O Brasil deve crescer 1,7% neste ano, segundo as novas projeções do Itaú. A estimativa ficou menor, mas a desaceleração não trouxe uma perspectiva mais confortável para a inflação. Para o próximo ano, o banco também reduziu a previsão de expansão do PIB e passou a esperar uma alta maior dos preços, num cenário mais cauteloso do que o do governo e o da mediana do mercado.
No exterior, a atividade resiste melhor. Os investimentos em inteligência artificial ajudam a sustentar a economia americana, enquanto as exportações continuam dando suporte à China. O problema é que a guerra no Oriente Médio prolonga a pressão sobre a energia, e a inflação persistente leva o banco a prever mais aumentos de juros nos Estados Unidos e na Europa.
Esse é o quadro apresentado nos relatórios de cenário macroeconômico para o Brasil e o mundo, divulgados na sexta-feira (25). Os documentos são produzidos pela equipe de Pesquisa Macroeconômica do Itaú, liderada pelo economista-chefe Diogo Guillen, identificado em ambos.
As revisões mostram economias em momentos diferentes, mas expostas a alguns dos mesmos riscos: petróleo mais caro no curto prazo, dificuldades para controlar a inflação e juros que continuam pesando sobre o consumo e o investimento.
Por que o Itaú reduziu a previsão para o PIB
A projeção de crescimento do PIB brasileiro neste ano caiu de 1,9% para 1,7%. Para o próximo, a estimativa passou de 1,5% para 1,2%.
A revisão começa na composição do resultado do segundo trimestre. Embora o crescimento agregado tenha ficado dentro do esperado pelo banco, serviços e indústria de transformação tiveram desempenho pior do que o previsto. A agropecuária compensou parte dessa fraqueza.
Os sinais seguintes reforçaram a cautela. O acompanhamento do Itaú passou a indicar estabilidade do PIB no terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores. Antes, o banco estimava uma pequena expansão.
“Os indicadores divulgados para o 3T26 apontam para uma desaceleração da atividade mais intensa do que antecipávamos”, afirma o relatório brasileiro.
O indicador de atividade do banco mostrou recuperação em agosto, mas os dados da primeira quinzena de setembro sugeriram nova perda de fôlego. A expectativa também ficou mais fraca para o último trimestre do ano.
Para 2027, entram na conta tanto esse ponto de partida menos favorável quanto os efeitos acumulados dos juros elevados. Uma economia que encerra o ano em ritmo mais lento leva uma contribuição menor para o crescimento do período seguinte, o chamado carrego estatístico.
Mesmo depois do corte na projeção, o Itaú considera que os riscos continuam concentrados em um resultado ainda mais fraco. A preocupação é com o impacto dos juros altos sobre famílias e empresas endividadas.
O mercado de trabalho também começa a mostrar sinais mais claros de desaceleração. O banco manteve a previsão de desemprego em 5,7% no fim deste ano, mas elevou a estimativa para 6,2% no encerramento de 2027. Esses números consideram o ajuste sazonal próprio do Itaú.
Um cenário mais cauteloso que o do governo e do mercado
A distância entre as projeções do Itaú e as do governo é maior para o próximo ano. Enquanto o banco prevê desaceleração adicional, a equipe econômica federal ainda espera uma retomada do crescimento.
No Boletim Macrofiscal divulgado em 22 de setembro, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda reduziu a previsão de expansão deste ano para 2%. Para 2027, cortou a estimativa para 2,3%.
O governo aposta nos efeitos graduais da queda dos juros sobre o crédito e a demanda doméstica, além da expansão da indústria extrativa e das exportações associadas. O Itaú, por sua vez, dá mais peso aos efeitos acumulados da política monetária restritiva.
Entre os dois cenários estão as medianas do Relatório Focus a pesquisa semanal do Banco Central. Os participantes projetavam crescimento de 1,88% neste ano. Para o próximo, a estimativa era de 1,43%. A pesquisa reúne previsões do mercado, não estimativas do próprio Banco Central.
Inflação menor agora, mas com riscos adiante
A projeção do Itaú para o IPCA deste ano permaneceu em 5,1%. Para 2027, porém, subiu de 4,4% para 4,6%. O relatório aponta um período mais favorável para a inflação no curto prazo, sustentado principalmente pelos bens industriais. Alimentos e serviços, por outro lado, já dão sinais de reaceleração, com preocupação maior para o último trimestre.
Nos alimentos, o El Niño pode pressionar os preços de frutas, verduras e legumes. Segundo o banco, a reabertura das exportações de proteínas à China também aumenta a demanda e contribui para encarecer esses produtos no mercado doméstico. Parte dessa pressão chega aos serviços por meio da alimentação fora de casa.
A revisão para o próximo ano tem uma explicação adicional: o fim das subvenções ao diesel e seu possível repasse aos consumidores.
“A revisão decorre dos preços represados de combustíveis em 2026, que devem exercer pressão altista no ano seguinte, sob a hipótese de repasse do fim das subvenções ao diesel”, diz o documento.
O Itaú espera queda do petróleo no mercado internacional, o que poderia aliviar os derivados. Mesmo assim, avalia que esse movimento não compensaria integralmente a retirada dos subsídios ao produtor.
O clima adiciona incerteza. Um El Niño mais intenso pode afetar o plantio da soja e o regime de chuvas, com consequências também para a segunda safra de milho.
As estimativas do banco superam as do governo, que espera IPCA de 4,9% neste ano. Para 2027, a Fazenda projeta 3,8%, após elevar sua previsão diante dos riscos climáticos para a produção agrícola.
No Focus, a inflação prevista para este ano era de 4,92%. Para o próximo, a mediana estava em 4,30%.
O petróleo continua no centro das revisões
No cenário mundial, o Itaú manteve a previsão de Brent a US$ 80 por barril no encerramento deste ano. Para o fim de 2027, a estimativa continua em US$ 75.
O que mudou foi o caminho até lá. O banco passou a considerar preços mais altos no curto prazo porque a guerra tem durado mais do que o esperado, sem sinais claros de resolução.
Segundo o relatório, as conversas entre Estados Unidos e Irã seguem sem avanços. O bloqueio americano limita as exportações iranianas, enquanto ataques dos houthis afetam as vendas externas da Arábia Saudita.
As restrições atingem também os derivados de petróleo e envolvem a Rússia. O banco cita ainda o risco de pressão adicional caso os Estados Unidos bloqueiem suas exportações de diesel.
“Ainda assim, o risco é claramente de o conflito se prolongar e de preços mais altos no curto prazo, a despeito do balanço superavitário da commodity”, afirma o documento global.
A previsão de recuo do petróleo até dezembro depende, portanto, de algum acordo que permita normalizar seu fluxo. A perspectiva de oferta superior à demanda não elimina os problemas de abastecimento provocados pelo conflito.
Mais juros nos EUA e na Europa
A persistência da inflação levou o Itaú a ampliar o aperto monetário esperado nos Estados Unidos. Depois da alta de setembro, o banco passou a prever novos aumentos pelo Federal Reserve, o banco central americano, em outubro e dezembro. Antes, esperava apenas mais uma elevação, em outubro.
“Nos Estados Unidos, a inflação não converge e permanece muito acima da meta, com a atividade seguindo forte”, resume o relatório.
A avaliação é que os dados não devem melhorar rápido o suficiente para justificar intervalos maiores entre as altas. O banco também vê integrantes do Fed inclinados a agir preventivamente, para evitar uma resposta tardia à inflação.
Na Europa, o Itaú passou a projetar a taxa de depósito do Banco Central Europeu em 3% ao fim do ciclo de alta. A previsão anterior era de 2,5%. Os aumentos também são esperados para outubro e dezembro.
O choque de energia mais prolongado explica a revisão. Segundo o banco, os derivados de petróleo mais caros devem manter a inflação europeia acima de 3% ao longo de 2027.
Selic deve parar de cair neste ano
No Brasil, o cenário do Itaú é de interrupção da queda dos juros. O banco manteve a previsão de que o Copom pause o ciclo com a Selic em 13,75%.
Embora a desaceleração da atividade e os dados de inflação mais favoráveis no curto prazo possam abrir espaço para novos cortes, a instituição considera que o câmbio e os riscos para os preços no próximo ano recomendam cautela.
Essa trajetória depende dos próximos dados. O relatório reconhece que a continuidade das reduções ganharia probabilidade caso o câmbio e as expectativas de inflação permanecessem próximos aos níveis observados na divulgação do documento.
Para 2027, o Itaú espera a retomada dos cortes, com a Selic chegando a 12,50%. A projeção indica juros mais altos do que os esperados pela mediana do mercado. No Focus , a estimativa para o encerramento deste ano caiu para 13,50%. Para o fim de 2027, os participantes projetavam 12%.
Inteligência artificial ajuda a sustentar a economia mundial
Apesar dos juros mais altos, o Itaú manteve a previsão de expansão da economia mundial em 3,2% neste ano. Para o próximo, continua esperando crescimento de 3,4%.
Nos Estados Unidos, a projeção para 2026 permanece em 2,4%. Os investimentos em inteligência artificial são uma das explicações para essa resistência: na avaliação do banco, eles seguem fortes e são relativamente menos sensíveis ao ciclo de juros.
Outro suporte vem das famílias, cujo patrimônio permanece saudável, sustentado por níveis recordes de riqueza em ações. Para o próximo ano, o banco estima crescimento americano de 2,2%.
Na zona do euro, houve uma revisão positiva para a atividade. A projeção de expansão deste ano subiu de 0,5% para 1%. O relatório aponta a expansão fiscal na Alemanha e a força do crescimento global como fatores de sustentação. Para 2027, a estimativa foi mantida em 1,2%.
Na China, o cenário permaneceu inalterado, com crescimento de 4,7% neste ano. Para o próximo, a previsão é de 4,5%.
As exportações chinesas se beneficiam da resistência da economia mundial e do ciclo de investimentos em IA. Esse desempenho reduz a urgência de novos estímulos à demanda doméstica, que continua fraca.
“Enquanto as exportações seguirem resilientes, o foco continuará em fazer o mínimo necessário de estímulo para sustentar a atividade”, avalia o relatório.
A recuperação perde força na América Latina
Para a América Latina e o Caribe, o Itaú reduziu a previsão de crescimento deste ano para 2,1%. Antes, esperava 2,3%. A estimativa para 2027 também caiu, passando de 2,4% para 2,3%.
O Chile sofreu uma das revisões mais fortes. A expansão esperada para este ano caiu de 0,9% para apenas 0,3%, diante de problemas de oferta, mercado de trabalho fraco, consumo lento e atrasos nos investimentos.
Mesmo com a atividade perdendo força, a previsão de inflação chilena subiu para 4,7%. A desvalorização cambial e o petróleo mais caro ajudam a explicar essa combinação. Para o próximo ano, o Itaú espera recuperação apoiada em investimentos, preços elevados do cobre e dissipação dos choques de oferta.
Na Argentina, a fragilidade do mercado de trabalho limita os gastos das famílias. O banco reduziu a projeção de crescimento deste ano para 2%, mas prevê uma recuperação moderada em 2027, apoiada pelas exportações de energia.
O México apresenta melhora gradual, embora a demanda privada fraca e o espaço fiscal limitado restrinjam a recuperação. O Itaú espera crescimento de 1,4% neste ano.
Já o Peru mantém uma demanda doméstica mais forte, com confiança empresarial e investimentos dando suporte à atividade. A expansão prevista para 2026 é de 3,3%, apesar dos riscos associados ao El Niño.
Dólar e contas públicas seguem no radar
O Itaú manteve a previsão de dólar a R$ 5,30 no encerramento deste ano. Para o fim de 2027, a estimativa permanece em R$ 5,50.
O real teve desempenho melhor ao longo de setembro, favorecido pelos preços das exportações e por uma percepção mais positiva do risco local. Em sentido contrário, o fortalecimento global do dólar, associado às altas de juros americanas, pressiona a moeda brasileira.
O banco prevê um real mais desvalorizado do que a mediana do Focus, que apontava dólar a R$ 5,20 no fim deste ano. Para o encerramento de 2027, a projeção da pesquisa estava em R$ 5,28.
No cenário doméstico, o Itaú destaca a importância das decisões fiscais do próximo mandato para a trajetória do câmbio.
As projeções de déficit primário, que exclui as despesas com juros, ficaram em 0,5% do PIB neste ano e em 0,6% no próximo. No curto prazo, os riscos incluem uma arrecadação menor do que a esperada e um eventual adiamento da volta da tributação sobre combustíveis.
O cenário também pressupõe que os aumentos recentes de benefícios sociais sejam compensados por reduções de outras despesas.
“Mais adiante, a necessidade de um ajuste fiscal relevante para a estabilização da dívida pública segue como uma constante”, afirma o relatório brasileiro.
A dívida bruta é projetada em 83% do PIB no encerramento deste ano. Para 2027, o banco espera que alcance 87,4%.
Nas contas externas, houve melhora da previsão para o saldo comercial, apoiada por preços de exportação elevados por mais tempo. O superávit esperado para este ano subiu para US$ 89 bilhões. Para o próximo, foi revisado para US$ 84 bilhões.
Esse ganho, porém, não elimina a pressão de outras despesas com o exterior. O Itaú prevê deterioração da conta corrente em 2027, com saldo comercial menor do que neste ano e déficits maiores em serviços e rendas, incluindo juros.