A rede de farmácias Panvel, que faturava R$ 2,5 bilhões em 2020, se prepara para fechar o ano na casa dos R$ 7 bilhões, mantendo uma taxa de expansão anual próxima de 18%. O alvo agora é alcançar R$ 12 bilhões de faturamento em 2030.
À frente dessa jornada está Julio Mottin Neto, que acumula três décadas na empresa, dez delas no cargo de CEO. Mottin conhece o negócio do chão de loja ao topo do organograma corporativo. Aos 14 anos, começou atendendo clientes no balcão da farmácia e trilhou sua carreira com passagens pela publicidade, pelo marketing, em 1996, e, mais tarde, pela área de operações de lojas.
“O marketing tem um lado profundo da psicologia de consumo: entender por que o consumidor escolhe a nossa empresa e não a concorrência. Essa curiosidade e uma paranoia constante por evolução são o que me movem”, afirmou Mottin em entrevista exclusiva.
A escalada do faturamento ganhou tração após o follow-on de R$ 1 bilhão realizado em 2020, ano em que o grupo aumentou a liquidez de suas ações na B3. O aporte de capital coincidiu com o choque da pandemia, que acelerou drasticamente a adoção de hábitos digitais.
Antes da crise sanitária, o comércio eletrônico respondia por cerca de 10% das vendas totais da Panvel. Em seis meses, essa participação saltou para 25% e hoje já se aproxima de 50%.
O CapEx do grupo está dividido fundamentalmente entre a abertura de novas unidades, as reformas das lojas existentes e a tecnologia. Esta última já consome 40% de todo o capital destinado a investimentos pela rede.
“Dificilmente compramos máquinas ou racks físicos de computadores como no passado; isso tudo virou nuvem, virou serviço. Hoje, 40% do nosso CapEx é puramente voltado à inovação e tecnologia. É um número alto, mas tem que ser”, explicou Mottin.
Essa transformação exigiu uma mudança estrutural na dinâmica das equipes. A rede instituiu os chamados “embaixadores de tecnologia” em departamentos cruciais, como finanças, comercial, logística, operações e marketing, criando pontes diretas entre as necessidades do negócio e os desenvolvedores internos.
IA da prateleira ao balcão
A assistente virtual Sofia foi integrado ao aplicativo da rede para atender a demandas de pós-venda, cancelamentos e reposição de produtos com base no histórico de compras dos clientes.
Por meio do smartphone corporativo, os atendentes fotografam prescrições de difícil leitura, e a IA realiza o reconhecimento dos princípios ativos e das posologias recomendadas.
No backoffice, algoritmos passaram a desempenhar funções em duas áreas sensíveis para as margens: a previsão e o giro dos estoques, para otimizar a disponibilidade de produtos nas lojas, e o pricing dinâmico, que monitora a concorrência em tempo real e testa a elasticidade dos preços de produtos-chave.
Apesar dos ganhos de produtividade, o executivo faz questão de acrescentar uma ressalva ética ao debate. “A velocidade de escala da inteligência artificial é assustadora. Minha preocupação real é com o emprego. Não tenho certeza se o ser humano terá a capacidade de se adaptar e se reinventar no mesmo ritmo em que essas mudanças estão sendo impostas”, refletiu.
Sucessão no horizonte de dez anos
Mottin divide sua rotina entre a prática diária de esportes, sobretudo o surfe, que pratica desde os 18 anos, e a presidência do conselho do Instituto Caldeira. Ele atribui sua longevidade no cargo à disciplina e à capacidade de enfrentar problemas.
“O pior conselho corporativo que já recebi na vida foi o de que eu precisava ‘brilhar’ individualmente. Hoje discordo inteiramente. O líder brilha através da sua equipe. A obsessão não deve ser parecer o mais inteligente da sala, mas sim reunir as pessoas certas e trabalhar de forma colaborativa”, defendeu.
Ao olhar para a reta final do ciclo de expansão da marca, Mottin já estabeleceu o que considera seu principal desafio de governança: preparar a própria sucessão.
Diferentemente do processo de transição familiar que o conduziu à presidência após a gestão de seu pai, o próximo ciclo do Grupo Dimed terá um executivo de mercado no comando. “Tenho 53 anos e vou trabalhar os próximos dez anos focado em encontrar e preparar meu sucessor. Meus filhos ainda são crianças. Tenho 100% de certeza de que será um profissional de mercado”, antecipou.
Para o futuro ocupante do cargo, os critérios já estão definidos: curiosidade aguçada, capacidade de comunicação aberta, disposição para se expor sem medo e vocação genuína para lidar com pessoas. “Varejo é um people business. Quem não gosta de gente e não se comunica com clareza simplesmente não consegue liderar essa indústria”, concluiu Mottin.
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