Lula terá pela frente um ajuste fiscal que pode chegar a R$ 450 bilhões para estabilizar a dívida pública. A estimativa da Instituição Fiscal Independente (IFI) parte de um cenário em que o Brasil registre déficit primário de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027. Para interromper o avanço da dívida em relação ao tamanho da economia, seria necessário inverter o resultado e alcançar um superávit de aproximadamente 2% do PIB. A diferença entre os dois resultados é de três pontos percentuais do PIB. Considerando uma economia de cerca de R$ 15 trilhões em 2027, isso equivale a um esforço fiscal de R$ 450 bilhões.
A conta indica a dimensão da mudança necessária entre receitas e despesas para atingir o resultado considerado suficiente para estabilizar o endividamento. O desafio será promover essa mudança sem agravar a desaceleração econômica e em meio à pressão de despesas obrigatórias que crescem de acordo com regras legais. Para Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, não basta anunciar cortes ou buscar novas receitas. O governo precisa apresentar um plano que indique como pretende melhorar as contas ao longo dos anos e convencer investidores de que conseguirá executá-lo. “Não é necessário promover um ajuste da noite para o dia, mas é fundamental que o ministro da Fazenda seja alguém capaz de transmitir confiança e credibilidade, com um programa que dê previsibilidade à condução da política econômica”, afirma.
A preocupação não se limita ao resultado fiscal de um ano. O Brasil registra déficits primários desde 2014, e a dívida acumulada torna o país mais sensível ao custo de financiamento. Em agosto de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, ou R$ 11,1 trilhões, segundo o Banco Central. O indicador havia aumentado 4,2 pontos percentuais do PIB desde o fim de 2025.
O aumento do endividamento não decorre apenas da diferença entre o que o governo arrecada e gasta antes do pagamento de juros. O custo de carregar a dívida também pesa: em 12 meses até agosto, os juros nominais do setor público somaram R$ 1,18 trilhão, o equivalente a 8,86% do PIB, segundo o Banco Central. Quando os investidores percebem maior risco fiscal, tendem a exigir remuneração mais alta para emprestar ao governo, tornando mais cara a emissão de títulos e a renovação de dívidas que vencem.
Esse custo não fica restrito às contas públicas. As taxas de mercado também influenciam as condições de crédito para empresas e famílias, que enfrentam mais dificuldade para financiar investimentos e consumo quando os juros estão elevados. “Chegamos a esse momento com um país bastante endividado, e o problema não se restringe ao governo: as famílias e as empresas também enfrentam níveis elevados de endividamento. Ao mesmo tempo, as taxas de juros de mercado, especialmente as projetadas nos contratos futuros, permanecem muito altas”, afirma Silvio Campos Neto, economista-chefe de Macroeconomia da Tendências Consultoria.
A combinação de crédito caro e endividamento elevado limita a capacidade de expansão da economia. Famílias comprometidas com dívidas têm menos margem para consumir; empresas podem adiar projetos diante do custo do financiamento; e o governo precisa lidar com uma conta de juros que reduz o espaço disponível no Orçamento. O resultado é um círculo difícil de romper: a fragilidade fiscal contribui para manter o custo do dinheiro elevado, enquanto os juros altos dificultam a retomada da atividade e tornam mais custoso administrar a dívida.
As perspectivas para 2027 reforçam a preocupação. A IFI projeta crescimento real de 1,8% para o PIB no próximo ano, abaixo dos 2% estimados para 2026. A instituição também prevê que a dívida bruta suba para 86,4% do PIB em 2027. São projeções, não resultados certos, mas apontam para a combinação de crescimento moderado e endividamento crescente que torna mais urgente a discussão sobre as contas públicas.
Para Campos Neto, a economia brasileira deve entrar em 2027 com menos fôlego, pressionada pelo custo elevado do crédito e pelo endividamento de governos, empresas e famílias. Os juros altos encarecem os financiamentos, dificultam a realização de investimentos e limitam o consumo, o que tende a reduzir o ritmo da atividade econômica. O cenário, porém, traz um complicador: a desaceleração não significa necessariamente um alívio rápido para a inflação.
A desvalorização do real pode encarecer produtos importados e mercadorias com preços vinculados ao dólar, mantendo pressões sobre os preços mesmo com a economia crescendo menos. A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 também pode acrescentar custos às empresas, dependendo de como a mudança for implementada. Se essas pressões persistirem, o Banco Central terá menos espaço para reduzir os juros sem colocar em risco a convergência da inflação para a meta.
“Esse cenário já indica uma economia perdendo força, com uma desaceleração que deve se intensificar em 2027 e uma inflação que continua preocupando por diferentes fatores”, afirma Campos Neto. Na avaliação do economista, a combinação de atividade mais fraca e inflação ainda pressionada pode dificultar a condução da política monetária. Ele considera possível mais um corte na taxa básica de juros na próxima reunião, mas avalia que o Banco Central poderá interromper o ciclo em seguida para acompanhar a evolução do câmbio e dos preços.
É nesse contexto que o ajuste fiscal se torna decisivo. Sem uma trajetória crível para conter o avanço das despesas e estabilizar a dívida, os juros podem permanecer elevados por mais tempo, limitando o crédito, o investimento privado e o crescimento. O desafio do próximo governo será mostrar como pretende corrigir as contas públicas sem comprometer ainda mais uma economia que já dá sinais de perda de fôlego.
Uma conta que ficou maior
A IFI também vê um descompasso nas contas previstas para 2027. Em seu relatório de setembro, a instituição calculou que o resultado fiscal poderá ser R$ 104 bilhões pior do que o estimado pelo governo no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), enviado ao Congresso em agosto. A diferença não corresponde a uma única despesa, mas à combinação de gastos que, na avaliação da IFI, foram subestimados e receitas que foram superestimadas pelo governo. Na prática, isso significa que o Orçamento pode contar com menos dinheiro entrando e mais recursos saindo do que o previsto, ampliando o desafio para cumprir as metas fiscais.
Agora, novas medidas anunciadas pelo governo ampliaram a pressão sobre as contas públicas. O reajuste do Bolsa Família deverá custar R$ 23 bilhões em 2027. A proibição das apostas on-line, as chamadas bets, pode reduzir a arrecadação em R$ 6 bilhões a R$ 10 bilhões. Já o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) deverá provocar, inicialmente, uma perda de receita de aproximadamente R$ 8 bilhões.
Juntas, essas iniciativas representam um impacto adicional estimado em R$ 41 bilhões, sem incluir a gratuidade das passagens de ônibus aos fins de semana e o Pé-de-Meia voltado ao ensino superior. “É um conjunto de promessas e medidas que torna ainda mais complexo um cenário fiscal que já é extremamente delicado”, afirma Campos Neto.
Além disso, o resultado primário não mostra toda a pressão sobre a dívida. Pestana chama a atenção para o avanço das despesas financeiras e parafiscais, que ficam fora do cálculo da meta primária, mas afetam o endividamento. Entre os exemplos estão subsídios do Minha Casa, Minha Vida e programas de crédito favorecido para veículos e motoristas de aplicativos. “Não adianta controlar o resultado primário se, ao mesmo tempo, houver expansão das despesas financeiras e parafiscais”, diz Pestana.
Por que é tão difícil cortar gastos
O problema fiscal brasileiro não está apenas no volume de dinheiro que o governo gasta, mas na dificuldade de frear o crescimento dessas despesas. Uma parcela expressiva do Orçamento é comprometida com obrigações que aumentam de acordo com regras estabelecidas em lei. Com isso, mesmo quando o governo tenta conter os gastos, sobra pouco espaço para reduzir despesas sem mexer em benefícios sociais ou no financiamento de serviços públicos.
A mudança do teto de gastos para o arcabouço fiscal, em 2023, não eliminou essa dificuldade. O novo regime estabeleceu limites para o crescimento das despesas, mas não mudou todas as regras que determinam quanto o governo precisa gastar com aposentadorias, benefícios sociais e outras obrigações. Na avaliação de Silvio Campos Neto, economista-chefe de Macroeconomia da Tendências Consultoria, essa combinação ajuda a explicar por que o controle das contas públicas continua sendo um desafio.
Parte da pressão vem do aumento das despesas autorizado no início do atual governo. A PEC da Transição, aprovada no fim de 2022, abriu espaço para cerca de R$ 200 bilhões adicionais no Orçamento de 2023. O valor representa uma ampliação da autorização para gastar, e não significa que todo esse montante tenha sido efetivamente desembolsado. Ainda assim, a medida permitiu acomodar despesas que não cabiam no Orçamento elaborado sob as regras anteriores e elevou o patamar de gastos a partir do qual o governo passou a operar.
Outro fator é a política de valorização do salário mínimo. Como o piso nacional serve de referência para aposentadorias e pensões de menor valor, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o seguro-desemprego e o abono salarial, os reajustes acima da inflação aumentam também o custo desses benefícios. O efeito se acumula ao longo do tempo: a cada reajuste real do mínimo, cresce a despesa que o governo precisa acomodar nos anos seguintes.
As regras de financiamento da saúde e da educação também influenciam a distribuição dos recursos. Desde 2024, o governo voltou a ter pisos de gastos nessas áreas vinculados à arrecadação. Na prática, quando a receita aumenta, também pode crescer o valor mínimo que precisa ser destinado a esses setores. Isso não significa que o gasto seja desnecessário – são serviços essenciais -, mas reduz a liberdade do governo para usar o dinheiro adicional em outras prioridades, como investimentos ou melhora do resultado fiscal.
O resultado é um Orçamento cada vez mais disputado. Aposentadorias, benefícios sociais e despesas mínimas com serviços públicos ocupam uma parcela relevante dos recursos, enquanto investimentos em infraestrutura e outras áreas podem ser adiados ou reduzidos. Por isso, melhorar as contas públicas não depende apenas de arrecadar mais ou cortar despesas de um ano para o outro. Exige também rever as regras que determinam como os gastos crescem.
“Não falo necessariamente em cortes, porque sabemos como é difícil reduzir gastos públicos de forma efetiva. O caminho passa também por mudanças nas regras que determinam a evolução das despesas, de modo a sinalizar que os gastos crescerão em um ritmo menor nos próximos anos”, afirma Campos Neto.
A diferença é importante. Cortar uma despesa pontualmente pode ajudar a fechar as contas de um ano, mas não impede que ela volte a crescer no exercício seguinte. Mudar as regras que determinam essa evolução pode aliviar a pressão sobre o Orçamento de forma mais duradoura. O problema é que as medidas capazes de produzir esse efeito também estão entre as mais difíceis de aprovar.
Rever a política de valorização do salário mínimo, alterar a relação entre o piso nacional e os benefícios previdenciários ou mudar as regras de financiamento da saúde e da educação significa mexer em compromissos importantes do governo. São decisões que afetam diretamente a renda dos beneficiários e os recursos destinados a serviços públicos. Por isso, qualquer mudança exigiria negociação política e teria custos para a administração.
Campos Neto avalia que o governo poderá ter de rever parte das promessas feitas durante a campanha para evitar que a deterioração fiscal comprometa o restante do mandato. “Ninguém vai querer governar, ou conseguirá governar, durante quatro anos em um ambiente de crise econômica e de confronto permanente com as expectativas dos mercados. Por isso, a expectativa é que o governo acabe tendo de adotar algumas medidas impopulares, mesmo que isso signifique contrariar parte dos compromissos assumidos durante a campanha”, afirma.
O Congresso será decisivo. Mudanças nas regras de despesas obrigatórias podem enfrentar resistência de parlamentares e grupos diretamente afetados. Ao mesmo tempo, propostas para elevar impostos também encontram oposição. Caberá ao Executivo definir quais medidas pretende priorizar e construir apoio político para aprová-las.
A dificuldade é que o custo dessas decisões aparece rapidamente, enquanto os benefícios de uma trajetória fiscal mais sustentável dependem de tempo e credibilidade. Sem mudanças nas regras que pressionam o Orçamento, o governo continuará tendo de escolher entre acomodar despesas crescentes, buscar novas receitas ou reduzir investimentos. É essa disputa por recursos escassos que torna o ajuste fiscal tão complexo, e que limita a capacidade do país de investir para crescer.
Onde encontrar espaço no Orçamento
Se o governo precisa melhorar as contas públicas sem sacrificar ainda mais os investimentos, uma das alternativas é rever não apenas o que gasta diretamente, mas também os impostos que deixa de arrecadar. Os benefícios tributários – incentivos, isenções e deduções concedidos a empresas e contribuintes – representam quase R$ 650 bilhões por ano, segundo os números apresentados por Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI. A dimensão desse valor faz das renúncias fiscais uma das frentes que o próximo governo terá de examinar em busca de recursos.
Essa conta reúne medidas bastante diferentes. Inclui benefícios ao Simples Nacional e aos microempreendedores individuais (MEIs), incentivos à Zona Franca de Manaus e ao setor automotivo, isenções para entidades filantrópicas e deduções do Imposto de Renda com despesas de saúde e educação, além de regimes especiais concedidos a determinados setores. Parte deles atende a objetivos econômicos ou sociais legítimos, e a retirada de incentivos pode ter consequências sobre empresas, empregos e preços. A questão, para Pestana, é examinar quais renúncias cumprem de fato sua finalidade, quais poderiam ser redesenhadas e quais continuam em vigor sem justificativa suficiente. Em vez de tratar todos os benefícios da mesma forma, o governo poderia concentrar o esforço naqueles com menor retorno econômico ou social.
O tema já entrou na agenda fiscal. No fim de 2025, o governo adotou uma redução linear de 10% em determinados benefícios tributários que não tinham proteção constitucional. Segundo Pestana, a medida representou uma economia de R$ 120 bilhões, conforme os números mencionados por ele. O episódio ilustra o potencial de uma revisão das renúncias, mas também a necessidade de esclarecer quais benefícios foram alcançados e como a economia foi calculada antes de usar esse valor como referência para o ajuste futuro.
Para o diretor-executivo da IFI, contudo, a revisão dos incentivos não elimina a necessidade de enfrentar o crescimento das despesas. Ele considera insuficiente apostar em aumentos sucessivos de impostos para equilibrar as contas. “A carga tributária cresceu nos últimos quatro anos, mas as despesas avançaram ainda mais. Sem mudanças na trajetória dos gastos, a arrecadação adicional tende a oferecer um alívio limitado”, afirma. A lógica é simples: se o governo aumenta a receita, mas as despesas continuam crescendo em ritmo superior, o desequilíbrio reaparece e a dívida segue pressionada.
A Previdência é outra frente que exigirá atenção. O envelhecimento da população tende a elevar o número de beneficiários em relação ao de trabalhadores que contribuem para o sistema. Com mais pessoas recebendo aposentadorias e pensões por períodos mais longos, as despesas previdenciárias ganham peso no Orçamento. Sem ajustes que considerem a evolução demográfica, essa pressão tende a aumentar e a reduzir ainda mais os recursos disponíveis para outras políticas públicas. Para Pestana, será necessário reavaliar periodicamente as regras previdenciárias à medida que a estrutura etária do país mudar.
Uma reforma administrativa também poderia contribuir para melhorar a qualidade do gasto, ao buscar maior produtividade no setor público e uma utilização mais eficiente dos recursos. O objetivo não seria apenas reduzir despesas com pessoal, mas fazer com que a administração entregue melhores serviços com o dinheiro disponível. O resultado, porém, dependeria do desenho das mudanças e de sua capacidade de produzir ganhos concretos de eficiência.
Nenhuma dessas medidas, isoladamente, resolverá o problema fiscal. Rever benefícios tributários pode ampliar a arrecadação; alterar regras de despesas pode desacelerar seu crescimento; e melhorar a eficiência do Estado pode aumentar o retorno de cada real gasto. O desafio será combinar essas frentes em um plano coerente, com metas e prazos claros, em vez de depender de medidas pontuais para fechar as contas de cada ano. Para o próximo governo, o teste será transformar esse conjunto de possibilidades em decisões capazes de estabilizar a dívida e, ao mesmo tempo, devolver espaço ao Orçamento para investimentos.
Ajustar as contas sem sufocar o crescimento
O desafio, portanto, não é apenas reduzir o déficit, mas reorganizar as contas públicas para que o governo consiga financiar suas políticas e, ao mesmo tempo, recuperar a capacidade de investimento. Hoje, uma parcela elevada do Orçamento está comprometida com despesas obrigatórias, que crescem segundo regras legais e constitucionais e deixam pouca margem para o governo decidir onde alocar os recursos. Quando essas despesas avançam mais rapidamente que a arrecadação, os investimentos tendem a ficar espremidos, justamente uma das parcelas do gasto público que podem ser reduzidas com mais facilidade no curto prazo.
Essa restrição tem consequências para o crescimento. Com menos recursos para obras de infraestrutura, modernização de serviços públicos, educação e desenvolvimento tecnológico, o país encontra mais dificuldade para elevar a produtividade e ampliar sua capacidade de produção. A taxa de investimento brasileira tem permanecido entre 17% e 19% do PIB nas últimas décadas, segundo dados citados pela IFI, abaixo do patamar observado em economias emergentes asiáticas. Na infraestrutura, a insuficiência é ainda mais evidente: o Brasil investiu menos de 2% do PIB por ano no setor ao longo da década passada, ante uma média de 5% a 7% nas economias emergentes, segundo a OCDE.
A comparação ajuda a dimensionar o custo de um Orçamento cada vez mais rígido. Sem investimento suficiente, gargalos logísticos encarecem o transporte de mercadorias, a infraestrutura deficiente limita a expansão de empresas e a falta de recursos para inovação dificulta os ganhos de produtividade. O crescimento potencial da economia fica comprometido, assim como a capacidade de aumentar a renda e financiar serviços públicos no futuro. O país precisa, portanto, conter a expansão das despesas e abrir espaço para gastos que contribuam para ampliar sua capacidade produtiva.
“O país precisa criar espaço no Orçamento para ampliar os investimentos, porque são eles que podem transformar o futuro da economia brasileira”, afirma Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI. Ele ressalta que as transferências de renda são fundamentais para combater a pobreza e a fome, mas não são suficientes, por si só, para promover uma transformação estrutural da economia. O desafio é conciliar a proteção social com investimentos capazes de sustentar o crescimento no longo prazo.
Para isso, o próximo governo precisará apresentar um plano que mostre não apenas onde pretende chegar, mas como pretende fazê-lo. Pestana propõe, como exemplo, uma trajetória gradual de melhora do resultado primário: superávit de 0,5% do PIB em 2027, de 1% em 2028 e de 1,5% em 2029, até alcançar 2% em 2030. Esse último patamar corresponde, segundo as estimativas da IFI, ao resultado necessário para estabilizar a relação entre a dívida pública e o PIB.
A trajetória sugerida não é uma meta oficial, mas ilustra a diferença entre anunciar um ajuste e apresentar um programa fiscal de médio prazo. Metas intermediárias permitiriam distribuir o esforço ao longo de vários anos, desde que acompanhadas de medidas concretas para conter o crescimento das despesas e melhorar o resultado das contas públicas. O objetivo seria dar previsibilidade à política fiscal, em vez de depender de medidas pontuais a cada ano para tentar cumprir as metas.
A credibilidade do plano também importa para o custo da dívida. Quando os investidores duvidam da capacidade do governo de controlar o endividamento, passam a exigir juros maiores para financiar o Tesouro. Isso encarece a rolagem da dívida e mantém elevadas as taxas de mercado, que afetam o crédito, o consumo e os investimentos privados. Um programa fiscal consistente, na avaliação de Pestana, poderia ajudar a reverter essa dinâmica. “Se houver um ministro da Fazenda com credibilidade e uma boa equipe econômica, os juros tendem a cair e a confiança pode ser restabelecida”, afirma.
Transformar esse plano em realidade, porém, exigirá decisões politicamente difíceis. Não basta elevar a arrecadação ou promover cortes isolados: será necessário rever regras que pressionam o crescimento das despesas obrigatórias, reavaliar benefícios tributários e negociar mudanças com o Congresso. O desafio será fazer isso sem comprometer políticas públicas essenciais e sem retirar ainda mais recursos dos investimentos.
Os R$ 450 bilhões estimados no cenário apresentado pela IFI dão a dimensão do esforço fiscal potencial: considerando um déficit primário próximo de 1% do PIB em 2027 e a necessidade de alcançar um superávit de 2% para estabilizar a dívida, a diferença seria de cerca de três pontos percentuais do PIB. Não significa que o governo precise cortar esse valor de uma só vez, mas que terá de promover uma mudança expressiva na trajetória das contas públicas ao longo do tempo.
Sem essa mudança, o Brasil continuará diante de uma escolha cada vez mais estreita: acomodar despesas crescentes, pagar mais caro para financiar a dívida e sacrificar investimentos que poderiam elevar o crescimento. O ajuste fiscal, nesse sentido, não é apenas uma questão contábil. É também uma condição para que o país volte a ter espaço no Orçamento para investir e ampliar sua capacidade de crescer.
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