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Empresário, Herdeiro da Baterias Moura, Investe R$ 1,5 Milhão em Projeto para Primeira Infância

Pedro Ivo Moura, filho do fundador da Baterias Moura, dobrou a aposta no Programa PIPA após iniciativa vencer desafio internacional com mais de 1 mil projetos

9 min

Pedro Ivo Moura decidiu colocar € 250 mil – cerca de R$ 1,5 milhão – do próprio bolso em uma aposta que começa muito antes da vida profissional de qualquer criança: os primeiros anos de vida. O empresário pernambucano, filho do fundador da Baterias Moura e fundador da Construtora Viana e Moura, investiu o dinheiro no Programa PIPA, iniciativa do Instituto Primeira Infância Plantar Amor que acompanha mães e cuidadores de crianças pequenas, desde a gestação, em situação de vulnerabilidade social.

A decisão veio depois de um marco que deu ao projeto uma chancela internacional. O PIPA foi escolhido como um dos seis vencedores do Good Start Challenge, desafio internacional criado para encontrar soluções inovadoras para melhorar o bem-estar de pais, mães e cuidadores em comunidades vulneráveis na América Latina. A competição recebeu mais de 1.000 inscrições de diferentes países, selecionou 22 finalistas de nove países e distribuiu € 2,6 milhões entre os vencedores.

O PIPA foi o vencedor brasileiro. Além do reconhecimento, a vitória trouxe € 250 mil em recursos para o instituto – aproximadamente R$ 1,5 milhão. O aporte pessoal de Moura dobrou o capital novo destinado ao projeto para € 500 mil, ou cerca de R$ 3 milhões.

Mas o significado do prêmio vai além do dinheiro. Para uma organização social que pretende alcançar 1 milhão de famílias até 2035, o reconhecimento internacional funciona como uma espécie de due diligence externa sobre a própria tese: especialistas de organizações globais analisaram o modelo, testaram suas hipóteses e avaliaram se a metodologia poderia crescer sem perder qualidade.

A aposta pessoal de Pedro Ivo Moura

A relação de Moura com o PIPA não começou com o cheque. Ele conheceu Rogério Morais, hoje diretor-executivo do instituto, décadas atrás, quando Morais era estagiário em uma empresa do empresário. Anos depois, os dois voltaram a se encontrar quando Morais ocupava cargos ligados à educação e à primeira infância na Prefeitura do Recife.

Foi nesse período que Moura começou a se aproximar mais profundamente do tema. Morais o convidou para conhecer a rede pública de atendimento e discutir os problemas enfrentados pelas famílias. Um deles chamou particularmente a atenção do empresário: a falta de creches.

Moura decidiu então estudar o assunto. Participou de uma formação de lideranças em primeira infância na Universidade Harvard e voltou convencido de que os primeiros anos de vida representam uma das maiores oportunidades para mudar trajetórias individuais e sociais. A primeira infância passou a ocupar um espaço particular em sua trajetória de empreendedorismo social.

Moura é filho do fundador da Baterias Moura, uma das empresas mais conhecidas de Pernambuco, e criou a Construtora Viana e Moura ao lado das filhas. A companhia nasceu com uma preocupação social ligada ao déficit habitacional. Ele também fundou um instituto e atualmente preside seu conselho.

No PIPA, a lógica da aposta é outra, mas guarda uma característica em comum: usar gestão, capital e conhecimento para enfrentar um problema social. A diferença é que, desta vez, o investimento é feito diretamente como pessoa física.

“Ele resolve aportar o mesmo valor que o GSC, muito nesse espírito de ‘skin in the game’, mostrando que também acredita e está comprometido em alcançar a meta de escala colocada no GSC, de chegar a 1 milhão de famílias até 2035”, afirma Morais.

DivulgaçãoRogério Morais, diretor-executivo do instituto PIPA

O que fez o PIPA vencer?

O PIPA não ganhou o desafio simplesmente porque trabalha com primeira infância. O que chamou a atenção dos avaliadores foi a combinação entre impacto social, capacidade de adaptação e potencial de escala.

O programa foi submetido a uma espécie de laboratório durante o Good Start Challenge. Das 22 organizações finalistas, cada uma recebeu € 50 mil para fazer mudanças identificadas durante o processo de avaliação.

No caso do PIPA, a questão era particularmente difícil: como levar uma metodologia baseada em vínculo humano para muito mais famílias sem transformar o crescimento em uma perda de qualidade?

A organização realizou pesquisas qualitativas, ouviu participantes e testou mudanças na forma como as famílias eram abordadas. Uma das alterações foi tornar o primeiro contato mais pessoal. As chamadas Estrelas-Guia, profissionais responsáveis pelo acompanhamento, passaram a se apresentar às mães com foto, vídeo explicativo e uma abordagem inicial mais centrada na realidade daquela família.

O resultado apareceu rapidamente. A taxa de agendamento do primeiro atendimento online chegou a 79%, ante uma média histórica de 20%. Ou seja, quase quatro vezes mais famílias avançaram para a primeira etapa do acompanhamento.

Outro experimento testou se o método funcionaria nas mãos de profissionais que não pertenciam originalmente à equipe do PIPA. Em parceria com a Prefeitura de Caruaru, 19 assistentes sociais foram capacitados para aplicar a metodologia. Entre as mães atendidas, 92% relataram satisfação com o acompanhamento.

Para o instituto, esse resultado é particularmente importante. Ele mostra que o PIPA não precisa necessariamente aumentar sua própria equipe na mesma proporção em que aumenta o número de famílias atendidas. É aí que aparece a tese de escala.

Uma tecnologia social para milhões de famílias

O PIPA funciona como uma rede de apoio para mães e cuidadores. O primeiro contato é presencial, mas o acompanhamento continua por WhatsApp, videochamadas e conteúdos personalizados. As Estrelas-Guia conversam com as famílias, identificam necessidades e fazem a conexão com especialistas como psicólogos, pedagogos e terapeutas.

A tecnologia entra para ampliar a capacidade da equipe, não para substituir a relação humana. Essa característica é central para o projeto porque seu foco não é apenas a criança. O PIPA parte da premissa de que o bem-estar infantil depende também das condições de quem cuida.

Sobrecarga materna, saúde mental, ausência de rede de apoio, insegurança econômica e dificuldades relacionadas à parentalidade podem afetar a capacidade dos adultos de oferecer cuidado responsivo. “Por isso, ao cuidarmos de quem cuida, estamos colocando a criança e seu desenvolvimento no centro de nossas ações”, diz Morais.

Hoje, o programa está presente em 24 municípios de cinco Estados do Nordeste: Pernambuco, Alagoas, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte. Mas essa é apenas a primeira camada da ambição. O desenho apresentado ao Good Start Challenge considera um universo de 9,4 milhões de famílias de baixa renda com crianças de até seis anos inscritas no Cadastro Único, com prioridade inicial para gestantes e mães de crianças de até três anos. A meta é chegar a 1 milhão dessas famílias até 2035.

O negócio por trás do impacto

É justamente aí que o projeto começa a se aproximar de uma lógica conhecida no mundo dos negócios. Para atender 1 milhão de famílias, o PIPA não pretende simplesmente multiplicar sua estrutura atual. A estratégia é transformar sua metodologia em algo que possa ser incorporado por governos municipais e estaduais e por outras organizações que já possuem contato com essas famílias.

Em outras palavras, a organização quer escalar a metodologia, e não necessariamente a própria organização. O dinheiro recebido no desafio e o aporte de Moura serão usados nessa construção: tecnologia, monitoramento, produção de evidências, formação de lideranças e novos testes de implementação.

O instituto também trabalha no desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para apoiar a gestão e personalizar o acompanhamento. Há uma condição, porém: a tecnologia não pode eliminar o elemento que está no centro do modelo. “É uma diretriz declarada: a tecnologia deve ampliar a capacidade humana da equipe, não substituí-la”, afirma Morais.

A ideia é transformar o que foi construído em Pernambuco em uma espécie de infraestrutura distribuída de cuidado.

Por que a primeira infância interessa a um empresário?

A tese que levou Moura a apostar no PIPA tem também uma dimensão econômica. É na primeira infância que ocorre uma parcela decisiva do desenvolvimento cerebral. Nutrição, estímulos, afeto, segurança e cuidados de saúde podem produzir efeitos que atravessam a infância e chegam à vida adulta.

O economista americano James Heckman, vencedor do Nobel de Economia, tornou-se uma das principais referências no estudo dos retornos econômicos do investimento na primeira infância. Sua pesquisa ajudou a mostrar que recursos aplicados nos primeiros anos podem gerar ganhos futuros em escolaridade, renda, saúde e produtividade.

É uma forma diferente de enxergar o problema: a primeira infância não é apenas uma questão de assistência. É também uma questão de formação de capital humano.

É essa visão que ajuda a aproximar o projeto do universo de um empresário. Moura não está apenas financiando o atendimento de famílias vulneráveis. Está apostando que uma metodologia capaz de melhorar o cuidado nos primeiros anos de vida pode produzir efeitos que se multiplicam por décadas.

O próximo teste

A vitória no Good Start Challenge, portanto, não encerra a história do PIPA. Ela muda o tamanho da pergunta. O instituto já provou que consegue operar em 24 municípios de cinco Estados e que sua metodologia pode ser adaptada e aplicada por profissionais externos à organização. Também acumulou evidências de impacto e recebeu a validação de uma competição que analisou mais de 1.000 propostas internacionais.

Agora precisa provar algo maior: que consegue levar esse modelo a uma parcela significativa dos milhões de brasileiros que poderiam se beneficiar dele. Para Moura, o investimento pessoal é uma forma de colocar o próprio capital atrás dessa tese. Para o PIPA, os € 500 mil representam combustível para a próxima etapa.

E para as famílias, a proposta é mais simples: ter alguém do outro lado da conversa quando cuidar de uma criança pequena parecer uma tarefa impossível. A meta é ambiciosa: 1 milhão de famílias até 2035. O desafio, agora, é fazer a escala chegar antes que a primeira infância passe.

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