Martine Grael, bicampeã olímpica de vela, disputa neste final de semana mais uma etapa do SailGP, um dos principais campeonatos mundiais da modalidade, conhecido como a “Fórmula 1 do mar”, à frente do Mubadala Brazil Team, nas águas de Cádiz, na Espanha.
Capitã de uma equipe de mais de 20 pessoas que atuam dentro e fora da água, é a primeira mulher a liderar um time no campeonato, que acontece desde 2019. “Antes, uma mulher não tinha a menor chance na vela profissional”, diz a atleta, que assumiu a posição em setembro de 2024. “As coisas estão mudando. Ainda há muito a melhorar, mas o progresso já é enorme.”
Desde 2021, o SailGP conta com o Women’s Performance Program, criado para acelerar a formação e o desenvolvimento de atletas femininas de alto rendimento. “Temos visto cada vez mais mulheres, não só na parte esportiva, mas também nos bastidores”, afirma. “Hoje, há uma presença significativa de mulheres na engenharia e na resolução de problemas, áreas que exigem muito conhecimento técnico.”
História nas águas
Filha de Torben Grael, um dos principais iatistas brasileiros, dono de cinco medalhas olímpicas, Martine nasceu e cresceu em uma família de velejadores, cercada pelo universo do esporte. Sua primeira regata foi ainda na barriga da mãe, Andrea Soffiatti. Aos quatro anos, entrou em um barco pela primeira vez; aos 11, já competia em sua primeira regata oficial. “Meus pais sempre fizeram questão de que fosse o mais leve possível. A ideia era deixar que isso viesse da minha própria vontade”, conta. “Foi exatamente o que aconteceu: comecei a querer competir observando meus amigos que também estavam entrando nesse ritmo.”
Para além do legado familiar, Martine construiu sua própria identidade. “No início, eu era apresentada como a filha da Andréia, irmã do Marco ou filha do Torben”, recorda. “Mas quando comecei a ter meu próprio grupo de amigas na vela, ali pelos 15, 16 anos, passei a ser chamada de Martine. Foi nesse momento que encontrei a minha tribo e, junto com ela, a minha identidade no esporte.”
“Quando você domina sua trajetória, sente-se merecedora de tudo o que vem com ela.”
Martine Grael
Ao longo da carreira, conquistou duas medalhas de ouro olímpicas, em Rio 2016 e Tóquio 2020, com sua dupla Kahena Kunze. Também foi campeã mundial de vela em 2014 e medalhista de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima, em 2019, e Santiago, em 2023.
Carreira e escolhas
Aos 18 anos, Martine decidiu seguir a vela profissionalmente, abrindo mão da faculdade de engenharia. “Quando tomei essa decisão, meu foco foi totalmente voltado para os Jogos Olímpicos”, lembra. “De repente, conquistei esse sonho. Foi um choque: ‘E agora?’”
Hoje, a velejadora prefere focar no presente. “Gosto de viver o agora, sem deixar de ter um olho no passado e outro no futuro.”
O próximo desafio será a grande final do SailGP, marcada para Abu Dhabi nos dias 29 e 30 de novembro. Fora das competições, Martine busca equilíbrio em atividades que a conectam com a natureza, como jardinagem e windsurf. “Para mim, é importante focar intensamente em outra atividade para conseguir desconectar e, depois, voltar com energia total.”
A seguir, confira os destaque da entrevista com a bicampeã olímpica Martine Grael
Forbes: Você é a primeira mulher a ser capitã de uma equipe do SailGP, e ainda de um time com atletas internacionais. Como tem sido essa experiência?
Martine Grael: Hoje já estamos super estabelecidos como time. Nossa estruturação foi muito boa desde o começo, graças à organização do nosso CEO. Conseguimos evoluir bastante como equipe, principalmente pela forma como aproveitamos as reuniões de análise pós-regatas. Cada etapa desse processo tem sido fundamental.
Mas, ao mesmo tempo, para mim ainda é um desafio assumir a liderança de forma genuína. Venho de equipes menores e sinto que ainda tenho muito a aprender nesse sentido. Liderança não pode ser forçada; é preciso conquistar o time com atitudes. Às vezes, basta a palavra certa no momento certo, principalmente quando as coisas não vão bem. Quando tudo dá certo, o resultado fala por si. Mas quando as coisas não saem como o esperado, é aí que a liderança é mais exigida.
Como é isso na prática?
Passamos por isso recentemente, em Sassnitz, na Alemanha, quando tivemos uma quebra de barco. Foi um baque muito forte no moral da equipe, justamente num momento em que vínhamos em grande evolução. Esse episódio nos fez dar uma pausa inesperada, e os últimos eventos acabaram sendo mais acidentados. Mas estamos prontos para virar essa página e retomar a boa fase.
Qual é a principal diferença de ser capitã em comparação a ser apenas atleta no barco?
A responsabilidade aumenta muito, especialmente em barcos mais rápidos e com mais pessoas a bordo. Você se torna responsável pelas pessoas que estão ao seu redor. Na prática, pode parecer que nada muda, mas, na teoria, é essencial ter essa consciência diariamente. É o que ajuda a evitar grandes infortúnios.
Outra diferença é a dinâmica do time e a forma de comunicação. Antes, quando velejava com a Kahena Kunze, cada uma fazia praticamente 50% do trabalho. Agora, tudo é mais organizado e dividido: há quem cuide da logística, da mídia, e assim por diante. Preciso focar no meu papel, mas também tenho a responsabilidade de supervisionar e acompanhar o trabalho dos outros. Isso exige dar feedbacks no momento certo, sempre considerando se estamos evoluindo na direção correta.
Nesse sentido, o trabalho de capitã se assemelha bastante ao de uma líder em uma empresa. É preciso manter a equipe equilibrada, sem elevar demais o nível de estresse em momentos críticos. São vários aprendizados que venho adquirindo ao longo do caminho – às vezes errando, mas sempre avançando na direção certa.

Como você enxerga a presença de mulheres na competição?
A predominância ainda é masculina. Mas temos visto cada vez mais mulheres, não só na parte esportiva, mas também nos bastidores – aquela área que muita gente não enxerga, formada por profissionais que dão suporte ao time técnico. Hoje já há uma presença significativa de mulheres na engenharia e na resolução de problemas, áreas que exigem muito conhecimento técnico, porque a quantidade de eletrônica e de hidráulica que esses barcos têm é enorme.
É surpreendente: você está na água, surge um problema no barco, precisa resolver algo, como uma válvula, e de repente aparece uma mulher, cheia de ferramentas, pronta para resolver. Isso é incrível, porque representa muito para as jovens meninas que acompanham. Deveria até ser mostrado mais. É uma forma muito forte de representatividade e é inspirador perceber que não estamos sozinhas nessa trajetória.
Desde que você começou a competir, como viu esse cenário mudar para as mulheres no esporte?
Na época da minha mãe, perguntava como era a vela para ela, e a diferença é enorme. A própria geração dela reconhece isso. Minha mãe sempre dizia: “Olha o quanto ainda temos para avançar, mas também veja onde estávamos apenas uma geração atrás”.
Ter essa perspectiva é muito marcante, porque nos lembra da importância de fazer parte desse momento da história. As coisas estão mudando. Ainda há muito a melhorar, claro, mas o progresso já é enorme.
Antes, uma mulher não tinha a menor chance na vela profissional. Na época da minha mãe, isso simplesmente não existia. Hoje, há várias regatas, campeonatos e circuitos pelo mundo em que mulheres estão fazendo coisas incríveis. E a presença é tão grande que, às vezes, fica até difícil acompanhar todas elas.
Você cresceu em uma família de velejadores. Quando percebeu que queria seguir carreira no esporte e não apenas praticar por lazer?
Foi bem tarde. Entrei em um barco com quatro anos. Antes disso, já tinha velejado na barriga da minha mãe. Com 11, participei da minha primeira regata, mas tudo ainda era muito recreativo.
Meus pais sempre fizeram questão de que fosse o mais leve possível. Eles sabiam que a competição não precisava ser estimulada cedo, porque as crianças já são naturalmente competitivas. A ideia era deixar que isso viesse da minha própria vontade. E foi exatamente o que aconteceu: eu comecei a sentir essa vontade de competir observando meus amigos que também estavam entrando nesse ritmo.
Aos poucos, surgiu a questão: “Qual é o próximo passo?”. Eu estudava, fazia faculdade, e começou a ficar difícil conciliar tudo. Até que minha coordenadora me disse: “Você precisa estabelecer uma prioridade”. Naquele momento, percebi que teria de escolher. Foi aí que deixei a engenharia de lado.
Esse foi o ponto de virada para mim: a consciência de que estava abrindo mão de uma carreira para seguir outra. Foi com 18 anos que me dei conta de que estava, de fato, me tornando uma profissional da vela.
Como foi, com o legado da sua família no esporte, encontrar o seu próprio caminho?
No início, eu era sempre apresentada como a filha da Andréia, irmã do Marco ou filha do Torben. Mas quando comecei a ter meu próprio grupo de amigas na vela, ali pelos 15, 16 anos, passei a ser chamada de “Martine”. Foi nesse momento que comecei a encontrar a minha tribo e, junto com ela, a minha identidade no esporte.
Acho que é aí que você começa a ter o domínio da sua trajetória e se sente merecedora de tudo o que vem com ela. Na juventude, muitas portas se abrem ao mesmo tempo, e eu sempre tentei abraçar ao máximo as oportunidades que surgiam. Mas também aprendi a deixar para trás aquelas que não estavam me acrescentando.
Desde que você ganhou o ouro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, até hoje, o que mudou na sua visão profissional e pessoal?
Quando ganhei a Olimpíada, ainda não era madura o suficiente. Hoje, sinto que continuo em uma fase de muito aprendizado, talvez a maior da minha vida. Lidar com pessoas é, sem dúvida, o maior desafio de qualquer um, e tenho certeza de que esse é o caminho que preciso trilhar para evoluir profissionalmente. Claro que existe também a parte técnica na água, mas acredito que essa habilidade de convivência e relacionamento é algo que vem com o tempo, e com saúde.

Como está sendo a preparação para a próxima etapa do SailGP?
É sempre muito intenso. O circuito do SailGP exige muito de todos que participam. Acordamos, olhamos a agenda do dia e começamos. Ter uma boa estrutura de equipe é fundamental nesse processo, porque tudo muda o tempo todo. Às vezes algo inesperado acontece – quebramos o barco, por exemplo – e precisamos nos adaptar. Quando não conseguimos velejar, passamos a analisar regatas e estudar de fora. É um exercício de reconstrução constante, tanto dentro quanto fora d’água. E acredito que essa seja uma das maiores características do SailGP: você se constrói como time, mesmo com o pouco tempo de treino que temos.
Como é a rotina antes da competição?
Hoje passamos a manhã inteira em uma grande reunião. Normalmente fazemos reuniões online depois de cada evento para definir os objetivos de estudo, dividir tarefas e juntar todas as informações coletadas. Nesse processo, há várias trocas, análises e até observações de outros times. O foco é afinar a técnica para executar no primeiro dia na água.
Enquanto isso, o barco está sendo preparado pelo time de terra, que trabalha incansavelmente nessa parte técnica, como a colocação e calibração dos foils. Nós, atletas, cuidamos dos nossos próprios equipamentos. Logo depois temos outra reunião, já direcionada para o dia seguinte: analisamos as condições esperadas, peculiaridades da área de regata, obstáculos como pedras próximas e até detalhes do percurso, que muda de acordo com onde o público está. Tudo isso envolve ajustes táticos antes mesmo de entrar na água.
Você tem algum ritual pré-competição?
Não tenho um ritual fixo, mas gosto de evitar muita exposição à mídia entre a última reunião e a ida para a água. Prefiro manter a cabeça focada. Acho importante ter esse espaço mais vazio, para processar as informações com clareza.
Também valorizo muito o momento posterior, que é a reunião logo após a regata. É sempre muito intensa, um verdadeiro “tiroteio de informações” sobre o que aconteceu. Tanto o antes quanto o depois são partes fundamentais do processo.
Quando está longe das competições, tem algum hobby que gosta de praticar?
Para mim, é importante focar intensamente em outra atividade para conseguir desconectar e, depois, voltar com energia total. Adoro jardinagem, que me ajuda a relaxar. Mas também gosto de velejar em outras modalidades, como windsurf — tudo que envolve o mar me atrai. Além disso, gosto muito de atividades na montanha, embora ultimamente tenha me dedicado mais ao mar.
Ainda tem algum sonho ou plano que pretende realizar?
Tendo a viver muito no presente. Quando decidi que minha carreira profissional seria na vela, meu foco foi totalmente voltado para os Jogos Olímpicos e para conquistar uma medalha. De repente, conquistei esse sonho. Foi um choque: “E agora?”. Como se reestruturar depois de realizar algo que parecia quase irrealizável?
Passei por diferentes momentos em que precisei me reorganizar, e gosto da forma como encaro isso: vivendo intensamente o presente e tomando as decisões quando elas precisam ser tomadas. Até porque, quando comecei a velejar, o SailGP nem existia. Não tinha como eu sonhar com isso. Acho difícil você vocalizar sonhos muito específicos sobre algo que talvez ainda nem exista. Prefiro viver o agora, sem deixar de ter um olho no passado e outro no futuro.
Que conselho você deixaria para as novas meninas que estão entrando no esporte?
Diria para tentarem abraçar ao máximo todas as oportunidades – e também criarem novas oportunidades. Você nunca sabe do que vai gostar. Às vezes, começa em uma área e termina em outra; pode iniciar na vela olímpica e acabar na oceânica, por exemplo.
O mais importante, especialmente quando se é jovem e se tem energia, é experimentar de tudo: se cansar, viver, sentir. Conhecer muitas pessoas, porque os relacionamentos são fundamentais, tanto na vela quanto na vida. Boas conversas e conexões levam a novas oportunidades. Por isso, é essencial sair da própria bolha, se conectar com pessoas diferentes, entender outros mundos.
Abracem todas as oportunidades, mesmo aquelas que, à primeira vista, não parecem ter nada a ver. Só vivendo a experiência é que você realmente descobre o que quer.