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Dólar Desaba após 1º Turno: até Onde a Moeda Pode Cair?

Queda superior a 4% reflete a redução do prêmio de risco político após Flávio Bolsonaro terminar à frente de Lula; especialistas apontam espaço para novas baixas, mas alertam para a volatilidade

8 min

O dólar caiu mais de 4% e voltou a ser negociado abaixo de R$ 5 nesta segunda-feira (5), depois que Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno das eleições presidenciais à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O movimento, que levou a moeda americana de R$ 5,22 no fechamento de sexta-feira para menos de R$ 5, reflete uma mudança abrupta nas expectativas dos investidores sobre o resultado do segundo turno, marcado para 25 de outubro, e sobre a condução da política econômica a partir de 2027.

A pergunta que passa a orientar o mercado é quanto dessa expectativa já está incorporada aos preços. A queda do dólar sugere que uma parcela relevante do prêmio de risco político foi retirada em um único pregão. Mas seria prematuro concluir que o movimento está esgotado, ou que a moeda continuará caindo até o fim do ano.

“A queda do dólar hoje é a leitura mais direta do resultado do 1º turno. O mercado passou a precificar uma chance maior de alternância de poder e, com ela, de uma trajetória fiscal mais crível a partir de 2027. É esse prêmio de risco fiscal que está saindo do câmbio”, afirma Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital.

Na avaliação do executivo, ainda existe espaço para o real se valorizar caso o resultado do primeiro turno se confirme na votação de outubro. Bancos estrangeiros estimam a cotação da moeda americana entre R$ 4,80 e R$ 4,95 nas próximas semanas, com possibilidade de uma cotação ainda menor se houver perspectiva concreta de ajuste fiscal. Segundo Trevisan, essas estimativas, porém, dependem da evolução do cenário político e não representam uma trajetória garantida.

O movimento já foi significativo. André Matos, CEO da MA7 Capital, observa que o mercado manteve em R$ 5,20 a projeção para o dólar no fim do ano durante 16 semanas consecutivas. A queda abaixo de R$ 5 rompeu essa estabilidade em um único pregão, sinalizando uma mudança importante na percepção de risco.

Para Matos, contudo, a velocidade da reação não deve ser confundida com uma transformação dos fundamentos econômicos. A dívida pública e o resultado das contas do governo não mudaram com a apuração dos votos. O que se alterou foi a probabilidade atribuída pelos investidores a diferentes trajetórias para a economia brasileira.

Essa distinção é decisiva para estimar o comportamento da moeda até dezembro. Uma parte da queda já reflete a possibilidade de alternância de poder, mas outra dependerá de como as pesquisas evoluirão, das propostas econômicas apresentadas pelos candidatos e, sobretudo, das perspectivas para as contas públicas no próximo governo.

Há um motivo adicional para que os investidores levem o resultado do primeiro turno a sério. Desde a redemocratização, em 1989, todos os candidatos que ficaram à frente na primeira votação e precisaram disputar o segundo turno acabaram vencendo a eleição presidencial. O padrão se repetiu em 1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso venceu já no primeiro turno.

A sequência é expressiva, mas não deve ser confundida com uma lei eleitoral. Cada disputa ocorre em condições próprias, e o resultado da primeira votação não determina automaticamente a transferência dos votos dos candidatos eliminados, a participação dos eleitores no segundo turno ou a evolução das alianças políticas.

Em 2026, a vantagem de Flávio Bolsonaro ganha relevância justamente porque o resultado contrariou a expectativa de parte do mercado. O senador obteve cerca de 47% dos votos válidos, ante aproximadamente 45% de Lula, uma diferença que deixou a disputa aberta, mas alterou a leitura dos investidores sobre as probabilidades eleitorais.

A história pode reforçar a convicção de que a liderança inicial importa. Não elimina, porém, o risco de reversão. Até a votação de 25 de outubro, pesquisas, declarações dos candidatos, alianças partidárias e propostas econômicas devem influenciar as apostas do mercado. “Daqui até o 2º turno, a volatilidade vai ser alta e cada pesquisa vai mexer no câmbio”, afirma Trevisan.

O que já está precificado?

O câmbio antecipa expectativas. Quando investidores passam a atribuir maior probabilidade a um governo considerado mais comprometido com o equilíbrio fiscal, podem reduzir a proteção cambial e ampliar posições em ativos brasileiros. A valorização do real, nesse caso, não exige que o ajuste fiscal já tenha ocorrido: basta que o mercado passe a considerar esse resultado mais provável.

É o que ajuda a explicar a reação desta segunda-feira. Segundo João Debom, sócio da Supernova Investimentos, o movimento foi predominantemente doméstico. Enquanto o dólar avançava diante de outras moedas no exterior, recuava frente ao real, indicando que a mudança de percepção sobre o risco político brasileiro foi determinante para a queda. “O ponto central é que não houve mudança de fundamento. O dólar está subindo lá fora; quem caiu foi o prêmio de risco político do Brasil”, afirma Debom.

O comportamento também revela o limite da reprecificação. O resultado do primeiro turno alterou as expectativas eleitorais, mas não eliminou a incerteza sobre o segundo. Além disso, mesmo uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro não garantiria, por si só, uma trajetória fiscal mais favorável. A composição do Congresso, a capacidade de articulação política e as medidas efetivamente adotadas pelo próximo governo serão determinantes para transformar a expectativa em resultado econômico.

Por isso, não é possível afirmar que todo o cenário eleitoral já esteja incorporado ao câmbio. O tamanho dessa parcela depende das probabilidades atribuídas pelo mercado a cada desfecho e de quanto essas probabilidades já estavam refletidas nos preços antes da votação.

Até onde o dólar pode cair?

A projeção de R$ 4,80 a R$ 4,95 mencionada por Trevisan oferece uma referência para o potencial de valorização adicional do real no curto prazo, caso o cenário eleitoral continue favorável à alternância de poder. Mas o intervalo não deve ser confundido com uma estimativa consensual para o fechamento de dezembro: trata-se de uma projeção para as próximas semanas, condicionada à evolução política.

O horizonte até o fim do ano é mais complexo. Além do resultado eleitoral, a cotação dependerá das expectativas para a política fiscal, dos juros nos Estados Unidos, do comportamento global do dólar e dos preços das commodities. Uma deterioração do ambiente internacional pode limitar a valorização do real mesmo que o cenário doméstico permaneça favorável.

A assimetria dos riscos também merece atenção. Se o resultado do segundo turno frustrar as expectativas que impulsionaram a queda, parte da valorização pode ser revertida rapidamente. Se, por outro lado, o mercado passar a enxergar maior probabilidade de ajuste fiscal e previsibilidade econômica, a moeda brasileira poderá continuar se fortalecendo. “Daqui até 25 de outubro, a volatilidade deve seguir alta, nos dois sentidos”, afirma Debom.

Matos também recomenda cautela com a interpretação do movimento. A redução do prêmio de risco pode ser rápida, mas a melhora estrutural da situação fiscal exige decisões políticas e medidas concretas. A dívida bruta do governo geral, que ele situa em 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), e o resultado primário negativo continuam no radar dos investidores.

O efeito sobre a inflação

Se a valorização do real persistir, o efeito poderá chegar à economia real. Um dólar mais barato reduz o custo, em moeda nacional, de combustíveis, fertilizantes, máquinas e outros insumos importados. Isso pode aliviar pressões inflacionárias e, em determinadas condições, ampliar o espaço para cortes de juros pelo Banco Central.

O repasse, porém, não é imediato nem integral. Ele depende dos preços internacionais, das margens das empresas e do tempo necessário para que a variação cambial chegue ao consumidor. Tampouco uma queda pontual da moeda é suficiente para alterar, por si só, a trajetória da política monetária.

Para quem tem despesas em dólar, Trevisan considera que o recuo pode ser uma oportunidade para comprar parte da moeda sem tentar acertar a cotação mínima. Para o investidor, manter uma parcela da carteira em ativos dolarizados pode continuar funcionando como proteção contra uma reversão do cenário.

A conclusão, por ora, é que o primeiro turno já provocou uma reprecificação relevante, mas não encerrou a disputa cambial. A queda abaixo de R$ 5 representa uma aposta em um cenário político e fiscal futuro, não a confirmação de que ele se concretizará. Até dezembro, a direção da moeda dependerá tanto do resultado das urnas quanto da capacidade de o próximo governo convencer o mercado de que as expectativas podem se transformar em política econômica.

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