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Cadeia Produtiva do YouTube Impacta PIB Brasileiro em Mais de R$ 6 Bilhões 

“Hoje, os criadores se transformaram em verdadeiras empresas de entretenimento”, afirma Eduardo Brandini, Head de Parcerias e Responsabilidade no YouTube Brasil, à Forbes Brasil

13 min

Há alguns anos, viver de vídeos publicados na internet parecia uma possibilidade bem distante, cercada de desafios para transformar audiência em renda e, principalmente, em uma carreira sustentável.Hoje, a história mudou.

Por trás da câmera, pode existir uma empresa, com funcionários, estúdio, fornecedores, contratos e diferentes fontes de receita. Isso porque a economia dos criadores ganhou escala, se profissionalizou e passou a integrar uma cadeia produtiva quemovimenta bilhões de reais no Brasil.

Em 2025, o ecossistema criativo do YouTube contribuiu commais de R$ 6 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiroe sustentou mais de 150 mil empregos equivalentes a tempo integral, segundo estudo da Oxford Economics em parceria com o YouTube.

Os números ajudam a dimensionar uma transformação que vai além dos vídeos publicados na plataforma. Para Eduardo Brandini, Head de Parcerias e Responsabilidade no YouTube Brasil, em entrevista exclusiva à Forbes Brasil, os R$ 6 bilhões refletem a maturidade alcançada pela plataforma e pelos produtores de conteúdo.

“Atrás daquela câmera, na verdade, temos um empreendedor que passa a investir em negócios e com isso gerar um impacto real. Quando olhamos para um criador de conteúdo hoje, é errado pensar que ele é apenas um garoto ou garota no seu quarto. Eles se transformaram em verdadeiras empresas de entretenimento”, afirma Brandini.

Parte da expansão está ligada ao modelo de monetização da plataforma. Nos vídeos longos, mais da metade da receita obtida com publicidade é destinada aos criadores. Em ferramentas como assinaturas de membros, apoios e Super Chats em transmissões ao vivo, esse percentual pode chegar a 70%. Atualmente, os produtores contam com mais de dez modalidades de geração de receita dentro do YouTube.

De acordo com dados apresentados pelo YouTube, em alguns segmentos, como clubes do livro e canais de recomendação de produtos, há criadores cujareceita com o programa de afiliados chega a ser três ou quatro vezes maior que a obtida com anúncios. A empresa também cita casos em que recomendações de canais especializados em literatura resultaram na venda de45 mil exemplares de um único livro em poucos diaspor lojas parceiras.

A plataforma alcança mensalmente 130 milhões de brasileiros. Ao mesmo tempo, a produção nacional deixou de depender exclusivamente do público doméstico. Mais de 15% do tempo de exibição dos vídeos produzidos no país vem de espectadores no exterior, e 72% dos criadores monetizados conseguem alcançar audiências internacionais.

Engrenagem por trás dos números

À medida que os canais crescem, parte desses recursos é reinvestida na própria operação. Isso inclui aluguel ou compra de estúdios, aquisição de equipamentos, despesas de produção e contratação de profissionais como redatores, editores, entre outros. Esse movimento amplia os efeitos econômicos da atividade para outros setores como, por exemplo, agências, produtoras, gráficas, fornecedores de tecnologia e o mercado imobiliário.

A transformação ainda mudou a forma como a equipe do YouTube se relaciona com os produtores. A filosofia da área de parcerias, segundo o YouTube, parte do princípio de que seu papelnão é gerenciar o conteúdo ou os canais, mas orientar a estratégia de negócios dos empreendedores que construíram suas operações dentro da plataforma. Nesse caso, quando um canal alcança determinada métrica, o criador pode passar a contar com um gerente dedicado. A função desse profissional é auxiliar na formatação de estratégias comerciais e na expansão das fontes de receita.

Foto: Getty Images; Economia dos criadores movimenta bilhões no Brasil

Segundo a pesquisa,71% das pequenas e médias empresas (PMEs) que mantêm um canal no YouTube consideram a plataforma uma ferramenta essencial para o crescimento de seus negócios.

Na música, por exemplo, canais podem alugar casas de shows da própria região, contratar músicos de apoio e reservar equipamentos de som para suas produções. Já na gastronomia, canais de culinária movimentam feirantes, pequenos produtores e mercados regionais por meio da compra dos ingredientes utilizados nos conteúdos.

Isso forma uma espécie de efeito dominó, pois o dinheiro gerado por um vídeo não termina necessariamente no criador ou na plataforma. Ele pode percorrer uma rede de profissionais e pequenos negócios que, embora nem sempre apareçam diante das câmeras, integram a cadeia produtiva do conteúdo digital.

No Brasil, o número de canais com faturamento de seis dígitos ou mais cresceu25% em relação ao ano anterior, enquanto aqueles que alcançaram receitas de cinco dígitos ou mais avançaram 40%. “O país já soma mais de 250 mil canais com pelo menos 10 mil inscritos, sendo 4,5 mil com mais de 1 milhão. A quantidade de canais ganhando a partir de R$ 10 mil cresceu mais de 40%, enquanto o grupo dos que faturam a partir de R$ 100 mil subiu mais de 25%”, diz Brandini.

A plataforma também se tornou uma porta de entrada para o mercado de trabalho. Segundo o relatório,85% dos profissionais que hoje afirmam ter uma carreira consolidada na área de mídia e entretenimento começaram sua trajetória no YouTube. Outros 70% declaram que a plataforma ofereceu oportunidades para criar e monetizar conteúdo que seriam inalcançáveis nos meios de comunicação tradicionais.

Dos vídeos à criação de empresas

Exemplo desse impacto econômico é o criador Lito Souza. Ex-mecânico de aviação, começou a produzir conteúdo para compartilhar conhecimentos técnicos sobre aeronaves. A notoriedade e autoridade conquistada com os vídeos contribuiu para a criação de uma escola voltada à formação de mecânicos e comissários de bordo —a maior da América Latina.

A Chef Ju Lima, Top Creators 2026 na Forbes Brasil, é outro case de sucesso. Formada em administração e em gastronomia pelo Le Cordon Bleu, a mineira de 31 anos levou a técnica da culinária francesa ao churrasco e à comida afetiva. Hoje, soma mais de 660 mil inscritos no YouTube – onde já ultrapassa os 310 milhões de visualizações. Para a produção de seus conteúdos, a chef investiu R$ 1,5 milhão na construção de uma cidade cenográfica inspirada no Velho Oeste, com saloon, banco e cadeia. O espaço é utilizado como cenário para vídeos e ações publicitárias.

Já Nathália Rodrigues de Oliveira, também Top Creators 2026 na Forbes Brasil, criadora da Nath Finanças, transformou sua própria experiência com renda limitada e rotina exaustiva em um negócio de impacto ao democratizar a educação financeira para a população de baixa renda. Com linguagem acessível e foco em “finanças reais para pessoas reais”, construiu uma comunidade de milhões de seguidores e expandiu sua atuação para além das redes, com projetos educacionais, plataforma digital, livros e investimentos. Hoje, à frente de uma empresa estruturada, Nath alia conteúdo e empreendedorismo com o propósito de gerar transformação concreta na vida financeira de seu público. Seu canal no YouTube acumula mais de 400 mil inscritos e milhões de visualizações.

Mari Saad, Top Creator 2026 na Forbes Brasil, começou no YouTube a fazer tutoriais de maquiagem aos 16 anos. Mais tarde, em uma collab com a Océane, percebeu seu potencial em um negócio. Testou e e validou o modelo, mas queria ir além. Há um ano e meio, levou sua influência para a criação da Mascavo, marca de maquiagem que faturou R$ 100 milhões no primeiro ano e rapidamente ganhou escala no varejo.

No Tocantins, Fran Adorno, frentista em Guaraí, chegou a vender uma vaca para financiar a instalação de uma torre de internet na zona rural. Ao mostrar a rotina no campo, viu um vídeo sobre “Pé de iogurte” alcançar 1 milhão de visualizações em apenas um dia. Atualmente, acumula mais de 539,5 milhões de visualizações e 3,2 milhões de inscritos.

Foto: Getty Images; YouTube impulsiona uma nova cadeia de negócios

Mais um caso é a Galinha Pintadinha. O projeto, que nasceu no YouTube, ultrapassou as fronteiras da plataforma e se transformou em uma operação de conteúdo e licenciamento de produtos.

Gargalos de crescimento?

A passagem do modelo do “criador no quarto” para uma produtora de mídia também trouxe novos desafios.Com canais cada vez mais estruturados, os criadores precisam ir além da produção de conteúdoe desenvolver capacidade de adaptação para acompanhar as fases do mercado.

Uma das mudanças está na própria tela em que o conteúdo é consumido. Com a migração da audiência do celular para as Smart TVs, o produtor precisa desenvolver vídeos capazes de funcionar tanto em uma tela de 5 polegadas, por exemplo, quanto em televisores de 50 polegadas.

Além disso, depender exclusivamente da publicidade tradicional se tornou uma vulnerabilidade para canais que passaram a operar como empresas. A receita do AdSense (sistema de monetização que remunera criadores a partir dos anúncios exibidos em seus conteúdos), isoladamente, pode não ser suficiente para sustentar estruturas com custos maiores.

Por isso, um dos gargalos do ecossistema é estimular os produtores a diversificar suas fontes de receita, combinando publicidade com assinaturas de membros, monetização de transmissões ao vivo, venda de produtos e programas de afiliados.

Foto: Getty Images; Crescimento dos canais traz novos desafios aos criadores

Outro fator é a expansão internacional, que esbarra em uma característica particular do mercado brasileiro, o idioma. Segundo Brandini,a língua portuguesa, de certa forma, limita o alcance global do conteúdo nacionalquando comparada ao inglês e ao espanhol, idiomas com públicos maiores. Para contornar essa barreira, criadores brasileiros têm buscado ampliar sua audiência entre as comunidades que vivem no exterior e investir em nichos com potencial de alcançar mais pessoas.

Há ainda o desafio de administrar diferentes formatos e algoritmos. O mesmo criador pode precisar produzir vídeos curtos para Shorts, conteúdos longos em formato horizontal e transmissões ao vivo, cada um com características próprias de consumo e distribuição. Essa multiplicidade aumenta a carga de trabalho e exige uma produção contínua para preservar o engajamento da comunidade.

Apesar das dificuldades, Brandini afirma que o YouTube procura interpretar esses obstáculos como “desafios atrelados às novas oportunidades de maturidade”. Segundo ele,as equipes de parcerias acompanham esse processo, orientando os produtores à medida que os canais crescem e passam a exigir uma melhor gestão do negócio.

Impacto para além da economia

O conceito de “criador” não se restringe a influenciadores ou profissionais de entretenimento. Nesse universo, figuras como o Dr. Drauzio Varella (médico conhecido pela divulgação de informações sobre saúde na televisão) são tratadas dentro da lógica de um“YouTuber de Saúde”, enquanto candidatos à Presidência da República atuam como criadores ao administrar seus próprios canais e estratégias de conteúdo.

O levantamento afirma que 90% dos espectadores dizem usar o YouTube para buscar informações e ampliar seus conhecimentossobre determinados assuntos. Entre os professores que utilizam o YouTube, 77% afirmam que a plataforma ajuda os alunos a dar continuidade ao aprendizado fora da escola. Já para os pais, 77% consideram que o YouTube ou o YouTube Kids oferece conteúdo de qualidade para o aprendizado e entretenimento dos filhos.

Eduardo Brandini cita o caso do consumo de conteúdo religioso e devocional. Brasileiros passaram a recorrer à plataforma para assistir a devocionais, acompanhar orações matinais e, em períodos religiosos específicos, assistir a missas e outros conteúdos ligados à fé.

“O brasileiro acorda cedo para rezar no YouTube durante a Quaresma, por exemplo. Todos esses momentos culturais fortes no Brasil têm no YouTube uma janela de acesso, seja por meio de um criador ou de uma grande entidade se utilizando da plataforma para se conectar aos nossos mais de 130 milhões de usuários”, aponta Eduardo Brandini.

Foto: Getty Images; Criadores brasileiros ampliam impacto na economia

Força do conteúdo nacional

A expansão do YouTube também criou espaço para conteúdos que historicamente encontravam menos oportunidades nos meios tradicionais. De acordo com o relatório, 74% dos usuários concordam que a plataforma os ajuda a descobrir vozes independentes ou de nicho que não encontrariam em nenhum outro veículo de mídia.

“Grande parte da nossa audiência já consome o conteúdo pela televisão. O Brasil é um país que tem tanto aparelho de TV quanto geladeira nas residências, um país que gosta e tem o hábito de consumir televisão coletivamente, reunindo a família na sala de estar. O YouTube se consolidou como essa nova televisão, onde as pessoas sentam juntas para assistir e se conectar”, afirma Brandini.

Esse avanço do consumo pela tela grande também abriu espaço para novas formas de acompanhar esportes e grandes eventos, como a CazéTV e a GE TV. Em torno de 85% de todos os conteúdos audiovisuais assistidos no YouTube no Brasil são produzidos por canais nacionais, enquanto 15% são feitos no exterior.

“Um paraense que mora em São Paulo, por exemplo, pode acompanhar pela plataforma um campeonato do seu estado de origem e assistir a um clássico como Paysandu x Remo, que reúne multidões, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância”, ressalta o especialista.

No entretenimento e na cultura, o YouTube reúne transmissões de eventos nacionais e internacionais. O calendário inclui festivais como oCoachella, nos Estados Unidos, e celebrações brasileiras, como oFestival de Parintins e oSão João. A partir de 2029, a plataforma também terá atransmissão exclusiva do Oscar no Brasil.

“O YouTube no Brasil carrega esse tom muito claro e do qual nos orgulhamos: são brasileiros fazendo conteúdo para brasileiros consumirem. Saber que 85% do que é assistido no país vem da produção local mostra a maturidade e a força dessa comunidade. Ao mesmo tempo em que a plataforma funciona como um motor econômico, ela se consolidou como a grande janela de conexão cultural e democrática do país”, destaca Eduardo Brandini.

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