Camila Kataguiri, CEO da Pier Seguradora, começou a desenhar sua trajetória no mercado financeiro durante a graduação em Administração na FGV e o MBA em Harvard. Depois, acumulou passagens por instituições como Deutsche Bank, Janus Holding e Advent International.
Uma das principais viradas de sua carreira, segundo ela, foi a experiência na Restaurant Brands International (RBI), holding controladora do Burger King e do Popeyes, ligada à 3G Capital, onde assumiu o cargo de General Manager da região oeste dos Estados Unidos. Foi ali que decidiu deixar o mercado financeiro para assumir, pela primeira vez, um cargo diretamente ligado à operação de uma empresa. A mudança veio por curiosidade e pelo desejo de conhecer o negócio além dos números. “Eu queria sair da minha torre de marfim”, conta.
A intenção era entender como as decisões estratégicas se transformavam em execução no dia a dia, acompanhando de perto a operação, fora da bolha da Faria Lima. “Quando a gente chega ao board, dá um monte de pitaco, mas não faz a menor ideia de como aquilo é implementado dentro da companhia. Pensei que, se não gostasse daquele mundo, pelo menos seria uma investidora melhor”, afirma.
Quando recebeu o convite para assumir a posição de COO (Chief Operating Officer) da Pier, Camila buscava justamente um lugar onde pudesse colocar em prática o que havia aprendido. “Eles queriam alguém com solidez de gestão para garantir uma escala sustentável, porque a ambição da empresa era grande”, conta.
Ao aceitar o desafio, em 2022, a companhia havia acabado de registrar faturamento de R$ 30 milhões. Sob sua liderança, a projeção é superar R$ 350 milhões em receita neste ano.
Para Camila, a evolução da empresa representa o resultado da disposição de empreender e executar no Brasil. “Hoje, a Pier cresce 60% ao ano, gera caixa e já está dando lucro, dentro do break-even. É uma história de execução. Ter boas ideias é fundamental, mas é preciso coragem para tirar um projeto do papel e empreender no Brasil”, afirma.
Como a Pier mudou as regras do jogo
A Pier é uma seguradora que oferece produtos para celulares e automóveis em um modelo de assinatura mensal, com renovação automática, semelhante ao sistema de cobrança de serviços como Netflix e Spotify.
Quando começou a operar, porém, a regulamentação impunha obstáculos a esse formato. A Superintendência de Seguros Privados (Susep) permitia a renovação automática das apólices apenas uma vez, ao ano, o que dificultava a oferta de produtos com pagamentos mensais recorrentes e contratos de longo prazo. A Pier levou a questão ao órgão regulador e trabalhou para mudar essa regra.
A empresa também questionou exigências regulatórias que, na avaliação da executiva, favoreciam as grandes seguradoras e dificultavam a entrada de novos participantes. “Não existia essa divisão em S1, S2 e S3, que estabelece diferentes níveis de exigências para as seguradoras de acordo com o seu porte. As regras eram iguais para todas, e o capital mínimo exigido para abrir uma seguradora era elevadíssimo”, explica Camila.
A aposta em tecnologia também foi parte dessa estratégia. Em 2021, a companhia desenvolveu seu primeiro agente de inteligência artificial voltado à liquidação de sinistros. Embora a regulamentação previsse um prazo de até 30 dias para o pagamento, a Pier passou a utilizar a tecnologia para acelerar o processo. Segundo a empresa, um terço dos sinistros de celulares é pago via Pix em poucos segundos.
“ A Susep me dá 30 dias para pagar um sinistro de celular. Então, as seguradoras pagam em 30 dias. Não estão fazendo nada de errado, estão seguindo as regras. O problema é que elas não foram criadas pensando na experiência do cliente. Afinal, quem consegue ficar 30 dias sem celular?”, questiona.
Neste ano, a insurtech brasileira conquistou o primeiro lugar no ranking World’s Best Insurance Companies 2026, elaborado pela empresa alemã Statista em parceria com a Forbes dos Estados Unidos.
A pesquisa ouviu mais de 45 mil clientes em 13 países. Para Camila, a posição no ranking representa um reconhecimento da estratégia adotada pela companhia. “É um sinal de que estamos no caminho certo”, afirma.
O estilo de gestão e a representatividade do cargo de CEO
Para a executiva, a cultura organizacional é um dos principais pilares da Pier. É a partir dela que se constrói um time capaz de alcançar resultados e sustentar o crescimento da operação. Ao mesmo tempo, Camila reconhece que a liderança pode ser solitária e que ocupar a cadeira de CEO não significa ter todas as respostas.
“A maioria dos problemas que preciso resolver envolve situações que também estou aprendendo a enfrentar. Muitas vezes, estou aprendendo e encontrando a solução junto com o time”, afirma.
Diante do volume de decisões que fazem parte da rotina de uma liderança, ela considera a capacidade de priorização uma das competências mais importantes para evitar a paralisia. “Se você não sabe priorizar em um cargo de liderança, está ferrado. É muito fácil cair na armadilha de manter a agenda cheia e achar que está sendo produtivo, quando, na verdade, está apenas apagando incêndios”, pondera.
A preocupação com a cultura começa já no processo de integração. Todos os profissionais contratados pela seguradora passam por um onboarding conduzido pessoalmente pela CEO. “Todos os funcionários que entram na companhia, sem exceção, fazem comigo o treinamento de integração sobre a nossa cultura. Passo uma hora e meia traduzindo as regras do jogo”, conta.
Na formação das equipes, Camila busca profissionais pragmáticos, orientados por dados e avessos a jogos corporativos.
A representatividade também faz parte de sua visão sobre liderança. O setor de seguros e o mercado financeiro ainda são ambientes predominantemente masculinos, realidade que acompanhou boa parte de sua trajetória profissional.
“Em quase todas as empresas em que trabalhei, eu era a única mulher, uma das poucas ou a mulher mais sênior do lugar. Os tomadores de decisão no Brasil ainda são, em sua grande maioria, homens brancos, heterossexuais e mais velhos. Quando olhamos para a fotografia, ela ainda é ruim; mas, quando acompanhamos o filme, vemos avanços”, afirma.
Para Camila, ocupar a posição de CEO vai além da responsabilidade pelos resultados da empresa. É também uma oportunidade de ampliar as referências para as próximas gerações de mulheres no mercado de trabalho.
“As pessoas precisam ver mulheres em posições de liderança para acreditar e sonhar que esse também é um lugar que podem ocupar”, conclui.
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