Os custos de energia das residências em todo os Estados Unidos estão subindo mais rapidamente do que a inflação, sem sinais de desaceleração.
O Pew Research Center informa que mais de 75% das famílias afirmam que os custos de energia de suas casas aumentaram nos últimos anos, incluindo 42% que dizem que essas despesas subiram muito.
Um dos fatores que pressionam o consumo de energia residencial é o uso por data centers.
A Energy Information Administration (EIA) divulgou recentemente projeções segundo as quais a demanda por eletricidade deve atingir o recorde de 4.268 bilhões de kWh em 2026 e 4.391 bilhões de kWh em 2027, com o consumo residencial respondendo por mais de um quarto desse total.
E as residências continuarão demandando cada vez mais energia à medida que suas operações deixarem de utilizar combustíveis fósseis e a internet das coisas se expandir dentro dos lares.
As crescentes necessidades energéticas dos EUA dependem de uma rede elétrica que enfrenta problemas, ao mesmo tempo em que o governo federal está retirando o apoio a programas de energia verde que ajudariam a sustentá-la e prolongar sua vida útil.
Em março de 2025, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) encerrou aproximadamente US$ 20 bilhões em subsídios do Greenhouse Gas Reduction Fund, que desde então têm sido alvo de disputas judiciais.
Enquanto os custos aumentam, empresas inovadoras trabalham para ampliar soluções capazes de reduzir parte da pressão e das despesas relacionadas à energia. Mas também há desafios nesse processo.
Levar inovação a uma escala maior no setor habitacional, altamente regulado e avesso a riscos, que também enfrenta uma pressão crescente sobre os custos, é, no mínimo, difícil. Algumas organizações estão desenvolvendo programas para facilitar esse processo.
A inovação chega à habitação e às demandas de energia
O capítulo californiano do U.S. Green Building Council (USGBC) vem, há oito anos, promovendo tecnologias inovadoras para o ambiente construído por meio de seu programa Net Zero Accelerator, que ajuda startups em estágio de crescimento a comercializar suas soluções.
A organização anunciou recentemente sua oitava turma de startups, que receberá orientação sobre políticas e conexões com os consultores e parceiros adequados para acelerar a adoção de suas tecnologias. As empresas selecionadas estão prontas para colocar soluções práticas em projetos-piloto e obter experiência em situações reais.
O programa foi criado com a compreensão de que as políticas públicas muitas vezes avançam mais rapidamente do que as tecnologias chegam aos construtores que precisam delas. Profissionais do setor relatam com frequência que não conseguem acessar as soluções adequadas, não encontram alternativas acessíveis ou sequer sabem que determinadas soluções existem.
O USGBC California pretende dar visibilidade a essas tecnologias por meio do programa, tornando-as conhecidas e conectando-as às pessoas certas no momento adequado.
“Nosso objetivo com este programa é conectar esses inovadores de alto impacto a proprietários, gestores, incorporadores, projetistas e construtores que estão prontos para provar que o net zero não é apenas uma meta de sustentabilidade, mas uma realidade escalável e padrão para o setor”, disse Ben Stapleton, CEO do USGBC California, em comunicado à imprensa.
Em um momento em que a construção residencial precisa de um impulso de inovação, especialmente para reduzir os custos de aquisição e operação de uma casa para os proprietários, essas soluções trazem perspectivas positivas. Mas colocá-las de forma consolidada no mercado também envolve muitos desafios.
Os desafios para escalar a inovação na habitação
Embora não tenha foco em energia, mas em outro serviço essencial, a água, a startup WaterLeaf fez parte do programa Net Zero Accelerator. A empresa coleta e trata águas cinzas provenientes de máquinas de lavar, pias, banheiras e chuveiros.
Depois, o líquido é desinfetado com luz ultravioleta para que possa ser reutilizado em atividades que não exigem água potável, como descarga de vasos sanitários e irrigação. Até o momento, a WaterLeaf economizou mais de 270 mil galões de água e US$ 8 mil em custos com água ao longo de 10 anos por sistema.
“O acelerador nos deu muita visibilidade e oportunidades para criar novos relacionamentos, além de nos apresentar a muitas pessoas para que pudéssemos entender o ecossistema regulatório importante para levar uma tecnologia de tratamento de água ao mercado”, disse o fundador e CEO da empresa, Adam DeHeer.
“Éramos uma empresa em estágio muito inicial, com um produto novo, então tivemos oportunidades que não conseguimos fechar porque não tínhamos histórico de atuação.”
Esse é um dos vários fatores que impedem o avanço da inovação no setor habitacional. Embora alguns construtores possam assumir o risco de testar um novo produto, raramente fazem isso em grande escala — justamente a escala necessária para alcançar a paridade de custos e promover mudanças em todo o setor.
“Existem obstáculos estruturais e sistêmicos nas políticas e na economia”, disse DeHeer.
“Não se trata de apenas um desafio. Seguimos pelo caminho de trabalhar com grandes construtoras e com construtoras WaterSense, mas elas ficaram desiludidas depois de utilizar tecnologias que eram certificadas, mas não funcionaram em campo. Também nos deparamos com conflitos de interesse na adoção de tecnologias, devido aos interesses envolvidos.”
Assim, em vez de ser valorizada e adotada, como acontece com celulares e computadores, a inovação é vista como um risco e acaba sendo retardada.
A WaterLeaf decidiu entrar no mercado construindo relacionamentos com construtoras orientadas por valores e com proprietários de imóveis, com o objetivo de crescer organicamente em um nicho de mercado.
“A água é algo que não recebe muita atenção, mas será um dos principais obstáculos para o desenvolvimento de novas moradias”, acrescentou.
“À medida que isso se tornar uma questão política e de desenvolvimento e houver disputas pelo recurso entre data centers de IA e empreendimentos suburbanos, haverá um caminho mais rápido para a adoção, pavimentado por políticas públicas.”
Da água à eficiência energética, os desafios são os mesmos.
Inovação habitacional para uma energia mais acessível
O Net Zero Accelerator já recebeu diversas empresas que podem ajudar a solucionar os desafios energéticos do setor habitacional.
“Um projeto-piloto aqui não serve para descobrir se algo funciona”, disse Colin Mangham, diretor de experiência do USGBC California, que lidera o Net Zero Accelerator desde 2020. “Essas tecnologias já funcionam. O piloto comprova que o sucesso pode ser replicado. Os fundadores gostam de criar soluções para provocar disrupção no mercado, mas as pessoas que compram essas soluções querem um resultado previsível em que possam confiar.”
Em sete anos, o Net Zero Accelerator apoiou mais de 120 startups, várias delas agora focadas em crescer e ganhar escala para atender à demanda energética residencial e mudar a equação dos custos mais baixos de energia.
Um exemplo são as bombas de calor, que se tornaram mais populares para a operação ambientalmente sustentável das residências. A tecnologia também vem evoluindo a ponto de apresentar desempenho equivalente ao dos métodos tradicionais de aquecimento e refrigeração em todos os tipos de clima. Uma pesquisa recente da Green Builder Media COGNITION Smart Data mostrou que 45,1% dos construtores entrevistados perceberam um aumento no interesse dos proprietários por bombas de calor, que ficaram em quarto lugar em uma lista de oito características residenciais.
Uma das empresas formadas pelo Net Zero Accelerator, a Gradient Comfort, produz bombas de calor para janelas certificadas pela ENERGY STAR, capazes de aquecer e resfriar um ambiente simplesmente conectadas a uma tomada convencional de 120 volts. As bombas de calor não exigem dutos, alterações na fiação ou atualizações no quadro elétrico. A tecnologia é utilizada na modernização de casas e grandes edifícios multifamiliares de maneira simples e eficiente, reduzindo a pegada ambiental das construções.
Outra empresa do programa que atua com bombas de calor é a Harvest Thermal, que oferece um sistema integrado de bomba de calor e água quente baseado em uma bateria térmica conectada à nuvem, capaz de armazenar calor e transferir o consumo de energia para horários fora do pico. O sistema substitui uma fornalha a gás e um aquecedor de água por uma única unidade totalmente elétrica, reduzindo as emissões em até 90% e as contas de serviços públicos em 40% em comparação com o gás.
A cofundadora da empresa, Jane Melia, havia participado de várias startups antes de criar a Harvest e, por isso, trouxe experiência para enfrentar os desafios desse tipo de negócio. Agora, com quase 1.000 clientes, a empresa ajuda a deslocar a carga de energia para tornar a rede elétrica mais limpa e eficiente.
Uma startup tem necessidades diferentes em cada estágio de seu desenvolvimento, começando pelo financiamento, que funciona como oxigênio para permitir seu crescimento. Melia escolheu o capital de risco porque era o modelo com o qual estava familiarizada, o que permitiu à empresa obter certificação e chegar ao mercado há três anos. Para entrar no mercado, foram necessárias várias etapas, incluindo a decisão estratégica de vender por meio de instaladores, em vez de incorporar a instalação à própria empresa. Melia disse que elas não queriam ser uma empresa de tecnologia e, ao mesmo tempo, uma empresa de instalação, o que permitiria escalar o negócio.
A Harvest então precisou treinar os prestadores de serviço. A empresa também faz marketing diretamente para proprietários de imóveis, encaminhando-os a profissionais qualificados que recebem um lead mais fácil de converter em venda. Existem maneiras mais simples de escalar, mas muitas delas acabam sendo becos sem saída.
“O conceito de trabalhar com grandes construtoras é interessante, mas, na prática, é muito difícil conseguir entrar e elas levam muito tempo para avaliar uma nova tecnologia”, disse Melia. “Já instalamos o sistema em 500 casas, então o risco para elas é menor. Muitas estão buscando o HVAC mais barato, focando nos custos para obter a alternativa de menor preço possível. Além disso, concentram recursos em cozinhas, banheiros e nos itens que atraem os compradores.”
Esse não é o único desafio. Em meio aos cortes promovidos pelo governo federal, a Harvest ganhou um subsídio de US$ 2 milhões do Departamento de Energia dos Estados Unidos que ainda não recebeu.
O governo federal também poderia ajudar a aumentar o interesse e o incentivo dos compradores oferecendo descontos e incentivos, mas a Harvest não quer depender desses benefícios caso eles não sejam sustentáveis. Melia também percebeu uma tendência de investidores de venture capital se afastando do setor de tecnologia climática, ou climatetech, porque as políticas atuais não são favoráveis ao segmento e os subsídios foram retirados. Ainda assim, ela acredita que a empresa está avançando.
“Estamos transferindo dois terços do aquecimento da casa para o horário adequado e reduzindo o uso de gás metano”, afirmou.
Outra startup que passou pelo acelerador foi a Moduly, que desenvolve um sistema de bateria residencial plug-and-play para armazenar e distribuir energia conforme necessário e equilibrar os picos e as oscilações da rede. A bateria pode ser instalada pelo próprio proprietário ou em uma casa nova, bastando conectá-la a uma tomada convencional, sem a necessidade de um eletricista. Uma bateria pode armazenar 2.500 Wh, o suficiente para manter uma geladeira funcionando por um dia, e um sistema de até cinco baterias pode ser instalado em conjunto.
A Moduly também pode conectar o excedente de energia entre residências, funcionando como uma usina virtual e ajudando novamente a equilibrar a demanda atual por energia e os preços crescentes.
Soluções de energia residencial baseadas na nuvem
Além das soluções de hardware, existem tecnologias de software que estão promovendo mudanças no consumo de energia. A YellowTin é uma plataforma de software white-label que concessionárias de serviços públicos, empregadores e instituições de crédito utilizam para ajudar usuários a planejar a eletrificação de suas casas.
O software permite que os proprietários criem recomendações personalizadas sobre energia solar, veículos elétricos, bombas de calor e cooktops de indução com base em sua localização. A plataforma também pode ajudar o usuário a elaborar um orçamento para tornar as melhorias viáveis.
Depois de participar do programa Net Zero Accelerator, a YellowTin passou a ter mais de 8 mil usuários e realizou parcerias de eletrificação com a Sonoma Clean Power.
Outra solução de software é a QuitCarbon, um serviço online que permite aos proprietários planejar gratuitamente a eletrificação de toda a casa e se conectar a um prestador de serviços. Os proprietários recebem um plano personalizado que inclui bombas de calor, aquecedores de água, equipamentos de cozinha por indução, atualizações do quadro elétrico, isolamento térmico e carregadores para veículos elétricos. O plano também inclui um consultor dedicado da QuitCarbon e a indicação de um prestador de serviços cuja proposta é avaliada segundo critérios de equilíbrio e justiça nos preços para o proprietário.
Essas startups estão conquistando novos usuários, o que é positivo, mas o financiamento está se tornando mais competitivo no mundo da inteligência artificial.
Mais desafios para a inovação no setor habitacional
DeHeer afirmou que os desafios para captar recursos estão apenas aumentando.
“Desde que a IA tomou conta do mundo das startups, não consigo chegar aos valores que a inteligência artificial alcança nos níveis estratosféricos”, acrescentou. “Meu TAM [mercado total endereçável] não é de US$ 7 trilhões. Existem questões fundamentais relacionadas ao que valorizamos, à forma como atribuímos valor, às políticas e à economia. A menos que uma dessas coisas mude o suficiente para impulsionar as demais, não teremos uma adoção rápida da reutilização de água em escala distribuída.”
Algumas dessas tecnologias são difíceis de adotar para um construtor porque ele não é quem recebe diretamente o benefício. O proprietário terá ganhos ao longo de toda a vida útil do imóvel com sistemas mais eficientes de energia e água, mas o construtor não captura esse lucro.
DeHeer imagina um futuro em que existam mercados de água semelhantes ao crescente mercado de carbono, permitindo receber pagamentos por créditos de redução do consumo de água provenientes de algum tipo de fundo maior. Isso representaria um pagamento imediato pelo valor que seria gerado ao longo da vida útil para o usuário final. Mas soluções que agregam valor durante toda a vida útil do imóvel têm um custo inicial elevado, criando barreiras à adoção.
Todos esses fatores atuam contra a inovação no setor habitacional.
O futuro energético das residências
Grandes corporações também estão utilizando seus recursos e escala para oferecer soluções para as crescentes necessidades energéticas das residências. A Schneider Electric está analisando como apoiar todo o ecossistema e onde tecnologia e inovação podem aumentar a eficiência no atual paradigma energético. Essas grandes empresas têm recursos financeiros e canais de distribuição para ampliar a penetração dessas soluções no mercado.
O programa Net Zero Accelerator representa um importante impulso para essas startups, que precisam competir com grandes organizações globais. No entanto, os obstáculos continuam existindo.
Novos processos são bem-vindos enquanto os proprietários sentem a pressão do aumento dos custos de ter e manter uma casa. Essas inovações promoverão as mudanças necessárias para reduzir as despesas recorrentes com energia e melhorar o conforto diante dos riscos climáticos cada vez maiores.
Matéria publicada originalmente em Forbes.com