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Bilionário dos Data Centers Afirma Que Não Há Bolha de IA

Fundador da Clayco tem 77 data centers em desenvolvimento e aposta que a demanda por infraestrutura de IA continuará superando a capacidade do setor

19 min

Em uma manhã ensolarada de agosto, Bob Clark visita o novo Obama Presidential Center, no Jackson Park, zona sul de Chicago. Fundador da gigante da construção Clayco, ele ajudou a erguer o complexo, avaliado em US$ 850 milhões (R$ 4,23 bilhões).

Clark faz uma rápida inspeção no “Obamalisk”. É assim que chama, carinhosamente, a torre central de oito andares, feita de granito, vidro e concreto. Depois, cumprimenta Valerie Jarrett, ex-assessora sênior da Casa Branca e atual CEO da Obama Foundation. A visita é rápida. Clark entra no banco traseiro de um Escalade branco e segue pela Lake Shore Drive. O destino é outro de seus projetos, que pode ter uma importância ainda maior para Chicago e para o mundo.

Às margens do Lago Michigan, o “Quantum Shore” ocupa uma área onde funcionava uma fábrica da U.S. Steel. Quando for inaugurado, no fim de 2027, será um dos maiores campi de computação quântica dos Estados Unidos.

Entre os ocupantes estarão a IBM e a PsiQuantum, empresa de Palo Alto, na Califórnia. A companhia pretende construir no local um computador quântico de 1 milhão de qubits.

Uma máquina desse porte teria uma capacidade difícil de imaginar. Poderia quebrar os tipos tradicionais de criptografia que protegem grande parte dos computadores — e das contas bancárias — do mundo. No futuro, também poderia acelerar o aprendizado de sistemas de inteligência artificial. Isso ocorreria por meio da redução do tempo de treinamento de determinadas arquiteturas complexas de aprendizagem profunda.

O Quantum Shore é um empreendimento complexo — e caro. A primeira fase está sendo desenvolvida pela CRG, subsidiária imobiliária de Clark, em parceria com o escritório do Meio-Oeste da gigante imobiliária Related Companies. O projeto custará US$ 12 bilhões (R$ 59,76 bilhões). Desse total, US$ 500 milhões (R$ 2,49 bilhões) serão aportados pelo estado de Illinois.

Os bits quânticos, conhecidos como “qubits”, são extremamente sensíveis às condições ambientais. Por isso, a estrutura terá uma instalação criogênica. Ela fornecerá hélio e nitrogênio líquidos super-resfriados aos computadores. “A única maneira de estabilizar o chip é mantê-lo mais frio do que o espaço sideral”, diz Clark, enquanto guindastes de 550 toneladas passam pelo local.

A complexidade da obra impressiona até mesmo o empresário. Ele se lembra de quando o CEO da PsiQuantum lhe disse que projetaria um edifício que iria “mudar tudo”.

Bob Clark aposta que o boom dos data centers está longe do fim

O negócio

Clark, de 67 anos, parece adequado para comandar um projeto dessa dimensão. Ele constrói data centers desde a década de 1980. Somente no ano passado, concluiu 16. Outros 77 estão em andamento em 13 estados americanos. Os centros de dados devem responder por 75% da receita de quase US$ 12 bilhões (R$ 59,76 bilhões) da Clayco em 2026.

A expansão do segmento deve ajudar a companhia a elevar o faturamento em 43% na comparação com 2025. “Trabalho no setor de data centers durante a maior parte da minha carreira, mas nunca teria imaginado o que está acontecendo hoje”, afirma.

Quando Clark começou, há quatro décadas, um data center era algo bem mais simples. Eram apenas algumas salas de computadores instaladas nos fundos de um banco. Hoje, o cenário mudou. Sediada em Chicago, a Clayco ergue estruturas que equivalem a cidades autossuficientes de bilhões de dólares. Elas praticamente não têm presença humana e podem abrigar 100 mil ou mais das GPUs mais avançadas do mundo. Entre os clientes estão Amazon, Microsoft e Oracle.

Para construir esses complexos com eficiência e em grande escala, a Clayco controla suas próprias empresas de arquitetura, concreto, compras e logística. É uma máquina criada para alimentar as máquinas insaciáveis da inteligência artificial.

Corrida dos data centers

Os gastos dos Estados Unidos com a construção de data centers mais do que triplicaram desde 2023. Neste ano, devem chegar a US$ 75 bilhões (R$ 373,5 bilhões), segundo dados do Census Bureau. O montante nem sequer inclui a compra dos computadores. Esses equipamentos podem representar 40% do custo total de um projeto.

Jeff Blau é CEO da Related e parceiro de Clark no Quantum Shore. Os dois também trabalham em um data center de US$ 1,2 bilhão (R$ 5,98 bilhões) para a CoreWeave, em Cheyenne, no Wyoming. Segundo Blau, a forte demanda por centros de dados, somada aos juros elevados, tirou espaço de muitos outros grandes projetos de construção.

“Isso não tem precedentes. Nunca tivemos algo com uma demanda tão forte e, ao mesmo tempo, em uma escala tão grande”, afirma. A Related Digital, comandada por Blau, tem US$ 55 bilhões (R$ 273,9 bilhões) em projetos de data centers em desenvolvimento. Para as construtoras, é uma ótima notícia.

Quase 1.300 data centers já estão em funcionamento nos Estados Unidos. Essas colmeias de concreto e aço consomem aproximadamente 70 milhões de galões de água por dia. Também precisam de um fornecimento constante de 62 gigawatts de energia. Para efeito de comparação, a cidade de Nova York utiliza, em média, seis gigawatts.

E a expansão está longe de terminar. Outros 2.142 centros estão planejados ou em construção, segundo a empresa de inteligência em infraestrutura Cleanview.

Sem medo de uma bolha

O boom da IA também tornou Clark muito mais rico. Seu patrimônio líquido quadruplicou nos últimos três anos e chegou a US$ 7 bilhões (R$ 34,86 bilhões). A fortuna garantiu ao empresário uma estreia na lista Forbes 400 deste ano. Ele aparece na 245ª posição.

Mas a expansão dos data centers também trouxe outro efeito: uma oposição cada vez maior. Uma pesquisa recente do Annenberg Public Policy Center mostrou que 61% dos americanos são contrários à construção dessas instalações em suas comunidades. Quatro meses antes, eram 49%.

Segundo o Data Center Watch, projetos avaliados em US$ 18 bilhões (R$ 89,64 bilhões) foram bloqueados. Outros US$ 46 bilhões (R$ 229,08 bilhões) em construções sofreram atrasos. Clark não se intimida com a reação. Prefere manter o foco nos resultados. “Não vemos nenhum sinal de alerta no horizonte”, afirma.

Para ele, o momento atual não se compara à bolha das empresas pontocom de 2000, alimentada por euforia e expectativas exageradas. Hoje, os hyperscalers estão entre as empresas mais capitalizadas do mundo. “Não estou preocupado se eles vão pagar a minha conta.”

Clayco tem 77 data centers em desenvolvimento em 13 estados americanos

Como tudo começou?

A paixão de Clark pela construção começou ainda na quarta série. Na época, a Ozark Airlines erguia uma nova sede ao lado de sua escola primária, em St. Louis. Clark tinha “déficit de atenção”, como ele próprio descreve. Em sala de aula, ficava obcecado observando a construção pela janela.

Seu pai havia estudado apenas até a sétima série. Ainda assim, transformou muita “capacidade intuitiva” em uma empresa própria de pintura. Ele incentivava o interesse do filho e pedia atualizações diárias sobre o andamento da obra.

Clark logo começou a ganhar dinheiro por conta própria. Lavava carros, impermeabilizava entradas de garagem e dirigia um limpa-neve. Aos 13 anos, perdeu o olho direito em um acidente com uma arma de chumbinho. Nem isso o desacelerou. Ele tinha facilidade para realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Permanecer concentrado em uma única atividade, porém, era mais difícil.

Clark abandonou a faculdade apenas cinco semanas depois de começar. Ele não revela qual instituição frequentou. Depois, utilizou US$ 63 mil (R$ 313,74 mil) do seguro recebido pela perda do olho para comprar 37% de uma pequena empresa de St. Louis chamada Machine Maintenance & Equipment. O valor equivaleria hoje a US$ 300 mil (R$ 1,49 milhão).

Durante alguns anos, vendeu equipamentos de perfuração da Ingersoll-Rand para exploradores independentes de petróleo em Oklahoma e Arkansas. Em 1983, aos 23 anos, vendeu sua participação aos sócios por US$ 1 milhão (R$ 4,98 milhões). Corrigido pela inflação, o montante equivale a US$ 3 milhões (R$ 14,94 milhões).

Com o dinheiro, fundou a Clayco. A companhia manteve sua sede em St. Louis durante os primeiros 29 anos. Sua primeira grande oportunidade surgiu após um pequeno serviço de construção de interiores para o Mercantile Bank, no centro da cidade. O CEO da instituição, Donald Lasater, gostou do trabalho. Por isso, escolheu Clark, então com 27 anos, para construir 15 agências bancárias com atendimento drive-through.

O primeiro trabalho de Clark em um data center “primitivo” veio em 1986. A instalação tinha pisos elevados e uma grande quantidade de cabos conectando enormes conjuntos de computadores. A oportunidade surgiu depois de serviços de acabamento interno realizados para o Farm Credit Banks of St. Louis. “Eu estava no lugar certo, na hora certa. Eles não deveriam ter me dado aquele trabalho.”

Depois veio um data center para o Citigroup. Em seguida, uma série de contratos para escritórios, estádios e hospitais. Logo após fundar a Clayco, Clark e sua mulher, Ellen, acolheram um de seus “trabalhadores”. Era Todd Weaver, um menino de 12 anos que apareceu em um canteiro de obras procurando emprego de meio período. No início, Clark pagava Weaver para recolher lixo e arrancar ervas daninhas.

A mãe do garoto tinha câncer e diabetes e não conseguia sustentar o filho. Alguns anos depois, Clark providenciou para que Weaver fosse morar com ele, Ellen e seus filhos biológicos pequenos. Um deles hoje administra a CRG. Weaver tem atualmente sua própria empresa, que também constrói data centers. Ele chegou a fazer negócios em parceria com seu mentor.

Em 2002, Clark lhe emprestou US$ 150 mil (R$ 747 mil) para abrir a companhia. “Ele era pior do que um maldito banco”, brinca Weaver, hoje com 55 anos. Ele se lembra de Clark cobrando atualizações sobre o negócio em todos os jantares de domingo. “Paguei todo o dinheiro de volta em seis meses.”

Na virada do milênio, Clark já tinha um fluxo constante de contratos para construir sedes corporativas. Também ergueu o novo Busch Stadium, casa do St. Louis Cardinals, inaugurado em 2006. Seu maior cliente na época era a Procter & Gamble. Em 2007, a companhia o alertou sobre uma retração dos investimentos de capital e suas possíveis consequências econômicas.

“Talvez tenha sido o melhor conselho que já recebi nos negócios”, afirma Clark. Ele agiu rapidamente. Reestruturou US$ 700 milhões (R$ 3,49 bilhões) em dívidas com garantia pessoal junto a duas dezenas de bancos.

Também reduziu despesas na empresa. Cortou os salários em 20% de forma generalizada e suspendeu temporariamente bônus e as contribuições equivalentes da companhia aos planos de aposentadoria 401(k). Quando o Lehman Brothers quebrou, em setembro de 2008, “já estávamos virando o jogo”. Os funcionários permaneceram na companhia apesar dos cortes temporários.

A virada de Clark

Hoje, os principais executivos da Clayco possuem 40% da empresa. A participação é avaliada em US$ 4,4 bilhões (R$ 21,91 bilhões). Nos bastidores, porém, Clark enfrentava um problema muito maior.

Em 2005, Ellen foi diagnosticada com vasculopatia cerebroretiniana. A doença provoca a deterioração de pequenos vasos sanguíneos e pode causar acidentes vasculares cerebrais. Em 2009, o casal estava no Salão Oval quando o presidente Barack Obama assinou uma ordem executiva que encerrou a proibição federal às pesquisas com células-tronco embrionárias.

Essas pesquisas poderiam ajudar na busca por uma cura antes que a doença congênita eventualmente afetasse os filhos do casal. Até hoje, não existe tratamento capaz de curá-la. Ellen morreu em 2010, aos 50 anos.

Profundamente abalado, Clark viajou pela Ásia. Passou por países como Japão e Índia. Em território indiano, visitou Varanasi, às margens do rio Ganges, uma das capitais espirituais do país. Ele voltou renovado. Recuperou aquilo que descreve como seu superpoder de “sempre saber que sou a pessoa mais feliz da sala”. Também retornou determinado a expandir os negócios como nunca.

Clark transferiu a sede da Clayco para o centro de Chicago. Em 2015, casou-se com uma dentista. O presidente Obama também o escolheu para ajudar na busca por terrenos, selecionar arquitetos e supervisionar as obras de sua futura biblioteca presidencial.

“Sempre que os Obama tinham algum problema relacionado à construção, ligavam para Bob”, afirma Penny Pritzker, ex-secretária de Comércio dos Estados Unidos e herdeira bilionária da Hyatt Hotels.

“Ele garantia que tudo fosse feito corretamente.” As conexões em Chicago e o selo de aprovação de Obama ajudaram a Clayco a conquistar grandes projetos. Entre eles estão o novo terminal do Aeroporto O’Hare, iniciado em 2019, e o Lurie Children’s Hospital, nos arredores da cidade, ainda em fase de planejamento.

Outro é o Quantum Shore. O empreendimento ganhou impulso adicional ao ser classificado como uma “zona de oportunidade qualificada”.

Pelas regras do Tax Cuts and Jobs Act de 2017, investidores do projeto quântico podem transferir ganhos de capital existentes para o novo empreendimento com uma base de custo reajustada. Também podem ficar livres de impostos sobre novos ganhos de capital se mantiverem os investimentos durante dez anos. “Você tem estados competindo com outros estados”, afirma Clark.

“Então, para entrar no jogo, é preciso realmente saber usar todas as flechas disponíveis na aljava.” Clark construiu seu primeiro data center hyperscale para a Microsoft em 2016. “O que não sabíamos naquela época é que ainda nem estávamos na primeira entrada do jogo”, afirma.

O patrimônio de Clark quadruplicou em três anos e chegou a US$ 7 bilhões

Limites do crescimento?

Há uma década, um grande data center nos Estados Unidos tinha capacidade de 50 megawatts. O setor consumia 5,5 bilhões de galões de água. Hoje, os novos centros utilizam muito menos água para realizar a mesma quantidade de processamento. O problema é que existem muito mais instalações.

Até 2028, o consumo de água dos data centers hyperscale provavelmente ultrapassará 16 bilhões de galões por ano, segundo relatório do Lawrence Berkeley Lab. Entre os maiores projetos da Clayco está o Project Rainier, da Amazon Web Services. O empreendimento de US$ 13 bilhões (R$ 64,74 bilhões) e 2,2 gigawatts fica perto de South Bend, em Indiana.

A Clayco e outras quatro empreiteiras são responsáveis pela preparação do terreno. O trabalho envolve limpeza, nivelamento e pavimentação. As empresas também instalam as lajes de concreto e os sistemas elétricos e de água. Além disso, colocam os tubos que protegem os delicados cabos de fibra óptica.

Clark continua aperfeiçoando seus métodos. Um dos principais movimentos é avançar para um modelo pré-fabricado, baseado em construções modulares. A estratégia reduz custos e acelera as obras. Essa velocidade é fundamental em meio à corrida pela inteligência artificial. “Você não consegue atender a uma demanda exponencial com métodos lineares de construção”, afirma.

Em vez de montar quilômetros de complexos sistemas elétricos e de refrigeração nos próprios canteiros, a Clayco mudou parte do processo. A companhia e suas subcontratadas passaram a fabricar componentes em ambientes industriais controlados. Para isso, utilizam equipes internas de design e engenharia. O modelo reduz a quantidade de eletricistas e outros profissionais especializados necessários nos canteiros.

Para Clark, isso representa uma enorme vantagem. Um de seus maiores desafios é manter um contingente de 50 mil trabalhadores em período integral e parcial. O grupo inclui 13 mil eletricistas, além de profissionais de empresas terceirizadas. Eles estão distribuídos por 100 projetos nos Estados Unidos. A Clayco adotou esse modelo no recém-concluído data center Helios, da Galaxy Digital, do bilionário do setor financeiro Michael Novogratz. A instalação foi convertida a partir de uma antiga operação de mineração de criptomoedas no oeste do Texas.

Para construí-la, Clark transportou 120 módulos elétricos pré-fabricados até Afton, uma área remota do Texas infestada de cascavéis. As estruturas são usadas para controlar e distribuir energia. Também foram levados 95 módulos de chillers, sistemas de refrigeração de alta capacidade. Outros dez racks de tubulação carregavam conduítes para fibra óptica, água e linhas elétricas. “Esse não é o tipo de projeto que você construiria ao lado de um bairro residencial”, admite. E não é mesmo. Muitos concordam.

Nova York e Texas decretaram moratórias para novos centros. A Pensilvânia passou a impor regras rigorosas. Até mesmo o condado de Loudoun, no norte da Virgínia, suspendeu novos empreendimentos. A região concentra mais de 50% dos data centers do estado e possui mais instalações do que qualquer outro condado. Apesar da postura despreocupada, Clark sente a pressão.

Em St. Charles, no Missouri, a CRG retirou os planos para um data center de US$ 1 bilhão (R$ 4,98 bilhões). O projeto teria 1,5 milhão de pés quadrados. A decisão veio depois de moradores criticarem tentativas de aprovar discretamente o empreendimento junto ao governo local. Atrasos regulatórios também afetam o maior data center da Clayco até hoje.

Problemas relacionados a licenças ambientais para ar, água e tubulações reduziram o ritmo das obras do Project Jupiter, da Oracle. Localizado no condado de Doña Ana, no Novo México, o empreendimento é avaliado em US$ 50 bilhões (R$ 249 bilhões) e terá capacidade de 2,45 gigawatts. “O Project Jupiter é exatamente o tipo de oportunidade que deveríamos buscar”, afirma Clark.

“Ele representa um investimento significativo, bons empregos e o tipo de infraestrutura que permite a uma região competir durante décadas.” Mesmo assim, a Oracle assustou os mercados no fim de setembro. A empresa enviou um aviso de força maior à Blue Owl, financiadora do Jupiter. Informou que, caso os atrasos empurrassem a conclusão para depois de 2028, adiaria o pagamento dos aluguéis. Investidores ficaram apreensivos.

Clark descarta uma bolha de inteligência artificial

Batalha pelos data centers

US$ 18 bilhões (R$ 89,64 bilhões) em empréstimos bancários vinculados ao empreendimento passaram a ser negociados por 89 centavos de dólar. “Grandes projetos são complicados. Isso é algo normal do dia a dia. Apenas está mais exposto ao público, então você consegue ver como as coisas realmente são feitas”, afirma Clark, ao ser questionado sobre o Project Jupiter. Para ele, os interesses envolvidos são grandes demais para que o fracasso seja uma opção.

“Essa infraestrutura é crucial demais para o futuro dos Estados Unidos e para a segurança nacional. Ela vai superar qualquer processo doloroso pelo caminho.” Talvez não seja tão crucial outro empreendimento da Clayco: um data center de US$ 6 bilhões (R$ 29,88 bilhões) que a companhia tenta construir de forma especulativa. O projeto fica a menos de uma hora dali, em Festus, no Missouri. Ele recebeu aprovação em 2025. Desde então, porém, enfrenta forte oposição.

“Sentimos que fomos enganados desde o início”, afirma Lori Merriman. Ela mora a poucos metros terreno, hoje atravessado por linhas de transmissão de alta tensão. Merriman já arrecadou US$ 60 mil (R$ 298,8 mil) para combater o empreendimento. Clark argumenta que a cidade de 14 mil habitantes será amplamente beneficiada.

O centro deve criar empregos e gerar US$ 1,3 bilhão (R$ 6,47 bilhões) em receitas tributárias e pagamentos destinados a benefícios públicos ao longo de 25 anos. “Isso vai transformar as escolas, as estradas e o corpo de bombeiros da cidade”, afirma. Clark espera iniciar as obras no começo de 2027. O projeto foi atualizado para reduzir os impactos. A nova versão deve ser mais silenciosa, consumir menos água e ficar mais distante das residências próximas. “Vamos usar a IA para torná-lo mais inteligente, mais produtivo e fazer com que cresça mais rapidamente”, acrescenta.

Clark considera que aqueles que defendem moratórias demonstram uma “terrível falta de coragem”. Os gastos com data centers nos Estados Unidos devem chegar a US$ 15 trilhões (R$ 74,7 trilhões) até 2050, segundo a PwC.

Expansão sem fim?

Nesse cenário, desacelerar a revolução da inteligência artificial tende a ser uma tarefa difícil. Para cada empreendimento suspenso ou cancelado, há outros lugares dispostos a receber o investimento de braços abertos. Isso acontece principalmente em regiões remotas e economicamente fragilizadas. Hoje, quase nove em cada dez data centers existentes estão em centros urbanos.

A tendência, porém, está mudando. Dois terços dos projetos planejados devem ser construídos em áreas rurais, segundo o Pew Research Center. “Há tantos projetos propostos e tanta demanda subjacente que, mesmo que a oposição das comunidades impeça ou atrase alguns deles, ainda existem mais projetos viáveis do que o setor terá capacidade de construir em um futuro previsível”, afirma Clark.

Segundo ele, incorporadores telefonam todas as semanas. Eles têm terrenos disponíveis, mas não conseguem encontrar uma construtora. Mesmo com todo esse otimismo, Clark procura diversificar suas apostas. Ele toma cuidado para não ignorar clientes que já existiam antes da explosão dos data centers.

Um exemplo é a Rivian. A Clayco trabalha em US$ 6,5 bilhões (R$ 32,37 bilhões) em fábricas de caminhões para a fabricante de veículos elétricos em Illinois e na Geórgia. “Ele participa muito de perto. Conhece os detalhes e realmente se preocupa com os parceiros”, afirma RJ Scaringe, CEO da Rivian. “Construtoras estão sempre a dois projetos de distância da falência”, diz Clark, apenas parcialmente em tom de brincadeira.

Se o boom dos data centers realmente entrar em colapso, porém, ele poderá finalmente se dedicar ao legado que pretende deixar. Clark gostaria de projetar moradias populares mais criativas, em vez de estruturas destinadas a computadores.

Sua falecida mulher, Ellen, já havia lhe dado esse conselho anos atrás. Segundo ela, seria um desastre se o único legado do marido fossem os próprios edifícios. Afinal, aquilo que acontece dentro deles é mil vezes mais importante.

*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com

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