A Bolsa brasileira registrou a segunda maior queda do ano na quinta-feira (5), no primeiro pregão após o resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. A onda de vendas em Wall Street eliminou os ganhos da sessão anterior e aumentou a pressão sobre os mercados emergentes, incluindo o Brasil.
“Estamos vendo uma pressão no Ibovespa. Toda vez que ocorre um movimento como esse, os mercados emergentes tendem a reduzir a exposição a esse tipo de ativo. O impacto pode até influenciar as expectativas para a taxa Selic”, afirmou Paloma Lopes, economista da Valor Investimentos.
Segundo Lopes, os ativos mais pressionados estão ligados aos setores de inteligência artificial, semicondutores e tecnologia. As principais bolsas de Nova York encerraram o dia em forte queda: o Nasdaq recuou 5,5%, o S&P 500 perdeu 4,4% e o Dow Jones caiu 3,4%.
Marcel Lima, sócio da Valor Investimentos, apontou dois fatores por trás do movimento: “Há dois motivos: a dúvida sobre o retorno dos gastos com inteligência artificial e o medo de regras mais duras para o setor depois da vitória democrata nas eleições legislativas”.
Para Mário Machado, assessor de investimentos da InvestSmart, os efeitos sobre o Brasil chegam principalmente por dois canais. “O primeiro é o câmbio: o dólar comercial subiu 0,68%, a R$ 5,49, em um dia de aversão ao risco. O segundo é o humor do investidor estrangeiro, que, quando perde dinheiro em um mercado, costuma reduzir posições em outros também.”
Machado ressalta, porém, que o desempenho dos ativos brasileiros também é condicionado por fatores domésticos, sobretudo pelas incertezas fiscais. “O Ibovespa já vinha de seis quedas seguidas antes de quarta-feira, por dúvidas sobre a agenda fiscal do novo mandato. Isso explica mais o comportamento da Bolsa brasileira em novembro do que qualquer coisa que aconteceu em Nova York.”
A cautela dos investidores é, portanto, um dos principais reflexos do cenário externo sobre o mercado brasileiro. Para Lopes, “a exigência está cada vez maior no mercado e, obviamente, o investidor prefere estabilidade neste momento”. Na quinta-feira, o Ibovespa recuou 0,82%, aos 166.191 pontos, em meio à maior aversão global ao risco.
Bolha de IA: correção ou sinal de alerta?
Na avaliação de Lopes, o movimento representa uma correção pontual, e não necessariamente uma mudança estrutural na trajetória do setor. “Esse recuo é um ajuste de expectativas e uma recalibragem dos valuations. O próprio investidor sabe que não dá para cobrar resultados imediatos. É um retorno de longo prazo.”
“A queda de ontem não prova que existe uma bolha de IA. Mas confirma que a discussão sobre o valuation do setor, que vinha ocorrendo nos bastidores há meses, se traduziu em um movimento de preços”, afirmou Caroline Bonati, mestre em Economia e Finanças pela FGV e planejadora financeira CFP.
Segundo Bonati, a avaliação dos efeitos da queda exige uma perspectiva de longo prazo. “A trajetória depende, em grau relevante, da agenda regulatória democrata, da resistência republicana e de acordos de compromisso voluntário entre governo e empresas.”
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