A era de Taormina como destino da elite não começou com sua aparição na série The White Lotus. Em 1787, Goethe escreveu sobre o Teatro Antico di Taormina, construído no século 3 pelos gregos. D. H. Lawrence se refugiou na Villa Fontana Vecchia, atraindo um círculo boêmio e consolidando a reputação da cidade como um refúgio cultural. Membros da realeza britânica também frequentavam o local, trocando a névoa de Londres pelas flores sicilianas.
Não é difícil entender por que artistas sempre foram atraídos pela região. O escritor francês Guy de Maupassant definiu bem: Taormina oferece uma “paisagem em que se encontra tudo o que parece ter sido criado na Terra para seduzir os olhos, a mente e a imaginação” — algo que permanece verdadeiro até hoje.

A segunda temporada de The White Lotus, da HBO, apenas seguiu os passos da fama de Taormina — e não o contrário. Ainda assim, a cidade, localizada no alto de uma colina na costa leste da maior ilha do Mediterrâneo, aumentou sua relevância entre viajantes de alto poder aquisitivo. Em 2023, o turismo na Sicília registrou um aumento de 424% nas reservas em comparação com o ano anterior. Desde então, Taormina se consolidou como parada obrigatória para estadias de luxo. Hotéis de alto padrão têm registrado lotação máxima por longos períodos, e as tarifas no auge do verão chegaram a US$ 3 mil (R$ 16,2 mil) por noite: um recorde.
Com esse crescimento, grandes nomes da gastronomia, moda e mercado imobiliário passaram a investir na cidade, afirma Felice Rizzotti, CEO e fundador da Rizzotti Advisors, na Sicília. “Taormina deixou de ser apenas a ‘Pérola do Jônico’, apreciada por viajantes cultos. A cidade se tornou um destino que concentra alguns dos principais impulsionadores do turismo e do mercado imobiliário de luxo”, afirma.

O grupo Four Seasons é um dos exemplos mais claros dessa transformação. O San Domenico Palace, hotel da rede, passou os últimos anos com ocupação total, após uma reforma em 2021 que adaptou um convento do século 15, adicionando uma piscina de borda infinita com vista para o mar, suítes renovadas e o SPA Botanica. O grupo Belmond também reforça o perfil sofisticado da cidade com seus dois endereços: o Grand Hotel Timeo, ao lado do Teatro Antico, e a Villa Sant’Andrea, à beira-mar na Baía de Mazzarò. O portfólio deve crescer ainda mais com a inauguração, na segunda metade de 2025, do Kimpton, hotel boutique de 59 quartos da rede IHG, cercado por jardins mediterrâneos.
A cena gastronômica de Taormina também ganhou destaque. Para uma cidade de pouco mais de 10 mil habitantes, o número de restaurantes reconhecidos pelo Guia Michelin impressiona. O St. George by Heinz Beck conquistou duas estrelas, enquanto o Otto Geleng (no Timeo), o Principe Cerami (no San Domenico Palace) e o La Capinera, de Piero D’Agostino, possuem uma estrela cada. Os menus degustação valorizam produtos locais — vinhos minerais do Etna, ervas silvestres e cítricos da Sicília.
A moda também redefiniu seu espaço na cidade. A boutique resort da Louis Vuitton e o Le Café LV indicam o interesse da marca em atender o público visitante. O spa Jardin des Rêves e o terraço-bar da Dior, no Timeo, trazem elegância parisiense ao bem-estar e ao momento do aperitivo. Já a reforma do tradicional Mocambo Bar pela Dolce & Gabbana envolve o local em uma atmosfera de glamour siciliano. Ao longo do Corso Umberto — o calçadão entre Porta Messina e Porta Catania —, lojas da Zegna e da Tom Ford transformam a rua em uma espécie de salão a céu aberto, ideal para passeios entre a praia e o entardecer.

A chegada desse estilo de vida sofisticado a Taormina não surpreende. Localizada entre penhascos íngremes que descem até o Mar Jônico e sob a sombra constante do Monte Etna, a cidade parece ter sido construída para abrigar o luxo. O que chama a atenção é a rapidez e a harmonia com que essa transformação ocorreu. As melhorias na hotelaria ampliaram o público, os restaurantes estrelados reforçaram o apelo cultural e as grandes marcas de moda completaram o cenário — tudo em cerca de uma década. Em conjunto, esses elementos atraem o mesmo público global que frequenta Nova York, Londres e Dubai.
No mercado imobiliário, o movimento é semelhante. Propriedades com vista para o mar, palacetes históricos e casas nas encostas do Etna despertaram o interesse de compradores internacionais. O estoque de imóveis de alto padrão é limitado, observa Rizzotti. O terreno íngreme e o patrimônio histórico restringem novas construções, o que eleva os preços. Imóveis de destaque são frequentemente negociados de forma privada. Compradores de alto poder aquisitivo costumam incluir Taormina em portfólios que já abrangem a Côte d’Azur ou o Lago de Como.

Além da valorização recente e da hotelaria, Rizzotti aponta dois fatores principais que impulsionam a demanda. O primeiro é o estilo de vida: a possibilidade de reunir cultura, gastronomia e litoral em um mesmo dia e a pé. O segundo é o valor histórico dos imóveis. Residências com herança e narrativa própria alcançam preços mais altos. Um dos imóveis mais caros da cidade, listado por 15 milhões de euros (R$ 94,7 milhões), pertence à família do almirante Horatio Nelson, figura histórica da Marinha Real Britânica. Conhecida como Villa Falconara, a propriedade vai além da arquitetura: em 1925, recebeu a visita do rei George V e da rainha Mary.

A principal razão que continua atraindo visitantes a Taormina, porém, permanece a mesma: a autenticidade. O Teatro Antico recebe concertos e festivais com o mar como pano de fundo. Palácios medievais conferem peso às ruas antigas. O Monte Etna — ora coberto de neve, ora envolto em cinzas — domina a paisagem e a narrativa local. Esses elementos são preservados e permanecem em uso.
Os eventos culturais mais recentes aproveitam o cenário e mantêm o patrimônio vivo no cotidiano. Essa abordagem reflete o melhor do estilo mediterrâneo: preservar a escala reduzida, priorizar a qualidade e sobrepor a hospitalidade contemporânea à história sem apagá-la.

E o que vem a seguir? “O futuro da cidade dependerá de sua capacidade de equilibrar desenvolvimento e sustentabilidade”, afirma Rizzotti. “E de preservar sua essência enquanto recebe os principais nomes do turismo, da moda e do mercado imobiliário.” Segundo ele, a expectativa é de que o interesse das marcas continue crescendo, acompanhado por uma base de proprietários mais internacional e estável.