O secretário do Comércio, Howard Lutnick, ganhou projeção nacional depois de perder dois terços dos funcionários da Cantor Fitzgerald, além do próprio irmão, nos ataques de 11 de Setembro. Antes de ficar conhecido como um dos executivos mais implacáveis de Wall Street, ele viu seu patrimônio quase dobrar para mais de US$ 7 bilhões (R$ 36,05 bilhões) desde que passou a integrar o gabinete de Trump.
Principais fatos
Antes de assumir o Departamento do Comércio, Lutnick foi por muitos anos CEO da Cantor Fitzgerald, que perdeu os 658 funcionários que estavam no World Trade Center durante os ataques terroristas de 11 de Setembro, de um quadro total de 960 empregados. Entre as vítimas estavam Doug, seu melhor amigo, e Gary, seu irmão mais novo.
Lutnick reconstruiu a Cantor Fitzgerald após os atentados e ampliou o quadro da empresa para 12 mil funcionários. Também criou o Cantor Fitzgerald Relief Fund.
Lutnick costuma contar sua história sobre o 11 de Setembro. Ao anunciá-lo como indicado para o cargo de secretário do Comércio, o presidente Donald Trump, que o conhece há anos, chamou-o de “a personificação da resiliência diante de uma tragédia indescritível”. Essa, porém, não é a única característica pela qual o executivo é conhecido no mundo financeiro. Um ex-sócio já o descreveu à Forbes como “o homem mais odiado de Wall Street”.
Desde que Lutnick entrou para o gabinete de Trump, o patrimônio dele e de sua família mais que dobrou, alcançando US$ 7,3 bilhões (R$ 37,60 bilhões), segundo estimativas da Forbes. O avanço se deve, em grande parte, à participação indireta do empresário na Tether, emissora da maior stablecoin do mundo, por meio da fatia de 55% que detém na Cantor Fitzgerald.
Essa participação está avaliada em US$ 5,4 bilhões (R$ 27,81 bilhões), ante US$ 1,7 bilhão (R$ 8,76 bilhões) no início de 2025. O restante da fortuna de Lutnick vem de suas fatias em duas companhias de capital aberto: a corretora eletrônica BGC Group e a Newmark Group, braço de imóveis comerciais.
Lutnick deixou o cargo de CEO da Cantor Fitzgerald quando entrou para o gabinete de Trump e transferiu sua participação na empresa para fundos em benefício dos filhos adultos. Os veículos são controlados por Brandon Lutnick, seu segundo filho mais velho, que assumiu os cargos de CEO e presidente do conselho da Cantor quando o pai ingressou no governo Trump.
Ele também vendeu de volta às próprias companhias suas ações da BGC Group e da Newmark. A declaração mais recente apresentada por Lutnick à Comissão Eleitoral Federal mostra que ele recebeu US$ 190 milhões (R$ 978,50 milhões) em pagamentos pela recompra de suas ações pelas duas empresas.
Contraponto
Segundo o Departamento do Comércio, o Cantor Fitzgerald Relief Fund doou US$ 180 milhões (R$ 927 milhões) às famílias dos funcionários da empresa que morreram no 11 de Setembro. Lutnick também destinou mais de US$ 100 milhões (R$ 515 milhões) a vítimas de terrorismo, desastres naturais e outras situações de emergência.
O que explica a reputação de “o homem mais odiado de Wall Street”?
Lutnick tem fama de pressionar financeiramente tanto os sócios quanto os próprios funcionários. Segundo relatos, seus contratos de sociedade chegavam a ter centenas de páginas e lhe davam ampla margem para reter pagamentos de ex-parceiros.
Uma ação apresentada à Justiça federal em 2023 afirmou que 40% dos sócios de Lutnick não receberam todo o dinheiro a que tinham direito quando deixaram a empresa, conforme noticiado anteriormente pela Forbes.
Lutnick também rompeu com a família de Bernie Cantor, seu mentor de longa data. Fundador da Cantor Fitzgerald, Cantor contratou Lutnick dois anos depois de ele se formar na faculdade e, quando o executivo chegou aos 30 anos, promoveu-o para comandar a administração cotidiana da companhia.
Quando a saúde de Cantor piorou, Lutnick acionou um comitê de incapacidade, que votou pela retirada do controle da empresa das mãos do fundador. Iris, mulher de Cantor e uma das duas integrantes do colegiado que se abstiveram, proibiu Lutnick de visitar o túmulo do marido, como a Forbes já noticiou.
Em 2021, Lutnick teria exigido que o comitê de remuneração do conselho da Newmark lhe pagasse um bônus de US$ 50 milhões (R$ 257,50 milhões) por seu papel na obtenção, pela companhia, do direito às ações da BGC na Nasdaq. Quando os acionistas da empresa entraram com uma ação judicial, o comitê adiou a análise da premiação, e Lutnick teria deixado clara sua insatisfação. No fim, recebeu o bônus de US$ 50 milhões (R$ 257,50 milhões), pago ao longo de quatro anos.
Contexto
Lutnick e Trump se conhecem há anos. O empresário já morou em um apartamento no Trump Palace, antes de comprar a casa geminada vizinha à de Jeffrey Epstein. Por meio de um porta-voz, Lutnick mentiu à Forbes em 2024 ao afirmar que nunca tivera qualquer ligação com Epstein, embora posteriormente tenha admitido que visitou a ilha particular do financista.
Lutnick também participou como convidado do programa “Celebrity Apprentice”, de Trump, em 2008. A Trump Organization ainda contratou a Newmark para vender seu hotel em Washington, D.C.
Quando Trump foi eleito para um segundo mandato, escolheu Lutnick para copresidir sua equipe de transição. Ao indicá-lo para o cargo de secretário do Comércio, o presidente afirmou que o empresário havia sido “uma força dinâmica em Wall Street por mais de 30 anos” e elogiou suas contribuições às famílias das vítimas do 11 de Setembro.
*Matéria originalmente publicada por Forbes.com