Esta reportagem faz parte da cobertura da Forbes sobre os Mais Ricos da Índia de 2026. Veja a lista completa aqui.
Os gigantes da tecnologia da Índia estão acelerando seus esforços para se proteger da onda global de inteligência artificial (IA), que ameaça transformar o tradicional modelo de terceirização do setor, fortemente dependente de mão de obra. Com investidores cautelosos pressionando para baixo as ações das empresas indianas de tecnologia da informação (TI), todos os bilionários cujas fortunas estão ligadas ao segmento registraram perdas em seus patrimônios.
O mais rico desse grupo é Shiv Nadar, presidente emérito da HCL Technologies e que já ocupou a posição de terceira pessoa mais rica da Índia. Agora, ele caiu para o 7º lugar, após sua fortuna encolher US$ 5,8 bilhões (R$ 30,28 bilhões), para US$ 27,4 bilhões (R$ 143,03 bilhões). A redução ocorre em meio à queda de 18% das ações da companhia desde a última medição das fortunas.
As ações das concorrentes da HCL, Wipro e Infosys, tiveram desempenho ainda pior, recuando mais de um terço e afetando as fortunas de Azim Premji e N.R. Narayana Murthy. Seus patrimônios, no entanto, diminuíram de maneira menos acentuada porque ambos contam com outros ativos que ajudam a amortecer as perdas.
Premji é proprietário da Wipro Enterprises, empresa de bens de consumo de capital fechado, além da gestora de private equity PremjiInvest. Já o family office da família Murthy, Catamaran Ventures, foi beneficiado pelas recentes ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) de algumas das empresas nas quais investe, incluindo a listagem recorde da SpaceX, de Elon Musk, em junho.
O que está acontecendo?
As gigantes de tecnologia estão reajustando suas estratégias para permanecer relevantes diante do avanço da IA. Para Ganesh Natarajan, presidente da consultoria de tecnologia 5F World, sediada em Pune, esse movimento deve ser encarado mais como uma oportunidade do que como uma ameaça.
Em setembro, a HCLTech lançou a HCLTech Pulse, unidade que oferece um conjunto de serviços destinado a ajudar empresas com receita anual entre US$ 500 milhões (R$ 2,61 bilhões) e US$ 5 bilhões (R$ 26,10 bilhões) a ampliar suas iniciativas de inteligência artificial.
Em dezembro, a companhia desembolsou US$ 240 milhões (R$ 1,25 bilhão) para adquirir a Jaspersoft, empresa sediada na Califórnia que fornece uma plataforma de análise integrada baseada em IA.
No ano encerrado em 31 de março, a HCLTech registrou receita de US$ 14,7 bilhões (R$ 76,73 bilhões), dos quais US$ 620 milhões (R$ 3,24 bilhões) vieram de suas soluções de IA avançada.
Amit Chandra, analista da HDFC Securities, em Mumbai, observou em relatório publicado em junho que, embora o segmento de IA avançada da HCLTech tenha potencial para alcançar US$ 1 bilhão (R$ 5,22 bilhões) nos próximos dois anos, ele não consegue “compensar completamente a pressão sobre os contratos tradicionais”.
A Infosys iniciou sua estratégia voltada à inteligência artificial há três anos, com o lançamento do Infosys Topaz, que oferece serviços baseados em IA generativa. Essas soluções responderam por 8,2% da receita de US$ 5,1 bilhões (R$ 26,62 bilhões) registrada pela companhia no trimestre encerrado em 30 de junho.
A Wipro, por sua vez, ampliou sua atuação em serviços de inteligência artificial no ano passado com o Wipro Intelligence. Segundo o CEO Srini Pallia, a iniciativa ajudaria os clientes da companhia a “crescer com confiança e liderar em um mundo impulsionado pela IA”. Em março, a empresa também lançou uma solução de data center para inteligência artificial que utiliza o software Nvidia AI Enterprise para ajudar companhias a acelerar a adoção da tecnologia.
Natarajan, da 5F World, avalia que iniciativas como essas poderão se traduzir em crescimento de receita na faixa alta de um dígito ao longo dos próximos dois a três anos no setor de tecnologia da informação, que registrou vendas superiores a US$ 300 bilhões (R$ 1,57 trilhão) em 2025.
“A IA obrigou as empresas indianas de serviços de tecnologia a avançar na cadeia de valor e a se posicionar como as arquitetas por trás das organizações habilitadas por inteligência artificial”, afirma. O desafio, segundo Natarajan, estará na requalificação dos profissionais que ocupam cargos de nível inicial.
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com