrações em hotéis e cruzeiros e experiências de entretenimento para períodos de férias. Outra frente é o comércio eletrônico, com a venda de livros, certificados e produtos licenciados.
“Seja por meio da nossa herança editorial, da presença digital ou do trabalho com marcas e empresas, estamos sempre procurando maneiras inovadoras de nos conectar com pessoas ao redor do mundo”, disse a executiva.
Primeira atração permanente no Reino Unido
O próximo passo será dado no fim de 2026, quando o Guinness pretende abrir sua primeira atração permanente no Reino Unido, na arena The O2, em Londres.
O espaço terá aproximadamente 2.300 metros quadrados e mais de 50 desafios oficiais distribuídos por seis áreas. Os visitantes poderão testar habilidades e tentar estabelecer recordes, além de acessar exposições interativas, restaurantes temáticos e uma loja.
Ao anunciar o projeto, a própria companhia classificou a abertura como um marco em sua transformação de editora em marca global de entretenimento.
O Guinness já realizava experiências temporárias em centros comerciais, parques de férias e cruzeiros. O endereço londrino, no entanto, será sua primeira operação permanente desse tipo no país.
Credibilidade como ativo do negócio
A expansão comercial traz um desafio: ampliar a receita obtida com empresas sem enfraquecer a independência dos recordes certificados.
Para Pando, a credibilidade é o principal ativo do Guinness e a base para que as outras frentes do negócio possam crescer.
“Em um mundo marcado pela desconfiança e pela desinformação, temos orgulho de ser a fonte definitiva das maiores realizações”, afirmou. “A integridade dos nossos títulos é de extrema importância.”
As provas de cada tentativa são avaliadas por especialistas internos. Quando necessário, a companhia recorre a uma rede com mais de 200 consultores e pode solicitar pareceres independentes.
A análise pode envolver vídeos, medições, documentos, declarações de testemunhas e laudos de profissionais especializados. As exigências variam conforme o recorde e precisam ser definidas antes da tentativa.
“Nossa dedicação a autenticar, documentar e celebrar cada recorde é o que nos dá foco e direção”, disse Pando. “É quem somos. É por isso que, dia após dia e ano após ano, as pessoas contam conosco para entregar verdade, precisão e uma experiência consistente em todas as nossas categorias.”
O Guinness nasceu para responder a uma discussão sobre o pássaro mais rápido da Europa. Agora, quer transformar a curiosidade por feitos extraordinários em um negócio presente nos livros, nas telas, nos eventos e nas experiências presenciais.
“Temos a firme convicção de que quebrar recordes deve ser para todos, em todos os lugares, independentemente de quem você seja, da sua origem ou de onde venha”, afirmou Pando. sua origem ou de onde venha”, afirmou Pando.
Em tempo, esta abaixo é a ave de caça mais rápida da Europa (e do mundo).
