Adeus, Elza Soares: cantora morre aos 91 anos

Talentosíssima, teve a vida marcada por tragédias e usou sua voz poderosa para combater o racismo e a violência contra a mulher.

Redação
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Frans Schelleken

Elza em Amsterdã: reconhecida internacionalmente, foi eleita a voz do milênio pela BBC de Londres

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Morreu hoje, aos 91 anos, em seu apartamento, a cantora Elza Soares, dona de uma das vozes mais potentes da MPB, e de um timbre rouco único, que a levou a ser eleita pela BBC de Londres como a voz do milênio, em 2000. Elza também recebeu o Grammy Latino em 2016 como melhor disco de MPB por “A Mulher do Fim do Mundo”. Segundo publicação em seu Instagram, feita pela equipe da cantora, Elza morreu de “causas naturais”.

Elza Soares cantou em público pela primeira vez aos 13 anos na rádio Tupi, em um programa apresentado pelo compositor Ary Barroso que, ao ouvir sua voz, logo disse: “Senhoras e senhores, nesse exato momento acaba de nascer uma estrela”. Assim que a viu, no entanto, Ary fez piada por conta da maneira como a menina estava vestida: sem ter o que usar, vestiu roupas da mãe, muitos números maiores que o seu. “De que planeta você veio?”, perguntou o compositor. Ao que Elza respondeu: “Do mesmo planeta que você, seu Ary. Do planeta fome”.

Ela havia ido ao programa para ganhar algum dinheiro e tentar salvar o filho, doente e faminto, que acabou morrendo tempos depois. Até os 21 anos, quando voltou a se apresentar, Elza já havia perdido dois filhos e o marido, com quem foi obrigada a se casar aos 12 anos. “Planeta Fome”, aliás, é o nome de seu último disco, lançado em 2019.

A história da cantora, que se tornou também uma voz importante contra o racismo, é marcada por tragédias. Em seu primeiro casamento, enfrentou diversos tipos de abusos, que continuaram em seu relacionamento mais famoso, com o jogador Mané Garrincha, iniciado depois que ele voltou da Copa do Mundo do Chile, em 1962. Elza era espancada por Garrincha, que era alcoólatra, mas só veio a contar a história com detalhes em 2015, quando lançou a música “Maria da Vila Matilde”, que se transformou em um hino feminista. Na época, declarou ser “uma sobrevivente”. Do samba ao funk, foram 34 discos lançados em 70 anos de carreira.

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