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Como Michael Dell Acumulou US$ 125 Bilhões em Seis Meses

O fundador da Dell Technologies ocupa a quarta posição entre as pessoas mais ricas do mundo, com patrimônio avaliado em US$ 267 bilhões. Acompanhe a trajetória

11 min

Para convencer os pais a aceitarem a decisão de abandonar a faculdade de medicina, Michael Dell mostrou o primeiro balanço trimestral do seu negócio. Na sala 2713 do Dobie Center, dormitório de 27 andares da Universidade do Texas, em Austin, o jovem vendeu cerca de US$ 900 mil (R$ 4,69 milhões, na cotação atual) em computadores entre 1º de maio e 31 de julho de 1984, obtendo lucro próximo de US$ 200 mil (R$ 1,04 milhão).

Atualmente, a companhia precisa de pouco mais de quatro minutos para faturar US$ 900 mil (R$ 4,69 milhões). A Dell Technologies encerrou o último ano fiscal com receita de US$ 113,5 bilhões (R$ 591,335 bilhões) e atinge valor de mercado de cerca de US$ 345 bilhões (R$ 1,797 trilhão). O empresário detém aproximadamente 40% das ações. Trata-se de uma participação que valorizou 400% desde o início de 2026, projetando o executivo para a quarta colocação entre os maiores bilionários do planeta, com fortuna de US$ 266,1 bilhões (R$ 1,386 trilhão).

A trajetória de Michael Dell

Nascido em Houston em 23 de fevereiro de 1965, Dell começou cedo a explorar aparelhos eletrônicos. “Eu gostava de desmontar coisas”, relatou em entrevista à organização sem fins lucrativos American Academy of Achievement. Ele desmontava telefones, rádios e televisores para analisar o funcionamento e tentar remontá-los. O espírito empreendedor também despontou precocemente.

Aos oito anos, prestou um exame equivalente ao diploma do ensino médio para tentar ingressar no mercado de trabalho. Aos 13 anos, catalogou a própria coleção de selos, organizou um leilão e arrecadou US$ 2 mil (R$ 10,42 mil). Na adolescência, aplicava em ações os ganhos obtidos como lavador de pratos e ajudante de garçom em restaurantes chineses e mexicanos. Aos 15 anos, reuniu recursos suficientes para adquirir o primeiro computador, um Apple II. Desmontou o equipamento e o reconstruiu sozinho.

Aos 16 anos, passou a comercializar assinaturas do jornal local Houston Post. Após estudar o perfil dos potenciais clientes, percebeu que recém-casados e pessoas recém-mudadas demonstravam maior interesse nas assinaturas. O jovem consultou registros públicos, obteve os endereços dos requerentes de certidões de casamento e passou a enviar cartas personalizadas, evitando chamadas telefônicas aleatórias.

“A minha professora de economia passou a tarefa de preencher a declaração de imposto de renda”, recordou. “Preenchi a minha e entreguei. Ela disse: ‘Isso não pode estar certo, você ganhou mais do que eu'”. A venda de assinaturas rendeu US$ 18 mil (R$ 93,78 mil), quantia equivalente a aproximadamente US$ 65 mil (R$ 338,65 mil) em valores atualizados.

Formação interrompida em medicina

Dell pertence a uma família judaica de origem alemã. O sobrenome é a tradução em inglês de “Thal”, palavra em iídiche que significa “vale”. Os pais, um ortodontista e uma corretora de valores, incentivaram o ingresso no curso de medicina da Universidade do Texas, em Austin. Contudo, as atividades paralelas com informática ganharam espaço rapidamente. No início, sem o conhecimento dos familiares, comercializava kits para aprimorar os primeiros computadores pessoais.

“Tratava-se do início do setor, quando os PCs nem sequer vinham com disco rígido. Comprávamos placas controladoras e cabos, desenvolvíamos softwares básicos, adquiríamos discos rígidos e montávamos kits para atualizar as máquinas”.

Quando os pais descobriram o negócio, exigiram a interrupção das vendas para focar exclusivamente nos estudos. “A pausa durou cerca de dez dias. Foi nesse período que decidi estruturar uma empresa. Na verdade, a ordem dos meus pais para parar serviu de estímulo para o nascimento da companhia”. Dell fechou um acordo com a família: trancaria a matrícula na universidade por um semestre para testar a ideia de negócio. Caso o empreendimento não prosperasse, retornaria aos estudos de medicina.

Pc’s Limited

Dell formalizou a empresa sob o nome Pc’s Limited em 1984 — mesmo ano em que Steve Jobs lançou o Macintosh — dispondo de capital inicial de US$ 1 mil (R$ 5,21 mil). A sede saiu do quarto de estudante para um centro comercial em Austin.

A decisão de vender computadores prontos, e não apenas kits de atualização, ocorreu por acaso. A equipe montava computadores simples para formatar discos rígidos. Um funcionário da Martin Marietta — gigante do setor aeroespacial que se fundiria à Lockheed Martin na década de 1990 — visitou o local para comprar 150 discos rígidos e questionou a função daquelas máquinas. “‘São os computadores que usamos para formatar os discos’, respondi. Ele perguntou: ‘Podemos comprá-los?’. Estávamos tão ocupados formatando discos que nunca tínhamos pensado nessa possibilidade”.

O primeiro presidente da Pc’s Limited, Lee Walker, relatou à Forbes o encontro de 1986 em que recebeu a proposta de trabalho: “Ele comeu a maior parte do meu sanduíche, toda a minha sopa e, entre uma garfada e outra, convidou-me para presidir a empresa. Ele não tinha dinheiro nem acesso a crédito”.

Mesmo assim, o fundador demonstrava convicção na capacidade de desafiar os pioneiros do setor, como Hewlett-Packard e IBM, por meio de um modelo de negócios inovador. O executivo figurou entre os pioneiros na venda por telefone, na oferta de suporte técnico gratuito e na adoção do sistema just in time: adquiria componentes conforme os pedidos e montava as máquinas imediatamente antes da entrega. O modelo eliminava intermediários entre o fabricante e o consumidor final, reduzia estoques e permitia praticar preços abaixo da concorrência.

Prodígio empresarial

Em 1988, aos 23 anos, o empresário renomeou o empreendimento para Dell Computer Corporation e abriu o capital na Bolsa de Valores. Aos 24, recebeu o título de ‘Empreendedor do Ano’ pela revista Inc. Aos 26, estreou no ranking da Forbes dos 400 americanos mais ricos, com patrimônio de US$ 300 milhões (R$ 1,563 bilhão). Aos 27 anos, tornou-se o mais jovem presidente executivo a figurar na lista da Fortune das 500 maiores empresas dos Estados Unidos.

O ritmo de expansão acelerado trouxe desafios operacionais. Em seis anos, entre 1986 e 1992, o faturamento saltou de US$ 67 milhões (R$ 349,07 milhões) para US$ 2 bilhões (R$ 10,42 bilhões). Conforme reconhecido pelo próprio fundador, a infraestrutura e os processos internos não acompanhavam a velocidade da demanda.

Paralelamente, surgiram os primeiros reveses. No fim dos anos 1980, a empresa lançou o ‘Projeto Olympic’, computador de altíssimo desempenho que fracassou no mercado por superar as reais necessidades dos clientes. Foi o momento em que a marca se distanciou temporariamente da orientação original: “Uma empresa com ouvidos atentos ao mercado”, segundo definição do executivo à Forbes em 2017. Em 1993, a companhia tentou comercializar PCs em grandes redes varejistas, como o Walmart, mas recuou em razão das margens reduzidas do canal.

Liderança global

Nenhum obstáculo deteve os planos do fundador. Com o tempo, a marca diversificou a atuação para os segmentos de servidores, sistemas de armazenamento, impressoras, suporte de TI, projetores e tocadores de MP3. Em 1995, segundo perfil publicado pelo New York Times, o empresário contou aos colaboradores que as primeiras palavras da filha tinham sido: ‘Mamãe… papai… papai, supere a Compaq. Papai, supere a IBM. Papai, supere a Gateway’.

Em poucos anos, a empresa superou as concorrentes. O avanço ganhou impulso em 1996, quando a marca iniciou vendas diretas pela internet. Em dois meses, segundo a revista Entrepreneur, o comércio eletrônico gerava US$ 2 milhões (R$ 10,42 milhões) diários.

No primeiro trimestre de 2001, a Dell ultrapassou a Compaq e assumiu a liderança mundial em vendas de computadores pessoais. A marca perdeu a posição temporariamente com a fusão entre Compaq e HP em 2002, mas retomou o topo em 2003. Nenhuma das três rivais permaneceu no mercado de forma independente: a Compaq acabou adquirida pela Hewlett-Packard em 2002, a IBM encerrou a divisão de PCs em 2005 e a Gateway foi integrada pela Acer em 2007.

O retorno ao comando

Em 2004, o fundador deixou o cargo de presidente executivo, mas retornou três anos depois, tornando-se exemplo do fenômeno conhecido como boomerang CEO — executivos que reassumem o comando em momentos decisivos. A companhia enfrentava dificuldades de adaptação na transição dos computadores de mesa para os notebooks, além de se preparar para o encolhimento do mercado de PCs diante da ascensão de smartphones e tablets. Em 2012, analistas do Vale do Silício e de Wall Street consideravam a Dell estagnada, comparando a trajetória à perda de relevância de marcas como Palm, BlackBerry e Nokia.

Para reestruturar a operação, o fundador liderou uma manobra financeira em 2013: fechou o capital da empresa em uma transação de leveraged buyout (aquisição financiada por dívida) avaliada em US$ 24,9 bilhões (R$ 129,729 bilhões). A estratégia foi concebida pelo bilionário Egon Durban, copresidente do fundo de private equity Silver Lake Partners, que aportou a maior parte do capital. “A diferença entre você e Bill Gates é que você colocou o seu nome na caixa”, disse Durban durante negociação nas Ilhas Havaianas.

A operação contou com aporte de US$ 2 bilhões (R$ 10,42 bilhões) da Microsoft, além de recursos próprios e da participação acionária do fundador. O movimento representou a maior transação do gênero na história do setor de tecnologia.

Em 2018, a companhia abriu o capital novamente em Wall Street. No período intermediário, concretizou a aquisição da EMC por US$ 67 bilhões (R$ 349,07 bilhões), multinacional especializada em serviços de TI para corporações. O negócio deu origem ao conglomerado Dell Technologies.

A era Dell Technologies

Anos depois, a estratégia mostra resultados expressivos. A valorização de mercado da Dell Technologies alcança patamar 14 vezes superior ao valor pago no fechamento de capital em 2013. As ações valorizaram expressivamente e acumulam alta de 410% na Bolsa desde o início de 2026.

A expansão da inteligência artificial desempenha papel central nesse desempenho. O avanço da tecnologia impulsionou a demanda por servidores, segmento que se tornou pilar fundamental da organização. Apenas no último trimestre, a divisão registrou receita de US$ 16,4 bilhões (R$ 85,444 bilhões) dos US$ 47 bilhões (R$ 244,87 bilhões) faturados no total pela companhia, além de registrar US$ 60,9 bilhões (R$ 317,289 bilhões) em novos pedidos. Com base nesses indicadores, a empresa elevou a projeção de receita para o ano fiscal em curso para US$ 192 bilhões (R$ 1 trilhão), valor 69% superior ao exercício anterior.

A adoção de inteligência artificial também motivou a readequação do quadro de funcionários nos últimos anos, reduzindo a estrutura de 133 mil para 97 mil colaboradores. A diminuição ocorreu por meio do congelamento de contratações externas e da não reposição de vagas abertas. Além disso, a determinação do retorno ao trabalho presencial em tempo integral, implementada em março de 2025, acelerou desligamentos voluntários.

Posição entre os maiores bilionários

Michael Dell figura como um dos últimos grandes fundadores da era dos computadores pessoais a permanecer no topo da própria empresa. Bill Gates deixou a gestão da Microsoft em 2000, Steve Jobs faleceu em 2011 e Rod Canion deixou a Compaq em 1991. O patrimônio do executivo registrou aumento de US$ 125 bilhões (R$ 651,25 bilhões) em relação ao ranking anual divulgado pela Forbes em abril.

Cerca de metade da fortuna está atrelada à participação na Dell Technologies, enquanto outra parcela expressiva decorre da posse de aproximadamente 200 milhões de ações da fabricante de semicondutores Broadcom. O executivo recebeu papéis da fabricante em 2023, quando a Dell Technologies vendeu a empresa de computação em nuvem VMware por US$ 69 bilhões (R$ 359,49 bilhões). Por meio do family office DFO Management, o empresário também mantém investimentos na rede hoteleira e em marcas do setor de moda, como a Calvin Klein.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes Itália

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