Miami se tornou, pela primeira vez na história, uma cidade mais cara do que Nova York. Ao menos é o que diz o U.S. Bureau of Economic Analysis, uma agência do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
Os números da instituição indicam que o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) do Sul da Flórida subiu 36% desde 2019. É a maior valorização do índice entre todas as demais regiões metropolitanas dos Estados Unidos.
O relatório ainda indica que o custo total da moradia — incluindo outras despesas — na região metropolitana formada por Miami, Fort Lauderdale e Palm Beach fica 5% acima do de Nova York.
Vale lembrar que o custo do seguro residencial em Miami é substancialmente superior, custando US$ 8,3 mil ao ano, na média, considerando que é uma localidade com riscos mais altos de furacões, inundações e outros eventos climáticos.
O relatório “Wealth Report 2026” da consultoria imobiliária britânica Knight Frank considera que Miami é uma das maiores vencedoras da reorganização global da riqueza dos últimos anos.
Durante muitos anos, Miami era vista principalmente como um mercado abastecido por compradores estrangeiros em busca de casas de férias, mas, nos últimos anos, a cidade passou a atrair famílias de alta renda, executivos, empreendedores, investidores e gestores de fundos que transferem efetivamente sua base de operações para o sul da Flórida.

Esse movimento contou com marcos relevantes, com a chegada de grandes nomes do mercado financeiro e da tecnologia, como Ken Griffin, do Citadel, e Peter Thiel, cofundador do PayPal, da Palantir Technologies e do Founders Fund.
“Miami consolidou-se como o principal destino dos EUA para investimentos residenciais estrangeiros, registrando US$ 3 bilhões em vendas do segmento super-prime em 2025, além de US$ 2,4 bilhões na vizinha Palm Beach”, diz o relatório.
A Knight Frank aponta que o mercado de imóveis de luxo acompanhou essa tendência, e uma venda em South Beach ultrapassou a marca de US$ 53,8 mil (R$ 273 mil) por metro quadrado no final de 2025 — um patamar que pareceria improvável há apenas dois anos.
“South Beach voltou a avançar no segmento mais exclusivo. Hoje, cinco empreendimentos residenciais vinculados a hotéis cinco estrelas estão em desenvolvimento na extremidade sul de Miami Beach, recolocando a região no epicentro do verdadeiro ultraluxo residencial voltado ao estilo resort na América do Norte.”
O boom dos estrangeiros
O volume de estrangeiros visando investimentos imobiliários e residências para uso próprio não arrefeceu, no entanto — foi justamente o contrário.
Dados da Miami Realtors apontam que compradores internacionais responderam por 49% das vendas de imóveis novos, pré-construção e conversões de condomínio no sul da Flórida em um período de 18 meses encerrado em junho de 2025, com dados de mais de 9 mil unidades em 37 empreendimentos.
Desse total analisado, cerca de 86% dos compradores eram estrangeiros, principalmente latino-americanos, com participação dominante em regiões como Downtown Miami, Coconut Grove e West Palm Beach.
O levantamento também aponta que compradores globais movimentaram US$ 56 bilhões em imóveis já existentes nos EUA entre abril de 2024 e março de 2025, alta de mais de 30% ante o período anterior.
A Elite International Realty, imobiliária privada especializada em imóveis de luxo e novos empreendimentos no sul da Flórida, fundada em 1994, mostrou um pico de visitas nas últimas semanas.
O movimento veio na esteira da Copa do Mundo, que trouxe mais estrangeiros à região, onde algumas partidas foram disputadas.
Assim, a média de atendimentos da companhia saiu de 10 a 12 por semana para mais de 20. Esse tipo de movimento é natural, com novos moradores e investidores aproveitando grandes eventos para olhar ativos e fechar negócios.
Esse aquecimento sazonal do mercado é visto também em eventos como o GP de Fórmula 1, a Art Basel e o próprio Miami Open.
“As pessoas compram imóveis, mas investem em cidades. Para entender o potencial de um mercado é preciso vivê-lo. Os grandes eventos criam essa oportunidade porque permitem que o investidor experimente a cidade, sua infraestrutura, seu estilo de vida e seu ambiente de negócios”, afirma Daniel Ickowicz, CEO da Elite International Realty.
Quanto custa o metro quadrado em Miami
Segundo dados da Realtor, o preço do metro quadrado em Miami fica em US$ 5,4 mil, na média, ou R$ 27,6 mil no câmbio atual.
Na média, os imóveis em Miami têm sido vendidos por US$ 560 mil (R$ 2,8 milhões), em uma apreciação de 3,7% nos últimos três anos. As propriedades têm ficado 80 dias no mercado até que seja encontrado um comprador e o negócio seja fechado.
No caso do aluguel, o preço médio é de US$ 2,97 mil, representando R$ 15,1 mil no câmbio atual.

Fort Lauderdale, conhecida como a “Veneza das Américas” e a 45 quilômetros ao norte de Miami, mostra um preço mediano efetivamente pago nas vendas também de US$ 560 mil. No entanto, o preço médio anunciado é de US$ 5.027 por metro quadrado (cerca de R$ 25,6 mil por m²).
Olhando para Nova York, o preço mediano pago nas vendas de imóveis é de US$ 732 mil (aproximadamente R$ 3,73 milhões), recuo anual de 1,08%, embora permaneça 13,49% superior ao de três anos atrás.
O preço médio anunciado é de US$ 16.036 por metro quadrado (cerca de R$ 81,6 mil por m²), queda de 5,35% em 12 meses e de 4,84% em três anos.
O pano de fundo que explica a alta nos preços
Alguns pontos foram catalisadores positivos para o mercado imobiliário de Miami, e também pressionaram os preços para cima na cidade litorânea.
Na esfera pública, o governador da Flórida, Ron DeSantis, sancionou um projeto de lei que poderá reduzir o imposto sobre propriedades para os residentes que têm por lá sua residência principal, o chamado “homestead exemption”.
A medida, tomada em junho, ainda deve ser submetida à votação dos eleitores em novembro, devendo angariar pelo menos 60% dos votos para entrar em vigor.
Hoje essa isenção é de US$ 50 mil. Pela proposta, ela subiria para US$ 150 mil já em janeiro de 2027 e chegaria a US$ 250 mil em janeiro de 2028.
Por outro lado, os cofres públicos podem sofrer com a medida, que deve gerar um impacto fiscal substancial, da ordem de centenas de milhões de dólares.
A migração também afeta os preços. O U.S. Census Bureau aponta que foram cerca de 120 mil novos residentes internacionais entre julho de 2023 e julho de 2024, em um ritmo de crescimento populacional mais que o dobro da média nacional dos Estados Unidos. Isso equivale a mais de 150 pessoas chegando por dia.
Além da migração física, a migração de capital também é um driver relevante.
O volume financeiro das aquisições estrangeiras no sul da Flórida chegou a US$ 4,4 bilhões no ano passado, representando um incremento de 42% ante o ano anterior. Os dados são da Associação de Corretores de Imóveis de Miami.