Estamos a menos de três dias de saber quem será onovo presidente do Brasil. Neste domingo (25), os brasileiros voltam às urnas para decidir quem comandará o país pelos próximos quatro anos. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro,Flávio Bolsonaro (PL) terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Lula (PT).
E, a partir de janeiro, o presidente eleito encontrará um cenário bastante desafiador. Isso porque a economia brasileira está desacelerando com juros elevados e uma situação fiscal deteriorada. Além disso, aPesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic)daCNCaponta que81,7%das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Já o número de empresas inadimplentes no Brasil bateu recorde em agosto de 2026, alcançando9,3 milhõesde CNPJs no vermelho.
Em agosto, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) chegou a82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 11,1 trilhões. Ou seja, o estoque da dívida dos governos federal, estaduais e municipais equivale a quase 83% de tudo o que a economia brasileira produz em um ano.
O número é alto, masnão é o maior da história. A máxima da série ocorreu durante a pandemia, quando a dívida chegou a cerca de 87,7% do PIB em 2020. O patamar atual, no entanto, é o mais elevado desde 2021 e chama atenção principalmente pela trajetória de alta. Em julho, por exemplo, a relação estava em 82,5%; no fim de 2025, em 78,6%.
Por que comparar a dívida com o PIB? O PIB funciona como uma medida do tamanho da economia que, de maneira geral, gera renda e arrecadação para o governo. Quanto mais rápido a dívida cresce em relação ao PIB, maior tende a ser o esforço necessário para financiá-la. Uma trajetória crescente, como é o caso do Brasil, pode aumentar a percepção de risco dos investidores, pressionar os juros exigidos para financiar o governo e consumir uma parcela maior do orçamento com o serviço da dívida.
Para Mauro Rochlin, professor de MBAs da FGV, o cenário econômico é marcado por uma situação fiscal muito grave. “A dívida publica avançou muito nos últimos quatro anos e isso tem feito com que a taxa de juros se mantenha em patamares muito elevados”, comenta. Segundo ele, o gasto que o país tem com juros consome quase um terço de toda a despesa pública.
A economista Zeina Latif, associate no Gibraltar Consulting Economia, enfatiza que o ajuste fiscal precisa ser a prioridade, funcionando como o alicerce para a estabilidade macroeconômica, a redução dos juros e a previsibilidade. Para ela, a falta de clareza fiscal cria um ambiente que paralisa as decisões de investimento do setor privado. “O cenário macroeconômico está muito opaco e incerto, o fiscal precisa ser prioritário.”
Ela lembra que a falta de controle das contas públicas não prejudica apenas os indicadores econômicos, mas afeta a capacidade do Estado de cumprir suas funções básicas de saúde, segurança pública e apoio à educação.
Brasil perde fôlego
Nos 12 meses encerrados em julho, osjuros nominais (juros contabilizados sobre a dívida pública) do setor público chegaram a R$ 1,15 trilhão, ou 8,67% do PIB, de acordo com o BC.
No mesmo período, o setor público teve déficit primário de R$ 89,3 bilhões, equivalente a 0,67% do PIB. Depois de acrescentados os juros, o déficit nominal saltou paraR$ 1,24 trilhão, ou 9,34% do PIB, segundo Banco Central. Quando as despesas superam as receitas, há déficit primário; quando ocorre o contrário, há superávit.
O resultado primário mostra a diferença entre o que o setor público arrecada e gasta antes do pagamento dos juros da dívida.
O PIB brasileiro cresceu0,5% no segundo trimestre de 2026em relação aos três meses anteriores, depois de avançar 1,1% no primeiro trimestre. Em quatro trimestres, o crescimento acumulado desacelerou para1,9%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
As expectativas para os próximos meses não apontam para uma aceleração. Oúltimo Boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (19)mostrou nova revisão para baixo das projeções do mercado. A mediana das estimativas para o crescimento do PIB em 2026 caiu de 1,85% para1,83%. Para 2027, a redução foi mais expressiva: de 1,40% para1,32%, o menor nível desde que o BC começou a coletar previsões para o próximo ano.
Além disso, o mercado espera inflação de5,22% em 2026e4,32% em 2027, enquanto a Selic é projetada em13,25% ao fim deste ano e 12% ao fim de 2027. Atualmente, a taxa básica de juros está em 13,75% ao ano.
O professor da FIA Business School, Rodolfo Olivo, destaca o cenário difícil, independentemente de quem sairá vitorioso nas urnas. Na avaliação do economista, a prioridade tem que estar nas contas públicas.
“Com a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) caminhando em direção ao patamar dos 85% a 90% do PIB, há temores crescentes quanto ao risco de solvência do país caso a taxa de juros de longo prazo não caia substancialmente. Se nada for feito esse patamar pode se aproximar de 100% do PIB nos próximos anos”, afirma Olivo.
O economista explica que o próximo governo precisará reafirmar o respeito à autonomia do Banco Central e ancorar as expectativas de inflação, fazendo com que as políticas fiscal e monetária trabalhem na mesma direção. Hoje, segundo ele, ocorre o contrário, pois enquanto a política fiscal “acelera”, a política monetária “freia” a economia.
Na prática, de um lado, o governo mantém uma política fiscal que sustenta a demanda por meio dos gastos públicos, benefícios, transferências e outras medidas de estímulo. Mais dinheiro circulando e um consumo mais resistente ajudam a atividade econômica, mas também podem dificultar a queda dos preços quando a economia já opera com pouca folga. Do outro lado está o BC, cuja principal missão é levar a inflação de volta à meta. Para conter a demanda e evitar que os preços continuem subindo, a autoridade monetária mantém os juros em patamar elevado.
Felipe Salto, economista-chefe e sócio da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda e do Planejamento do Estado de São Paulo é mais um especialista a afirmar que o quadro atual é de fragilidade fiscal. Mas, o atual patamar ainda está distante de representar um risco de solvência, segundo a sua análise.
Solvência é a capacidade do governo dehonrar suas dívidas ao longo do tempo. Um país entra em uma situação de risco quando cresce a percepção de que ele pode não conseguir gerar recursos suficientes, refinanciar seus débitos ou encontrar investidores dispostos a continuar financiando sua dívida em condições sustentáveis. Quanto maior esse risco, maior tende a ser o retorno exigido pelos investidores para emprestar dinheiro ao governo, podendo encarecer ainda mais a dívida e alimentar um ciclo de deterioração fiscal.
Salto aponta que a situação é diferente de outros momentos de estresse econômico. “O país conta com reservas internacionais elevadas, balanço de pagamentos equilibrado, caixa do Tesouro robusto e uma dívida pública externa pequena.”
Por outro lado, ele diz que os gastos crescem acima do PIB e a dívida é alta e crescente, demandando um plano de estabilização. “O desafio central é apresentar um plano, rapidamente, mas com efeitos distribuídos em quatro anos“, destaca Salto.
A conta não fecha
Equilibrar as contas públicas sem mexer em impostos ou cortar gastos parece pouco provável na avaliação dos especialistas consultados pela Forbes.
“Não existe mágica”, resume Felipe Salto. Para ele, será necessário aprovar um plano capaz de conter o crescimento da despesa pública e recuperar um superávit primário suficiente para estabilizar a relação entre dívida e PIB no médio prazo. “Se o plano for bem aceito, os juros vão reagir rapidamente, sobretudo porque o ciclo econômico também permitirá uma redução da Selic, as expectativas ajudarão e isso abre possibilidades para um ciclo mais virtuoso em alguns anos.”
O economista também afirma a necessidade de rever gastos tributários, isto é, benefícios e renúncias fiscais concedidos pelo governo.
Para o professor da FIA, o governo terá que negociar uma combinação entre aumento de tributos e redução de gastos, em um ambiente no qual boa parte do orçamento já está comprometida com despesas obrigatórias. “Como a carga tributária no Brasil já é muito alta, em comparação com os países emergentes, o ideal seria ser focado principalmente em cortes de gastos, para reestabelecer a confiança.”
A margem de manobra do Poder Executivo para fazer investimentos ou remanejar recursos no orçamento é a menor em décadas —menos de 10% do orçamento é de despesas não obrigatórias.
Segundo Zeina Latif em torno de 95% do orçamento da União está comprometido com despesas obrigatórias previstas na Constituição. A especialista aponta que aumentos na carga tributária dificilmente compensariam a expansão contínua dessas despesas. “Esses gastos crescem de forma automática devido ao envelhecimento populacional e à vinculação das receitas e do salário mínimo.”
Como fazer o Brasil voltar a crescer?
Colocar as contas em ordem será apenas parte do trabalho do próximo presidente. O principal obstáculo será criar condições para que o país volte a crescer de forma consistente, sem depender de estímulos pontuais ou de ciclos passageiros de expansão.
“Para falar de crescimento sustentável, tem que se pensar em um orçamento público minimamente equilibrado”, afirmaMauro Rochlin, professor dos MBAs da FGV.
Na avaliação do economista, não haverá uma solução única para chegar a esse equilíbrio. “A solução desse problema maior, sem dúvida nenhuma, passa tanto pelo aumento de impostos como por corte de gastos. Acho que não existe solução miraculosa”, diz.
Outro ponto de atenção são as despesas vinculadas ao salário mínimo. Como o piso nacional tem recebido reajustes acima da inflação, gastos atrelados a ele também avançam. Na avaliação de Rochlin, um crescimento mais moderado dessas despesas já poderia ajudar a encaminhar parte do desequilíbrio.
A economista Zeina Latif ainda chama atenção para ainsegurança jurídica no país, para as incertezas em torno da implementação da Reforma Tributária, que ainda geram preocupação no setor produtivo e para a rápida transição da escala 6X1. “O setor privado já tem sofrido com outras fontes de preocupação”, afirma Latif.
“O Brasil não cresce de forma prolongada e sustentável há cerca de 40 anos, porque há diversas barreiras estruturais para isso acontecer”, acrescenta Rodolfo Olivo, professor da FIA Business School.
De acordo com Olivo, algumas dasprincipais reformas de longo prazonecessárias para o crescimento sustentável do PIB brasileiro são:
1- Reforma tributária:Concluir a regulamentação e a transição para o novo modelo de Imposto sobre Valor Adicionado (IVA dual), formado pela CBS federal e pelo IBS estadual e municipal, com segurança jurídica. A desoneração dos investimentos produtivos e das exportações, segundo Olivo, é necessária para reduzir o custo do capital e aumentar a competitividade da indústria.
2- Reforma administrativa:Rever o desenho das carreiras do setor público, privilégios e distorções remuneratórias, como os chamados supersalários, além da indexação de despesas obrigatórias. “Existe a necessidade de discutir reforma administrativa para os estados, municípios, poderes Legislativo e Judiciário. Por exemplo, municípios com menos de 5 mil habitantes são extremamente deficitários e precisam ser sustentados pelos repasses federais. Poderia haver um tamanho mínimo para municípios”, afirma.
3- Reforma da Previdência:O envelhecimento da população e a queda da taxa de fecundidade pressionam o atual modelo de repartição da Previdência. Olivo também aponta distorções entre as aposentadorias dos setores público e privado.
4- Abertura comercial e redução do Custo Brasil:Ampliar a integração do país à economia global por meio de acordos comerciais, simplificação das licenças de importação e exportação e redução da burocracia. A maior concorrência externa, segundo o professor, pode estimular a inovação e aumentar a eficiência das empresas brasileiras.
5- Marcos legais e investimentos públicos e privados:Aprimorar a segurança jurídica, a execução de garantias, a portabilidade e o crédito livre, além de ampliar concessões e parcerias público-privadas (PPPs) em áreas como saneamento, rodovias, ferrovias e portos.
6- Educação e produtividade: A produtividade do trabalho está estagnada há décadas, segundo Rodolfo Olivo, em parte pela defasagem na qualificação da mão de obra e pelos baixos níveis de proficiência dos estudantes em matemática, ciências e leitura. Entre 1981 e 2024, a produtividade por trabalhador cresceu, em média, 0,2% ao ano, enquanto a produtividade por hora trabalhada avançou 0,5% ao ano. No período mais recente, de 2018 a 2024, a produtividade por hora ficou estagnada, com variação média anual de 0%, segundo dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE. “Além disso, as questões de segurança pública e saúde, para além das questões econômicas, devem entrar em pauta”, afirma.