O mercado global de ativos digitais atravessa uma mudança de fase. Depois de anos marcados por testes, bancos, gestoras e outras instituições financeiras começam a discutir como levar a tokenização para uma escala institucional. Nesse movimento, o Brasil desponta como um dos mercados mais avançados, de acordo com especialistas.
Uma combinação de fatores coloca o país em posição de destaque. Há grandes instituições financeiras dispostas a experimentar novas tecnologias, maior diálogo entre reguladores e iniciativas como o Drex, o projeto de infraestrutura digital do Banco Central (BC) em fase de teste, que embora tenha sofrido correções de rota e mudanças pelo caminho segue relevante para o setor, segundo especialistas participantes do Financial Infrastructure Forum Latam, no Rio de Janeiro (RJ).
Apesar das diferentes perspectivas, os especialistas concordam que a tecnologia, sozinha, não será suficiente para levar a tokenização ao próximo estágio. O avanço dependerá também de segurança jurídica, infraestrutura, transparência e regras capazes de acompanhar a inovação sem sufocá-la.
Para Bruno Batavia, sócio da Valor Capital, o foco do ecossistema de blockchain, tecnologia que funciona como um registro digital compartilhado entre os participantes de uma rede, mudou nos últimos anos. Para ele, a pergunta deixou de ser apenas se a tecnologia funciona. Agora, o desafio é descobrir como implementá-la e distribuir ativos digitais em larga escala, principalmente entre investidores institucionais.
Esse avanço, porém, exige confiança. Matt Blumberg, Head de DeFi da Ondo Finance, ressaltou que ampliar o acesso ao mercado financeiro descentralizado significa mais do que permitir a compra de um ativo. Para ele, envolve também oferecer ao investidor liberdade e segurança para manter a custódia direta desses ativos.
A possibilidade de autocustódia, segundo Blumberg, ganha importância especialmente em países nos quais investidores têm menor confiança nas instituições, nos reguladores ou no próprio sistema financeiro tradicional.
Brasil ganha espaço
É na aproximação entre o sistema financeiro tradicional e a infraestrutura baseada em blockchain que o Brasil vem ganhando relevância.
Para Batavia, o país esteve entre os pioneiros na conexão de grandes instituições financeiras e infraestruturas de mercado com novas tecnologias de ativos digitais. Parte desse avanço, afirmou, pode ser atribuída à abertura dos reguladores brasileiros para discutir e testar novos modelos.
Thiago Mello, Head de Produto Crypto do Itaú, contou que a instituição começou sua jornada no mercado de ativos digitais há cerca de cinco ou seis anos. Porém, o processo, ganhou velocidade quando o BC colocou o Real Digital, posteriormente batizado de Drex, no centro das discussões sobre o futuro da infraestrutura financeira brasileira. “Quando as discussões sobre o Real Digital, que se tornou o Drex, começaram, as coisas decolaram muito mais rápido”, afirmou.
Na visão de Mello, um dos principais desafios atualmente é fazer com que toda a complexidade tecnológica por trás dos ativos digitais seja incorporada à estrutura financeira já conhecida pelos clientes. Na prática, a tecnologia precisa desaparecer da experiência do usuário, já que as transações devem ser simples, baratas e seguras.
Regular sem frear a inovação
A velocidade dessa transformação também depende de como os reguladores escolhem acompanhar o mercado. O diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), João Accioly, defendeu que a regulação deve estabelecer limites e proteções sem impedir que os próprios participantes desenvolvam novos modelos de negócio.
Por isso, o diretor fez críticas ao formato tradicional dossandboxesregulatórios, mecanismos utilizados por autoridades de diferentes países para permitir que determinadas empresas testem produtos sob condições especiais e, em alguns casos, com flexibilização temporária de regras.
Para o especialista da CVM, o problema surge quando o experimento isola um participante das condições normais do mercado. Ao reduzir a pressão exercida pelos concorrentes, o regulador pode acabar retirando um dos principais estímulos à inovação. “O modelo de sandbox remove a pressão competitiva externa e interna que de fato impulsiona a inovação e a variação”, disse.
Na avaliação dele, há ainda um custo de oportunidade. Um projeto que fracassa dentro de condições artificiais pode levar o regulador a concluir que determinado modelo não funciona, mesmo que a mesma iniciativa pudesse evoluir de maneira diferente em um ambiente competitivo.
Outro fator que ajuda a explicar o avanço brasileiro é a comunicação entre diferentes autoridades. Enquanto mercados como o dos Estados Unidos convivem com sobreposição de competências e disputas sobre quais órgãos devem supervisionar determinados ativos e atividades, o Brasil vem tentando construir um modelo mais coordenado.
Segundo João Accioly, a CVM tem trabalhado para incorporar e alinhar suas diretrizes aos avanços conduzidos pelo Banco Central. Essa aproximação entre a autoridade responsável pelo mercado de capitais e o regulador do sistema bancário tende a ganhar ainda mais importância à medida que as fronteiras entre ativos tradicionais e digitais se tornam menos evidentes.
“Temos tentado colher os insumos e aprender com o que tem sido feito pelo Banco Central, o que tem sido muito bem-recebido pelos participantes do mercado”, afirmou Accioly. Ele completou reforçando que sua atuação regulatória busca “ajudar a CVM a elaborar suas regulamentações de maneira a, basicamente, não atrapalhar o desenvolvimento que o mercado está realizando.”
Desafios para a tokenização
Apesar dos avanços regulatórios e institucionais, a expansão da tokenização também traz desafios relacionados à própria arquitetura tecnológica.
Claudio J. Tessone, professor de blockchain e DLT da Universidade de Zurique e presidente do Blockchain Center da instituição, destacou a transparência como uma das principais vantagens das tecnologias de registro distribuído.Nesse sistema, as informações sobre transações ficam armazenadas e compartilhadas entre diferentes participantes de uma rede, em vez de permanecerem concentradas em um único banco de dados controlado por uma instituição.
Em redes abertas, pesquisadores e investidores conseguem observar não apenas quanto capital está alocado, mas também acompanhar a atividade econômica registradaon-chain—transações e movimentações que ficam registradas diretamente na blockchain e podem ser verificadas na própria rede. Essa transparência permite analisar o funcionamento do mercadoem maior nível de detalhe, acompanhando movimentações de uma forma que nem sempre é possível na infraestrutura financeira tradicional.
O professor, porém, chamou atenção para o crescimento de estruturas mais fechadas no ambiente institucional. Na prática, quanto mais fechada e fragmentada é uma rede, mais difícil pode ser enxergar o que acontece dentro dela. Por exemplo, o quanto dinheiro está circulando, quantas transações são realizadas e qual é a dimensão real de sua utilização.
De acordo com Tessone, a maturidade do setor dependerá não apenas do crescimento do volume de ativos tokenizados, mas também da capacidade de investidores, pesquisadores e reguladoresde acompanhar e compreender o que acontece nessas redes.