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Ibovespa Tem Maior Queda desde 2020 e Dólar Dispara no 1º Pregão após Eleições

A bolsa brasileira caiu 13,88% enquanto o dólar saltou 8,63% ante ao real

10 min

O Ibovespa fechou com a maior queda desde 2020 nesta segunda-feira (26), marcada por “circuit breaker” na bolsa paulista, em meio a uma forte reprecificação das ações brasileiras após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistar a reeleição no domingo.

Índice de referência do mercado acionário brasileiro, o Ibovespa despencou 13,88%, a 176.608,23 pontos, maior perda percentual desde março de 2020, período marcado pela pandemia de Covid.

No pior momento, o Ibovespa apurou queda de mais de 17%, a 169.516,43 pontos. O volume financeiro no pregão marcou R$ 109,24 bilhões antes dos ajustes finais.

Correção do rali

O movimento no mercado financeiro nesta segunda-feira está fortemente relacionado a uma correção de rota dos investidores que, após o primeiro turno, vinham apostando na vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições. O senador encerrou o primeiro turno com vantagem de 2,2 milhões de votos.

No último pregão antes do primeiro turno das eleições, a bolsa fechou com alta de 2,46% aos 191 mil pontos. Após o primeiro turno, o índice atingiu uma máxima histórica: o Ibovespa fechou em 206 mil pontos, alta de 7,7%. Tratado como rali eleitoral, o comportamento do Ibovespa refletiu a reprecificação rápida do risco político por parte dos agentes de mercado.

Segundo Thomas Haugaard, gerente de portfólio no time de Dívida de Mercados Emergentes em Moeda Forte (EMD HC), atritos de curto prazo amplificam o ajuste inicial do mercado.

Ele explica que: “embora as pesquisas para o segundo turno continuassem indicando uma disputa genuinamente acirrada, a dívida externa já havia, em grande parte, precificado uma vitória de Bolsonaro após a alta dos mercados após o primeiro turno. O resultado, portanto, expôs uma clara assimetria de precificação: a aposta na eleição já estava precificada, enquanto o risco de uma vitória de Lula não estava.”

Ralis eleitorais nem sempre representam tendências duradouras. Muitas vezes ocorrem sob a lógica de “comprar no boato, vender no fato”, por isso, parte do movimento pode ser associado a operadores que compram papéis antecipadamente para vendê-los com lucro no momento em que a vitória do candidato é oficializada.

Freios acionados

A B3 acionou o “circuit breaker” na abertura, suspendendo por 30 minutos a negociação de ativos à vista, renda fixa privada e opções referenciadas em ações, BDR, Ibovespa, Ibovespa B3 BR+, IBrX-50, Índice Small Cap e ETFs. A B3 afirmou que decisão de acionar o mecanismo com base na análise do cenário de formação do preço teórico do Ibovespa, que indicava queda superior a 20%.

O “circuit breaker” não era acionado na bolsa desde março de 2020.

“O mercado embutiu nos seus preços uma expectativa diferente no primeiro turno do que efetivamente se concretizou no segundo turno e como esse resultado foi diametralmente diferente das expectativas há esse ajuste forte”, afirmou a investidora Louise Barsi, cofundadora do Grupo AGF (Ações Garantem o Futuro).

“O momento é de cautela, mas não é nem 8 nem 80, não acho que é para zerar a caixa, mas também não acho que é para deixar algumas oportunidades passarem, principalmente nomes de qualidade”, afirmou, lembrando que os políticos passam, mas as boas empresas ficam e as oportunidades surgem justamente nesses momentos de grande instabilidade e incerteza.

Olhando para frente, Louise citou que não dá para cravar que esse foi o único ajuste e citou que há um cenário desafiador para 2027, com baixo crescimento econômico, risco persistente de pressão inflacionária e juros ainda em níveis elevados. “Vamos ver se o governo vai fazer algum aceno ao mercado para tentar enganar os ânimos”, disse a investidora, que é filha de Luiz Barsi Filho, um dos maiores investidores individuais da bolsa brasileira.

Aceno

Ainda nesta segunda-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou ao Estadão que o governo apresentará uma proposta para que possa perseguir o centro da meta fiscal ao longo do ano, e não mais o piso da margem de tolerância.

Na visão dos agentes financeiros, houve um aumento das incertezas sobre as perspectivas fiscais do país e a direção dos preços dos ativos brasileiros agora dependerá das sinalizações sobre a política econômica do novo mandato. As atenções estão externas para a decisão sobre quem comandará o Ministério da Fazenda, bem como uma definição mais precisa da estratégia de consolidação fiscal para os próximos quatro anos.

O Goldman Sachs espera, “no máximo, medidas modestas para conter o crescimento dos gastos primários, acompanhados por novos aumentos de uma carga tributária que já é elevada.”

Para o Morgan Stanley, há, de modo geral, um risco relevante de queda para as ações brasileiras antes do fim do ano, especialmente para empresas mais expostas ao mercado doméstico. “Apesar de acreditar que a ocorrência inicial dos mercados deve ser uma forte redução de exposição ao risco, o desafio subjacente é muito mais profundo, refletindo desequilíbrios macroeconômicos estruturais que se tornam cada vez mais difíceis de reverter.”

O Scotiabank também destacou que o fato de Flávio se recusar a sério a derrota e entrar com uma contestação judicial do resultado deve manter a incerteza política elevada, mantendo sob pressão as ações brasileiras. “Continuamos otimistas em relação ao Brasil, mas pode ser necessário ter mais paciência”, afirmou.

Destaques

• BANCO DO BRASIL ON desabou 29,33%, fechando em um mínimo desde maio de 2023, a R$ 17,47, em sessão bastante negativa para o setor financeiro, que vinha também sendo um dos mais beneficiados pelas expectativas de vitória de Flávio Bolsonaro. BTG PACTUAL UNIT tombou 24,83%, BRADESCO PN despencou 21,7%, ITAÚ UNIBANCO PN caiu 13,66% e SANTANDER BRASIL UNIT <SANB11.SA>, que divulgou balanço na quarta-feira, fechou em queda de 4,47%.

• B3 ON caiu 36,28%, enquanto XP <XP.O>, listada nos EUA, afundou 48,36%, na maior queda em um dia desde o IPO em 2019, e Nubank, também listado em Nova York, recuperou 16,95%. Para analistas do JPMorgan, há risco de revisões negativas para as estimativas de mercado para o lucro por ação nos próximos dias e 2027 pode se mostrar um ano mais desafiador para o cenário macroeconômico brasileiro. O índice do setor financeiro caiu 22,48%.

• PETROBRAS PN recuou 8,18% e PETROBRAS ON perdeu 6,81%, também contaminadas pela aversão a risco na bolsa brasileira, em pregão ainda marcado pelo declínio dos preços do petróleo no mercado internacional. A presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou nesta segunda-feira que a forte queda nas ações se trata de “movimento especulativo” e não reflete os fundamentos da empresa. “A hora é de comprar (ações). Infelizmente não posso”, disse a executiva à Reuters.

• VALE ON subiu 4,01%, descolada do viés vendedor no pregão paulista, assim como outras exportadoras, em meio à forte valorização do dólar ante o real. No fechamento, a cotação acusou R$ 5,4066, alta de 8,36%. Na máxima do dia, chegou a superar os R$5,60. SUZANO ON avançou 10,08% e EMBRAER ON fechou com elevação de 8,89%, na ponta positiva do Ibovespa, assim como WEG ON, que valorizou-se 4,21%, em pregão ainda marcado pelo anúncio de compra do negócio de Power Controls Solutions (PCS) da empresa norte-americana L&S Electric por US$11 milhões.

• GERDAU PN fechou em alta de 0,91% antes da divulgação do balanço do terceiro trimestre, após o fechamento do mercado. A companhia tem parte relevante da receita oriunda da América do Norte. No setor, USIMINAS PNA perdeu 10,71% e CSN ON tombou 17,46%.

• REVISTA LUIZA ON derreteu 58,23%, em dia de forte pressão em papéis sensíveis a juros dado o movimento na curva de DIs. O índice de consumo da B3 caiu 26,39%, enquanto o índice do setor imobiliário perdeu 29,11%, com CYRELA ON despencando 44,81%.

Dólar tem maior alta diária em 23 anos após vitória de Lula e fecha em R$5,4066

O dólar à vista disparou 8,36% frente ao real nesta segunda-feira, maior alta em 23 anos, com o mercado reagindo oportunidades à vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pelo Planalto na véspera.

O dólar à vista chegou a superar os R$ 5,60 pela manhã, mas a moeda desacelerou as perdas ao longo da sessão e cerrou com elevação de 8,36%, a R$ 5,4066. Foi a maior alta desde 5 de março de 2003, quando o dólar avançou 10,4%, e o maior valor de fechamento desde 2 de janeiro deste ano.

No ano, a divisa passou a acumular baixa de apenas 1,50%.

Às 17h15, o dólar futuro para novembro — o mais negociado no Brasil — avançava 8,75% na B3, para R$ 5,4100.

As negociações no mercado futuro de dólar – o mais líquido no Brasil e que servem de referência para as cotações no segmentos à vista – enfrentaram paralisações pela manhã, após a B3 ter limitado as oscilações de alta para que os agentes conseguissem encontrar um preço de equilíbrio.

Logo cedo a B3 comunicou alteração nos limites de oscilação diária do dólar para todos os vencimentos na sessão desta segunda-feira, de 6% para 8,4%. Depois, emitiu novo comunicado ampliando o limite para 12%, em meio à forte pressão compradora para a moeda norte-americana.

O movimento se deu após Lula vencer a disputa pelo Planalto, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio. Como o mercado estava em grande parte posicionado para um triunfo do senador — o que colocou o dólar abaixo de R$ 5 na sexta-feira –, o ajuste nesta sessão foi intenso.

Na noite de domingo, profissionais consultados pela Reuters já aprimoraram um forte avanço do dólar ante o real após os recuos recentes. Apenas no dia seguinte ao primeiro turno, quando Flávio ficou à frente de Lula, o dólar à vista caiu mais de 4%, em meio à euforia do mercado com a possibilidade de o senador vencer uma disputa.

Por trás disso houve a leitura de que, com Flávio no Planalto, cresceram as chances de um ajuste nas contas públicas. Como Lula venceu o segundo turno, garantindo mais um mandato, os investidores amaram perdas e ajustaram posições em realizar todos os mercados nesta segunda-feira, incluindo o câmbio.

Às 10h46, o dólar à vista marcou a cotação máxima intradia de R$ 5,6059 (+12,35%), para depois retornar gradativamente para perto dos R$ 5,40.

Profissionais ouvidos pela Reuters ao longo do dia consideraram a disparada do dólar como algo previsível depois da surpresa eleitoral.

“O dólar caiu R$ 5,60, já está em R$ 5,45 e deve encerrar a semana em R$ 5,30”, projetou no início da tarde o diretor de assessoria do FB Capital, Fernando Bergallo, chamando atenção para o exagero das variações.

“Esse movimento é agudo sempre, o mercado ‘overreacts’ (reage de forma exagerada)”, pontudo.

No fim da manhã, sem efeito sobre as cotações, o Banco Central vendeu 75.000 contratos de swap cambial para rolagem do vencimento de 3 de novembro.

No exterior, que nesta segunda-feira ficou em segundo plano, às 17h34 o índice do dólar — que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas — subia 0,35%, a 102,020.

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