A ultramaratonista brasileira Fernanda Maciel acaba de cravar mais um feito histórico no trail running mundial. A atleta se tornou a primeira mulher a completar a GR11, travessia que cruza a cadeia de montanhas dos Pirineus, com tempo oficialmente registrado. Foram 12 dias, 12 horas e 9 minutos correndo em um dos percursos mais desafiadores da Europa, totalizando 786 quilômetros de extensão, 35 mil metros de subida e a mesma distância na descida.
A GR11, também conhecida como Transpirenaica, conecta o Cabo Higuer, no País Basco, ao Cap de Creus, na Catalunha. Em geral, quem faz essa travessia a pé leva cerca de 40 dias para completá-la, de acordo com a atleta. Fernanda Maciel, no entanto, percorreu quase todo o caminho correndo — com exceção das subidas —, em pouco menos de duas semanas, um ritmo que exigiu uma preparação física e mental de um ano. “Em casa, corro 5 quilômetros em 20 minutos. Lá, levava uma ou até duas horas para fazer a mesma distância, porque era um terreno muito técnico”, explica a atleta, patrocinada pela Red Bull. “Havia blocos gigantes de pedra e trilhas cobertas, então corria sem ter certeza se ia torcer o pé a qualquer momento.”

Por dentro dos desafios do trajeto
A cada dia, a atleta correu de 12 a 15 horas, enfrentando temperaturas acima de 40ºC, ambientes inóspitos e clima instável, enquanto carregava uma mochila de mais de 5 kg. “Começava a correr todos os dias às 3h da manhã para tentar terminar por volta das 4h da tarde. No verão europeu, tempestades com muitos relâmpagos começam no fim da tarde, e é muito perigoso estar sozinha na montanha nessas condições.”
Além do terreno e das longas distâncias diárias, lidar com os desafios do próprio corpo foi uma parte difícil da jornada. “Tive câimbras nas mãos, no pescoço, nas pernas — e até no diafragma, algo que nunca tinha sentido antes. Perdi muitos sais. À noite, eu não dormia direito e tive episódios de diarreia. Mesmo utilizando um purificador, percebi que a água dos rios não era totalmente segura.”

Cada dia apresentava um desafio novo: desde se perder nas trilhas confusas das florestas e lidar com os pés molhados após atravessar rios até os perigos da solidão total — sem contato com ninguém por horas ou até dias. “Precisei de muita coragem para fazer tudo isso sozinha, sem conexão de internet. Só tinha o recurso de SOS do iPhone, mas, se algo acontecesse, levaria de 7h30 a 8h para alguém chegar até mim a pé.”
Apesar dos obstáculos, o caminho também trouxe recompensas. “Passei por escaladas com correntes, montanhas cinzas que se estendem por horas, cachoeiras em pedras pretas com flores amarelas. São paisagens indescritíveis, coisas que nunca tinha visto.”

Mais do que um recorde
A conquista ainda tem um peso simbólico: até hoje, nenhuma mulher havia registrado um FKT (Fastest Known Time) nessa travessia. “Se tivesse tido uma mulher antes de mim, teria sido mais fácil imaginar que era possível.”
“Quando comecei a correr, muitos anos atrás, quase não via mulheres nesse meio. Hoje em dia, tem várias. Ainda é um ambiente majoritariamente masculino, mas está mudando.”
Fernanda Maciel

Com o novo recorde, ela reforça seu lugar entre os maiores nomes do trail running global. “Sempre tive vontade de cruzar os Pirineus. Esse sonho vem desde 2009 quando comecei a correr ultramaratonas.” A atleta já havia se destacado por outras conquistas: foi a primeira mulher a subir e descer correndo em menos de 24 horas o Aconcágua, montanha localizada na Argentina e considerada a mais alta fora da Ásia; também bateu o recorde de tempo total (subida e descida) e o recorde feminino de subida até o pico da Pirâmide de Carstensz, a montanha mais alta da Oceania; e foi a primeira a subir e descer correndo o monte Vinson, montanha mais alta da Antártida.
Agora, o plano é simples: descansar. “Quero muito curtir esse momento presente, sem atropelar e começar a pensar no próximo passo. Preciso de uns dois meses para recuperar meu corpo, porque foi muito desgastante”, diz. Ainda assim, Fernanda Maciel já tem uma nova ambição pela frente: encarar as sete montanhas mais altas dos continentes. “É um sonho grande, mas que ainda quero realizar. Tenho tempo para treinar e me preparar. Mas, por enquanto, o objetivo é deixar a cabeça tranquila e aproveitar tudo o que vivi até aqui.”