A estimativa para a oferta pública inicial de ações (IPO) da Anthropic, protocolado na segunda-feira (26), revelou a dimensão dos gastos da companhia com chips de inteligência artificial e data centers. A empresa, que cresce rapidamente e já desembolsou mais de US$ 19 bilhões (R$ 101,36 bilhões) em infraestrutura de IA desde sua fundação, em 2021, já assinou contratos que somam mais de US$ 500 bilhões (R$ 2,67 trilhões) para os próximos 20 anos.
Esses acordos incluem contratos com grandes empresas de computação em nuvem, como Amazon, Google e Microsoft, além das fabricantes de chips AMD, Broadcom e Nvidia. Há também contratos de capacidade computacional com a SpaceX, de Elon Musk, e uma série de operadoras de “neoclouds” e data centers, entre elas CoreWeave, Fluidstack — apoiada pelo Google —, Lambda — que tem apoio da Nvidia — e Nscale. Grande parte dessas parcerias já era de conhecimento público, mas, até agora, os valores dos contratos não haviam sido divulgados.
Segundo a projeção, em junho, a Anthropic tinha compromissos de aproximadamente US$ 587 bilhões (R$ 3,13 trilhões) relacionados a chips e data centers até 2045. Nos quatro meses seguintes, a criadora do Claude assinou outros US$ 266 bilhões (R$ 1,42 trilhão) em contratos novos e revisados.
Há ainda US$ 20 bilhões (R$ 106,69 bilhões) em capacidade computacional prevista da AMD e outros US$ 125 bilhões a US$ 150 bilhões (R$ 666,83 bilhões a R$ 800,19 bilhões) destinados à aquisição de mais chips desenvolvidos pelo Google.
Isso significa que as obrigações da empresa podem chegar a aproximadamente US$ 1 trilhão (R$ 5,33 trilhões) até 2045 — o equivalente a 3% dos US$ 31,6 trilhões (R$ 168,57 trilhões) que a gigante de consultoria PwC estima que serão investidos na expansão global da infraestrutura de inteligência artificial até 2050. A OpenAI, principal rival da Anthropic, estaria planejando destinar US$ 750 bilhões (R$ 4 trilhões) à capacidade computacional até 2030.
Números altos
É um salto gigantesco em comparação com o que a Anthropic gastou em sua curta história. De janeiro de 2023 a junho de 2026, a companhia desembolsou US$ 19,2 bilhões (R$ 102,42 bilhões) em capacidade computacional e infraestrutura de IA, incluindo data centers, chips, equipamentos e softwares utilizados para gerenciar essas operações.
No mesmo período, a empresa registrou US$ 21,3 bilhões (R$ 113,63 bilhões) em receitas. A maior parte desse faturamento, US$ 16,3 bilhões (R$ 86,95 bilhões), foi contabilizada apenas no primeiro semestre de 2026, uma alta de 1.300% na comparação anual, enquanto as despesas com computação e infraestrutura cresceram apenas 283%.
A capacidade da Anthropic de continuar construindo e pagando por esses data centers e chips depende de seu crescimento de receita acompanhar o ritmo dos investimentos. Aproximadamente 80% do faturamento da companhia no primeiro semestre do ano veio de clientes que pagam de acordo com o consumo, ou seja, conforme a utilização dos serviços da empresa. O restante teve origem em assinaturas.
Com a concorrência cada vez maior da OpenAI e de uma ampla variedade de modelos de pesos abertos mais baratos, pode se tornar difícil para a Anthropic manter seu ritmo acelerado de crescimento.
“O futuro deles depende da capacidade de cobrar esses preços elevados por seu modelo mais recente”, afirma Stijn van Nieuwerburgh, economista da Columbia Business School. “Sempre haverá um próximo modelo de um concorrente que fará algo um pouco melhor. Isso fará com que esse negócio seja muito mais volátil.”
Outro fator que torna a situação mais complexa é o fato de vários dos maiores contratos da Anthropic terem sido firmados com seus próprios investidores.
“O financiamento circular está se tornando cada vez mais relevante”, afirma Chan Ahn, CEO e fundador da plataforma de mercados privados Tessera PE. “Há muitas participações interligadas. A probabilidade de empresas como Anthropic e OpenAI quebrarem é muito pequena, mas tudo depende do fato de elas continuarem crescendo.”
Ampliando os horizontes
A companhia possui um contrato de US$ 114,5 bilhões (R$ 610,81 bilhões) com o Google para serviços de computação em nuvem e chips; outro de US$ 110 bilhões (R$ 586,81 bilhões) com a Amazon para computação em nuvem; e um acordo de US$ 45 bilhões (R$ 240,06 bilhões) com a Microsoft para capacidade computacional e acesso aos sistemas da Nvidia. As três empresas possuem participações na Anthropic, embora nenhuma delas apareça na tabela de capitalização apresentada no formulário S-1.
O maior contrato da Anthropic é um acordo de US$ 161 bilhões (R$ 858,87 bilhões) com a Broadcom para fornecimento de chips e infraestrutura. A fabricante de semicondutores também detém US$ 42 bilhões (R$ 224,05 bilhões) em notas conversíveis que podem ser transformadas em ações da Anthropic.
Segundo o S-1, a companhia espera gastar mais de US$ 20 bilhões (R$ 106,69 bilhões) em chips da AMD, que concordou, em julho, em comprar até US$ 5 bilhões (R$ 26,67 bilhões) em ações ordinárias da Anthropic.
A empresa também compra memória e armazenamento da Micron, Samsung e SK hynix, todas participantes da rodada de financiamento Série H realizada em maio, que avaliou a Anthropic em US$ 965 bilhões (R$ 5,15 trilhões). O S-1 não trouxe informações sobre o tamanho exato das participações dessas companhias na empresa.
Outro contrato de grandes proporções é o acordo de US$ 120,5 bilhões (R$ 642,82 bilhões) para acessar chips GPU da Nvidia por meio da SpaceX, que acumulou esses processadores. Quando a empresa de Elon Musk entregar toda a capacidade contratada, o que está previsto para dezembro, o acordo custará à Anthropic US$ 3,1 bilhões (R$ 16,54 bilhões) por mês.
O contrato ainda representa uma fonte de receita para a SpaceX: nos três primeiros meses de 2027, responderia por aproximadamente 25% do faturamento projetado da companhia para o primeiro trimestre. Na prática, isso vincula o desempenho financeiro das duas empresas.
Pontos de atenção
A Anthropic citou uma extensa lista de fatores de risco relacionados à expansão de sua infraestrutura, incluindo escassez de energia elétrica, atrasos nas obras e a crescente oposição à construção de data centers — problemas que poderiam comprometer seus planos de crescimento.
Alguns contratos exigem que a empresa realize pagamentos por 20 anos, independentemente de utilizar ou não a capacidade contratada, além de preverem reajustes anuais de preços e repasse, sem limite, dos custos de combustível, deixando a companhia exposta ao aumento dos preços da energia.
A Anthropic também pode ter de arcar com despesas relacionadas aos equipamentos antes mesmo de conseguir utilizá-los. Nos contratos de leasing com a Broadcom, os pagamentos de aluguel podem começar mesmo que os data centers ainda não estejam prontos.
Os compromissos firmados com Amazon, Google, AMD e Microsoft somam até 13 gigawatts de capacidade em data centers — energia suficiente para abastecer toda a cidade de Nova York —, mas boa parte dessa estrutura ainda precisa ser implementada. A presença mais ampla da Anthropic em data centers está concentrada nos Estados Unidos, com outras instalações também em desenvolvimento na Austrália, no Canadá e na Noruega.
Nenhum dos quase US$ 1 trilhão (R$ 5,33 trilhões) em contratos e arrendamentos aparece no balanço patrimonial da Anthropic, já que a companhia só os reconhece como passivos quando os contratos de leasing entram em vigor. A empresa informou passivos de US$ 117 bilhões (R$ 624,15 bilhões), compostos principalmente por notas conversíveis.
A capacidade da Anthropic de continuar ampliando sua rede de data centers é particularmente importante para muitos de seus fornecedores menores, que não possuem negócios tão diversificados quanto os da SpaceX. Entre os mais vulneráveis estão as chamadas “neoclouds”, empresas que compram grandes quantidades de chips de IA e depois alugam essa capacidade para companhias que precisam de poder computacional, como a Anthropic.
O prospecto da empresa revelou o grau de dependência dessas neoclouds em relação aos negócios com a companhia. A Nscale, que aluga chips e atualmente busca realizar um IPO, depende da Anthropic para 43% de seus US$ 103 bilhões (R$ 549,46 bilhões) em contratos.
Quase metade da capacidade computacional contratada da TeraWulf — uma mineradora de bitcoin de capital aberto que está expandindo suas atividades para data centers — está alugada à Anthropic. Já aproximadamente 25% dos contratos de IA da operadora de data centers Hut 8 foram firmados com a companhia.
O mercado
No domingo, Elon Musk destacou a diferença entre essas empresas e a SpaceX: “A SpaceX fechou US$ 40 bilhões (R$ 213,38 bilhões) em dívida para GPUs, mas temos grau de investimento e receitas provenientes da Starlink e de lançamentos”, escreveu ele em uma publicação no X. “Isso significa que as mais de 200 neoclouds verão mortes e consolidação em nível de peixinhos. Algumas vão sobreviver, mas não muitas.”
Muitas dessas neoclouds registraram quedas em suas ações nas últimas semanas, à medida que os investidores demonstram preocupação com o enorme volume de dívida necessário para financiar a construção de seus data centers.
Nenhuma delas foi mais afetada do que a CoreWeave, que, em junho, dependia de três clientes para gerar 72% de sua receita. Não está claro quanto desse faturamento depende especificamente da Anthropic, mas as duas empresas assinaram um acordo de vários anos em abril.
Os investidores acompanharão de perto a capacidade da Anthropic de continuar gerando dezenas de bilhões de dólares em receita a cada trimestre. Caso esse crescimento desacelere, isso poderá prejudicar seu IPO e provocar um efeito de esfriamento em toda a indústria de tecnologia.
“A Anthropic e a OpenAI ainda não são realmente lucrativas”, afirma Michael Cuggino, presidente da gestora de fundos mútuos Permanent Portfolio Family of Funds, sediada em São Francisco. “Se as receitas começarem a ser questionadas e você não tiver mais aquele crescimento acelerado, não é um bom momento para abrir o capital.”
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com
Acompanhe a Forbes no Google
Adicione a Forbes como fonte preferida no Google e encontre nossas notícias com mais facilidade.