Quebec sempre teve um talento peculiar para criar dinastias a partir do material mais improvável.
No final do século 19, os chamados “barões ladrões” da indústria americana — famílias como Vanderbilt, Cabot e Tiffany — subiram o rio São Lourenço até um penhasco chamado Pointe-au-Pic, na região de Charlevoix, em Quebec.
Ali, construíram um mundo de verão tão fielmente transplantado de Rhode Island que os moradores locais passaram a chamar o lugar simplesmente de Newport do Norte. A vantagem para quem se mudava para lá: nada de multidões e nenhuma pressa artificial, daquelas que definiam a cultura de Newport na época.
Um século depois, Charlevoix deu origem a uma segunda aristocracia. Essa chegou sobre pernas de pau. No início da década de 1980, um cuspidor de fogo chamado Guy Laliberté e um pequeno grupo de artistas de rua — Gilles Ste-Croix, Daniel Gauthier e Robert Blain — faziam malabarismo para turistas em Baie-Saint-Paul, a trinta minutos de carro dos jardins dos Vanderbilt, litoral acima.
Em poucos anos, o grupo, conhecido como Les Échassiers, recebeu uma subvenção do governo, o que ajudou a transformar esse projeto circense em um império multibilionário. Ao final da década, o Cirque du Soleil já fazia turnês internacionais.

Gauthier, bilionário confirmado pela Forbes, vendeu sua parte no negócio ainda cedo, comprou uma estação de esqui decadente nas proximidades e a transformou no Le Massif, um dos empreendimentos de luxo do leste do Canadá.
Hoje, Charlevoix é um lugar onde a história e a própria paisagem se tornaram parte da atração para os viajantes. Ainda assim, o dinheiro antigo e o espetáculo mais recente dividem as mesmas 90 milhas (cerca de 144 quilômetros) de margem do rio há mais de 100 anos.
Charlevoix, Quebec, Canadá: Preservando um Refúgio Artístico

A região de Charlevoix fica dentro da borda de uma cratera de meteoro com 350 milhões de anos, ao norte da Cidade de Quebec, do outro lado do rio São Lourenço. Pode ser esse o motivo de a luz do sol produzir um efeito peculiar sobre as colinas — ou, ao menos, é o que todo visitante insiste em dizer.
Em 1989, a UNESCO declarou toda a extensão como Reserva da Biosfera, uma designação que costuma manter os preços dos terrenos em patamares interessantes, sem a presença de outdoors. Seja qual for a razão, Charlevoix se distancia o suficiente das armadilhas da vida urbana para convencer qualquer tipo de riqueza de que chegou ali primeiro.
Baie-Saint-Paul, uma pequena cidade na confluência dos rios São Lourenço e Gouffre, ainda se autoproclama a localidade com mais artistas ativos per capita de todo o Canadá. Ninguém contesta essa afirmação desde a década de 1890, quando pintores começaram a chegar atraídos pela luminosidade local e, de certa forma, nunca foram embora de vez.
A história econômica da região, que começou como uma colônia de pintores com um faro incomum para o mercado imobiliário, acrescenta um charme romântico à geografia local. É uma trajetória que vale a pena lembrar agora que os anúncios da Sotheby’s na área começam a soar como os de Aspen, no Colorado.
Como Chegar

Outro elemento essencial da civilização do século 20 está visivelmente ausente em Charlevoix: um aeroporto. Os visitantes precisam chegar de carro ou de trem — o que pode ser visto como um grande inconveniente ou como o filtro mais bem guardado da região, dependendo do temperamento de cada um.
Partindo do Aeroporto Jean Lesage, na Cidade de Quebec, o trajeto de carro rumo ao nordeste dura cerca de duas horas. No caminho, a rodovia vai se estreitando até parecer mais uma sugestão do que uma via propriamente dita, até que o rio São Lourenço se alarga ao lado do viajante como um verdadeiro mar interior. O Train de Charlevoix parte da Cidade de Quebec e conta com sete paradas ao longo do percurso, sendo a última em La Malbaie.
Para uma perspectiva mais completa de Baie-Saint-Paul e da paisagem rural ao redor, um passeio de helicóptero com a Héli-Charlevoix é imperdível. O voo emocionante oferece uma vista única das colinas onduladas e do rio Gouffre.
Não existe atalho, e cada vez mais isso parece ser exatamente o objetivo. Quem estiver em busca de agilidade, eficiência e conveniência deve procurar outro destino. Charlevoix promete entregar inspiração apenas no seu próprio ritmo, não no do visitante. É por isso que artistas — e um certo tipo de viajante — sempre voltam.
Uma Fazenda do Século 19 Renasce Como Hotel de Design

Vale a pena parar e se hospedar no Le Germain Charlevoix, hotel erguido sobre uma antiga fazenda do século 19. A propriedade foi reinventada com um tipo de sobriedade que custa mais caro do que o excesso: os antigos celeiros agora são quartos com janelas do piso ao teto, os campos, pontilhados por vacas da raça Highland, são geridos com cuidado em vez de simplesmente aparados, e hortas orgânicas e colmeias em atividade convivem lado a lado com hóspedes curiosos vindos da cidade.
A rede Le Germain conta com nove hotéis espalhados pelo Canadá, cada um com sua própria interpretação da estética minimalista escandinava. A unidade de Baie-Saint-Paul tem um acabamento mais acolhedor do que se esperaria de uma propriedade semelhante em, digamos, Copenhague. Em um gesto fiel ao Velho Mundo, o Train de Charlevoix deixa os passageiros a poucos passos da entrada do hotel — ainda que apenas em determinadas épocas do ano.
O jantar no Bistrô Le Mouton Noir, restaurante do hotel, trata os ingredientes locais com a reverência que se espera de uma propriedade que reúne tanto uma fazenda quanto uma cozinha refinada. O Spa Nordique Le Germain, dentro do próprio hotel, conta com sauna finlandesa, banho a vapor de eucalipto, piscinas externas quentes e frias e até uma fonte de neve. Em 2025, o empreendimento recebeu a chave Michelin.
Onde Sabores Atemporais São Preservados

Na Famille Migneron de Charlevoix, as degustações de vinho e queijo se desenrolam como uma pequena aula de história comestível. Como bônus, o vinhedo e a queijaria da família destilam o soro do leite, subproduto da fabricação dos queijos, transformando-o em uma bebida destilada deliciosa.
Um pouco mais adiante, o Museu de Arte Contemporânea de Baie-Saint-Paul lembra aos visitantes que não foi por acaso que a cidade deu origem ao Cirque du Soleil: o que quer que inspire tantos artistas por ali continua vivo. Na Rue Saint-Jean-Baptiste, a espinha dorsal de galerias e lojas da cidade, um pequeno café chamado Arômes et Saveurs serve um cardápio de almoço viciante e um café preparado com a reverência ao processo que se esperaria do lugar.
Atravesse uma fresta estreita na parede e entre na Arômes et Saveurs, uma confeitaria com ares de Willy Wonka, administrada pela mesma família há gerações. Seu telefone de disco — de forma genuína e improvável — continua fiado e funcionando desde aproximadamente o século 19. Se existe algum lugar no mundo onde alguém pode sair de casa intencionalmente sem o celular, é ali. Faz todo o sentido, nesse contexto, procurar doces, sorvetes e, quando necessário, fazer uma ligação — e esse telefone é o que você vai usar. É o tipo de detalhe que traduz o conceito de tempo da região melhor do que qualquer placa da UNESCO.
Outras experiências gastronômicas estão espalhadas entre as galerias de arte de Baie-Saint-Paul. A Hydromel Charlevoix, uma pequena hidromelaria, dá um toque contemporâneo a uma bebida ancestral. Já a cervejaria Le Saint-Pub oferece o contraponto necessário a tanta alta gastronomia: uma boa cerveja, livre de qualquer pretensão. A vida na Europa renascentista certamente não se resumia a arte e álcool, mas é divertido imaginar que sim, ao menos por uma tarde.
Atividades ao Ar Livre em La Malbaie

A partir de Baie-Saint-Paul, é possível explorar o restante da região seguindo para leste pela St. Lawrence Route, uma estrada costeira que serpenteia e sobe acima do vale.
Todas as estradas acabam levando ao Fairmont Le Manoir Richelieu, um hotel de luxo encravado nos penhascos de Pointe-au-Pic. Adornado com toda a pompa de um castelo, como um solar francês transplantado para um penhasco canadense, o hotel data de 1899.
A propriedade original foi construída por uma companhia de navios a vapor, na esperança de atrair os viajantes vitorianos para fora de seus barcos. O edifício pegou fogo em 1928 e foi reconstruído no ano seguinte, mantendo o estilo grandioso que exibe até hoje.
O campo de golfe, inaugurado em 1925 pelo ex-presidente americano William Howard Taft, oferece vistas para o rio que o tornam um dos fairways mais fotografados do Canadá (funciona de maio a outubro).
O golfe pode até ter ajudado o hotel a sediar a Cúpula do G7 em 2018, e alimenta a persistente lenda local de que Winston Churchill e Franklin Roosevelt teriam se hospedado ali (na realidade, suas Conferências de Quebec, realizadas durante a guerra, aconteceram no Château Frontenac, na cidade).
Um tratamento no Moment Spa e um jantar no Le Saint-Laurent — com o rio fazendo a maior parte do trabalho cênico — ajudam a explicar por que tantas pessoas encontraram motivos para se estabelecer nesse penhasco por mais de um século. Há também a peculiaridade de um cassino bem à vista, a poucos passos da entrada do hotel, para lembrar que o luxo discreto de Quebec é, felizmente, cheio de idiossincrasias.
Parte da história da região acaba, literalmente, projetada no penhasco. O Cité-Mémoire Charlevoix, uma experiência multimídia gratuita e ao ar livre, transforma a história local em uma espécie de paisagem onírica e cinematográfica. No setor de Pointe-au-Pic, em La Malbaie, projeções dão vida a personagens, histórias e paisagens históricas sobre fachadas de prédios, formações rochosas e outras superfícies, enquanto um aplicativo complementar fornece as vozes e narrativas por trás do que se vê.
Abrace o Próprio Ritmo

Quem chega a Charlevoix com uma lista de atividades lotada e nenhum tempo livre está fazendo tudo errado. Nenhuma viagem à região está completa sem a liberdade de explorar o interior com o celular no silencioso e o relógio guardado na mala.
A ocupação permanente começou por volta de 1675, e a região se desenvolveu em relativo isolamento geográfico. O fato de Charlevoix ter preservado sua coerência cultural até hoje é ainda mais especial do que os detalhes isolados — a nostalgia pelas casas de veraneio da Gilded Age, o folclore em torno dos fundadores do circo, o vinho, o queijo e a arte. Juntos, esses elementos evocam a imagem clássica de um charme pastoral europeu, exportado diretamente de uma época anterior para as margens do rio São Lourenço. É difícil colocar um preço exato nessa experiência, mas não surpreende que quem a valoriza esteja disposto a pagar caro por ela.
Paul Desmarais Sr., patriarca da Power Corporation, manteve uma propriedade na região até sua morte, em 2013. Outro bilionário local, Laliberté, investiu 10 milhões de dólares canadenses (cerca de R$ 51,8 milhões) por uma participação de 10% no empreendimento Le Massif, de Gauthier — dois nativos de Charlevoix que continuam investindo na região que impulsionou suas carreiras. O fato de um lugar que abriga vários bilionários também ser um destino de férias fantástico é um dos segredos mais bem guardados do Canadá.
“Os Taft frequentaram Murray Bay por cem anos, e ninguém fez marketing disso”, afirmou Jeremy Savory, fundador da Millionaire Migrant. “Já Aspen, os Hamptons, Como… foram descobertos, depois ficaram caros, depois lotados, e então todo mundo que buscava sossego foi atrás do próximo lugar tranquilo. Charlevoix simplesmente pulou essa etapa.”
Percorrer um caminho tão distante para escapar de um mundo moderno e acelerado não é para todos — e esse é justamente o ponto. A filosofia “da fazenda para a suíte” do Le Germain e o século de grandiosidade ininterrupta do Manoir são duas apostas diferentes na mesma ideia: a de que a autenticidade, quando cultivada com o devido cuidado, se transforma em sua própria forma de luxo.
Reportagem publicada originalmente em Forbes.com