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Por Que o Bilionário da Palantir Está Apoiando um Plano para Criar 30 Mil Macacos?

Joe Lonsdale, cofundador da Palantir e dono da gestora 8VC, investiu US$ 20 milhões na Safer Human Medicine, empresa que pretende ampliar a oferta de primatas para pesquisas médicas nos Estados Unidos

9 min

A empresa de venture capital8VC, do bilionárioJoe Lonsdale, investiu em uma startup de testes em animais. A companhia foi fundada pelo ex-diretor de operações de uma empresa que recebeu a maior multa já aplicada nos Estados Unidos por violar aLei de Bem-Estar Animaldo país.

ASafer Human Medicine (SHM)foi criada em 2023 porJim Harkness, veterano do setor de testes em animais. A empresa pretende criar30 mil macacospara uso em pesquisas médicas.

Até agora, a SHM captouR$ 150,6 milhões (US$ 28 milhões). Desse total,R$ 107,6 milhões (US$ 20 milhões)foram investidos pela 8VC, de Lonsdale, em 2023, segundo fontes familiarizadas com o negócio.

Embora a8VCnão inclua a SHM entre as empresas de seu portfólio no site, Lonsdale revelou o investimento em maio. A declaração ocorreu durante participação no podcast deJack Altman. “Você preferiria salvar seu irmão ou o macaco?”, perguntou Lonsdale ao falar sobre o trabalho da SHM. “Não é algo maligno… é pró-humano.”

A 8VC publicou sobre a empresa pela primeira vez em sua conta noX. Lonsdale respondeu à publicação com os emojis de um macaco e da bandeira dos Estados Unidos.

Fundador da SHM trabalhou em empresa multada por maus-tratos

Antes de criar a SHM,Jim Harknesspassou três anos como diretor de operações (COO) daEnvigo, fornecedora de animais para pesquisas.

Ele deixou a companhia em outubro de 2022. Pouco antes, a Envigo havia concordado em fechar uma instalação de criação de cães da raça beagle emCumberland, na Virgínia.

ODepartamento de Justiça dos Estados Unidoshavia apresentado uma denúncia contra a companhia. No local, o órgão encontrouatendimento veterinário inadequado, condições insalubres, desnutrição e altas taxas de mortalidade de filhotes. Mais de4 mil beaglesforam apreendidos e, posteriormente, colocados para adoção.

Dois anos depois, aInotiv, controladora da Envigo, informou que se declarou culpada. A companhia pagou um valor recorde deR$ 188,3 milhões (US$ 35 milhões)em multas e outros acordos. A empresa também informou que havia encerrado as operações na instalação da Virgínia em setembro de 2022.

Harknessnunca foi acusadoe não quis comentar o caso. Lonsdale também não respondeu aos pedidos de comentário sobre o histórico do fundador da SHM.

Projeto de US$ 270 milhões

Depois de deixar a Envigo, Harkness começou a apresentar a investidores a ideia de uma empresa dedicada à pesquisa com primatas. Ele analisou mais de uma dúzia de locais antes de escolherBainbridge, na Geórgia, cidade de apenas15 mil habitantes, próxima à divisa com a Flórida.

Em dezembro de 2023, autoridades locais aprovaram um pacote de incentivos para o projeto. O acordo incluía atéR$ 1,61 bilhão (US$ 300 milhões) em títulos, cerca de200 acres de terrenoedez anos de isenção de impostos sobre a propriedade.

Em contrapartida, a SHM prometeu investirR$ 1,45 bilhão (US$ 270 milhões)na economia local e gerar263 empregos. Uma carta enviada aos moradores de Bainbridge em 2024 mostrava como seria a instalação. O material incluía a representação de uma sala interna de recreação para os macacos, com brinquedos, uma árvore e grandes janelas.

O acordo, porém, começou a desmoronar após a reação dos moradores. A população local se organizou contra a construção da megainstalação com o apoio daPessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (PETA). Em fevereiro de 2024, a autoridade de desenvolvimento do condado votou pela desistência do acordo.

ASHMreagiu e processou a entidade e o condado na Justiça Federal da Geórgia. A companhia alega que a autoridade descumpriu um contrato vinculante. O processo continua em andamento. A SHM ainda não é proprietária do terreno e a instalação de Bainbridgenão está em operação.

A companhia não quis comentar o litígio nem informar o andamento do projeto.

Empresa abre instalação na Flórida

Enquanto a disputa na Geórgia continua, a SHM passou a buscar alternativas. No início de 2025, a empresa anunciou a aquisição de uma instalação já existente emLaBelle, na Flórida.

O objetivo era acelerar as operações de alojamento e quarentena dos macacos. A unidade também serviria de apoio ao futuro complexo de Bainbridge. A SHM já gastoumilhões de dólaresna instalação da Flórida. O local conquistou clientes ejá está em operação.

“Os Estados Unidos precisam de um fornecimento doméstico confiável de primatas para pesquisa que ajude a acelerar o desenvolvimento de tratamentos para nossas crianças”, afirmouLonsdale, de 44 anos, em declaração àForbes.

“Devemos buscar alternativas eficazes sempre que possível e exigir padrões éticos rigorosos no cuidado com os animais, algo que só é verdadeiramente possível em território nacional ou de países aliados, onde a supervisão do tratamento humanitário dos animais está garantida por lei.”

Quem é Joe Lonsdale?

Joe Lonsdaletem uma fortuna estimada emR$ 20,44 bilhões (US$ 3,8 bilhões). O empresário foi um dos fundadores da gigante de defesaPalantir, ao lado dePeter ThieleAlex Karp. Depois, em 2015, criou a8VC.

Com o objetivo declarado de ajudar a consertar um “mundo quebrado”, a gestora administraR$ 69,94 bilhões (US$ 13 bilhões) em ativos. Entre seus investimentos estão empresas comoAnduril, Cognition e Quince.

Em 2018, Lonsdale também foi um dos fundadores doCicero Institute, think tank conservador que defende políticas favoráveis aos empreendedores em áreas como habitação e saúde.

EUA flexibilizaram exigência de testes em animais

Durante décadas, a realização de pesquisas em animais foi exigida por lei para todos os medicamentos nos Estados Unidos. No entanto, em 2023, aAdministração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA)flexibilizou essa exigência.

A mudança permitiu que farmacêuticas substituíssem animais por tecnologias comomodelagem computacionale“órgãos em chips”. Esses dispositivos podem simular os efeitos de medicamentos sobre o funcionamento dos órgãos.

Defensores dos direitos dos animais comemoraram a mudança. Startups também passaram a apresentar novas tecnologias como alternativas aos testes tradicionais.

Apesar dos avanços, as farmacêuticas ainda dependem de colônias de animais para grande parte das pesquisas. Isso ocorre principalmente no desenvolvimento demedicamentos complexos.

“É preciso ser capaz de fazer avaliações em um sistema fisiológico integrado que reproduza da maneira mais próxima possível a condição humana”, afirmaKenneth Ramos, professor de ciências médicas daUniversidade Texas A&M.

“Poupar esforços nas avaliações de segurança e eficácia nunca será algo positivo para a sociedade.”

Por que macacos são usados em pesquisas médicas?

Os macacos compartilhammais de 90% de seu DNA com os seres humanos. Eles também vivem mais do que roedores. Por essas características, os primatas se tornaram importantes para testes de medicamentos e terapias destinados a seres humanos.

Os animais foram utilizados no desenvolvimento davacina contra a Covid-19. Também são empregados em pesquisas sobreterapias gênicas avançadas e distúrbios metabólicos.

O problema é que a oferta desses animais está cada vez mais restrita.

Em 2020, durante a pandemia, aChina proibiu a exportação de primatas não humanos. Até então, o país fornecia60% dos macacos usados em pesquisas biomédicas nos Estados Unidos. Com a restrição, laboratórios de várias partes do mundo recorreram aoCamboja. A maior demanda pressionou os preços. O valor chegou aR$ 107,6 mil (US$ 20 mil) por animal, anteR$ 16,1 mil (US$ 3 mil)poucos anos antes.

Em 2022, surgiu um novo obstáculo. Uma denúncia do Departamento de Justiça contra uma rede ilegal de tráfico de macacos sediada no Camboja restringiu também essa fonte de fornecimento. Segundo osCentros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC),80% dos macacos-cinomolgos importados pelos Estados Unidos no ano passado vieram de Maurício e do Vietnã.

A proibição chinesa à exportação de primatas continua em vigor.

“Nós nos referimos aos primatas como asterras raras da biotecnologiaporque a oferta realmente se tornou restrita, criando grandes dificuldades para que pesquisadores americanos consigam realizar seu trabalho”, afirma Harkness.

A comparação faz referência ao domínio da China sobre o fornecimento de minerais de terras raras, considerado uma questão de segurança nacional pelos Estados Unidos.

“Nosso foco está exclusivamente na criação de primatas e na cadeia de suprimentos. Acreditamos que esse seja o componente mais crítico do desenvolvimento de medicamentos neste momento”, acrescentou o fundador da SHM.

Outros casos

Lonsdale não é o único bilionário a apoiar projetos controversos envolvendo testes em animais ou clonagem. Elon Muskfoi um dos fundadores daNeuralink, startup de interface cérebro-computador. A empresa enfrentou questionamentos há alguns anos pelo uso de primatas em suas pesquisas.

A Neuralink não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Na semana passada,Ben Lamm, bilionário daColossal Biosciences, anunciou um novo projeto chamadoWarhound.

A iniciativa foi criada em parceria com aAnduril, dePalmer Luckey, e pretende desenvolver uma nova geração decães de guerra geneticamente modificados para as Forças Armadas dos Estados Unidos.

APETAtambém criticou a proposta. Em comunicado, a porta-vozColleen O’Brienclassificou o projeto como uma “ideia surpreendentemente ultrapassada em um momento em que outras agências estão eliminando gradualmente o uso de cães em favor da robótica”.

Lonsdale, por sua vez, afirma não se preocupar com as críticas. “Liderança significa ter coragem para apoiar pesquisas que podem salvar vidas, mesmo quando parecem controversas.”

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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