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Bolsa Ensaia Trégua, Mas Mercado Segue Cauteloso com “Efeito ALR” e Fiscal

Proposta de André Lara Resende para reduzir a Selic voltou ao debate; agentes dizem que a falta de medidas concretas para as contas públicas mantém a pressão sobre os ativos brasileiros

6 min

A Bolsa paulista ensaiava uma trégua nesta quarta-feira, 4, depois de seis pregões seguidos de queda. Por volta das 15h, o Ibovespa subia 1,38%, aos 167.808 pontos, após acumular perdas superiores a 19% na sequência de baixas. O alívio, porém, não significa que investidores estejam mais confiantes nos planos econômicos do próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na véspera, o índice caiu 1,42%, enquanto o dólar futuro avançou cerca de 0,65%, para R$ 5,524. A curva de juros também permaneceu pressionada. O mercado aguarda a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), com a maioria das estimativas apontando para a manutenção da Selic em 13,75%.

Parte da pressão está associada ao chamado “efeito ALR”, referência a André Lara Resende e ao receio de que a discussão sobre sua proposta de redução dos juros sinalize uma mudança na condução da política econômica, diz Jason Vieira, economista-chefe da Lev. Na avaliação dele, as negativas do ministro da Fazenda, Dario Durigan, não encerraram o assunto. Sem anúncios concretos, a proposta continua como um “bode na sala” para o mercado, avalia.

O economista diz que investidores esperam um compromisso mais explícito de Lula com a condução econômica e o equilíbrio das contas públicas. Aliados defendem que o presidente use um pronunciamento para afastar dúvidas sobre uma eventual mudança de regime. Vieira também cita sinalizações de Rafael Fonteles em favor da disciplina fiscal, mas afirma que o mercado aguarda medidas concretas antes de rever sua percepção.

Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, também aponta a falta de propostas e de definição sobre o nome que comandará o Ministério da Fazenda como preocupação principal. Para ele, a fala de Durigan contra a proposta de Lara Resende não foi suficiente para reduzir a incerteza.

“Por mais que o Dario Durigan tenha rechaçado essa ideia maluca do André Lara Resende, que a gente já sabe que não funcionaria, teria que ter uma combinação muito maluca de astros para isso acontecer e funcionar”, afirmou Marcatti. “O que está pegando mais no mercado é a falta de proposta apresentada, é a falta de nome para o cargo de ministro da Fazenda.”

Segundo o economista, a ausência de novidades positivas aumenta a reação dos investidores a propostas que possam indicar uma mudança de rumo. “Vai se somando a essa ausência de novidades positivas, a criação de ideias malucas, e o mercado continua batendo, testando a paciência do governo”, disse. Para Marcatti, o governo precisa tratar o tema fiscal com “urgência e responsabilidade”.

Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, afirma que não é possível separar com precisão quanto da pressão vem da proposta e quanto decorre da incerteza fiscal. “As especulações sobre uma possível adoção dessas ideias podem, de repente, ampliar no mercado o receio de mudança na condução da política econômica.”

Quartaroli lembra que a autonomia do Banco Central é garantida por lei e que o objetivo fundamental da política monetária é assegurar a estabilidade de preços. Ainda assim, diz que a falta de clareza sobre medidas para estabilizar a dívida mantém a incerteza. “Os dois fatores podem se reforçar.” Para reduzir a pressão, acrescenta, são importantes o respeito à autonomia do BC e uma sinalização fiscal mais consistente.

O que propõe André Lara Resende

Lara Resende publicou o artigo “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos” em seu Substack em 25 de setembro. O texto voltou ao debate no início de novembro, quando foi republicado pelo RED, em 2 de novembro.

Um dos formuladores do Plano Real, Lara Resende foi diretor do Banco Central e presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ele tem doutorado em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

O economista atribui o desequilíbrio fiscal principalmente ao custo dos juros sobre a dívida pública. Sua proposta prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para definir metas fiscais e monetárias conjuntas para um período de quatro a cinco anos. O plano também prevê a redução gradual da Selic para perto de 7,5% ao ano, ao longo de cerca de 12 meses, e a atuação do Banco Central no câmbio para suavizar uma eventual depreciação do real.

Lara Resende sustenta que a queda dos juros reduziria o custo da dívida e ajudaria a estabilizar as contas públicas. Ele reconhece que a redução poderia pressionar a inflação no curto prazo, principalmente por meio do câmbio, e argumenta que a atuação do BC e o perfil da dívida ajudariam a conter esse risco. A proposta provocou questionamentos sobre a autonomia do Banco Central e sobre os efeitos de uma redução da Selic sem uma âncora fiscal considerada confiável por investidores.

Nesta terça-feira, Durigan afirmou que a proposta não estava sendo considerada por Lula e que não havia reunião marcada entre o presidente e Lara Resende. O ministro disse ver “várias deficiências” na ideia e afirmou que o governo ainda discutia medidas de ajuste fiscal gradual.

A pressão sobre as contas públicas também aparece nas projeções do Tesouro. Em relatório divulgado ontem, o órgão estimou que a dívida bruta do governo geral fechará 2026 em 83,7% do PIB. Em uma simulação na qual o resultado primário se deteriora em 0,5 ponto percentual do PIB por ano, a dívida chegaria a 91,5% do PIB em 2036. Com melhora equivalente, cairia a 81,1%. O Tesouro aponta a importância de mudanças estruturais para reduzir a relação entre dívida e PIB de forma sustentada.

As negativas do ministro afastaram a possibilidade de que a proposta já estivesse na mesa do governo. Os agentes ouvidos pela Forbes, porém, seguem cobrando medidas e definições para a equipe econômica. A trégua da Bolsa nesta quarta-feira não eliminou as dúvidas sobre a política fiscal e o rumo da economia no próximo mandato.

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