Quando “O Agente Secreto” foi indicado ao principal prêmio do Oscar, o de Melhor Filme, foi o nome de Emilie Lesclaux que apareceu creditado na categoria, que premia os produtores cinematográficos por trás das obras. Ao lado de Kleber Mendonça Filho, diretor do longa e seu marido desde 2007, o clima foi de festa na última quinta-feira (22), quando as quatro indicações para o filme foram anunciadas. “Decidimos, de última hora, chamar os amigos para acompanhar conosco. Estávamos em umas 15 pessoas”, conta à Forbes Brasil. “Deu muito nervoso. A cada indicação eram gritos e lágrimas, foi bem bonito.”
Francesa radicada no Brasil desde 2002, a produtora de longas premiados internacionalmente, como “O Som ao Redor”, “Aquarius” e “Bacurau”, já se acostumou com a torcida brasileira. “São mais de 20 anos aqui, boa parte da minha vida adulta. Agora já faço parte, gritei muito junto [risos].”
Após as indicações, a celebração deu espaço para uma nova etapa: a campanha focada em promover o filme em cada categoria. “Ainda tem muito trabalho a ser feito. Tivemos alguns poucos dias de descanso em casa, mas já nessa semana voltamos a viajar bastante.”
Há também o trabalho de divulgação do filme ao redor do mundo. Em fevereiro, “O Agente Secreto” será lançado em outros países da América Latina, além de Reino Unido, Espanha e Itália. “A gente quer muito que ele seja visto nesses lugares, inclusive porque há votantes em muitos países. O filme precisa circular bastante, então fevereiro vai ser um mês intenso.”
O sucesso de “O Agente Secreto”
A repercussão nacional e internacional de “O Agente Secreto” não estava na mira de Emilie até pouco tempo atrás. “É um pouco surreal o que aconteceu. A gente nunca sabe qual será o alcance de um filme, como ele vai se comunicar com o público no Brasil e depois no exterior”, afirma. “Foi um processo gradual de entender que o longa tinha essa potência.”
O suspense indicado ao Oscar conta a história de Marcelo (interpretado por Wagner Moura, que concorre a Melhor Ator), um professor que foge de São Paulo para Recife em 1977 para escapar de perseguições políticas durante a Ditadura Militar e reencontrar seu filho pequeno. Em Recife, ele assume uma nova identidade, mas logo descobre que a cidade não é um refúgio seguro, sendo alvo de vigilância, paranoia e um perigo antigo. “A gente faz os filmes sem a preocupação de serem comerciais, nem com a ambição de corresponder a um padrão internacional”, explica. “Os filmes feitos em Pernambuco são muito pessoais, autorais e livres.”
Com o mercado de cinema nacional aquecido desde “Ainda Estou Aqui”, também indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional em 2025 e Melhor Atriz (Fernanda Torres), a fórmula foi de sucesso. O longa produzido por Emilie alcançou ao menos 1,7 milhão de espectadores nacionalmente, segundo dados divulgados pela Comscore, e levou quatro prêmios em Cannes e outros dois no Globo de Ouro. “Mesmo tendo uma identidade brasileira e pernambucana muito forte, os filmes do Kleber sempre se comunicam muito bem com o público de fora”, destaca. “Existe uma autenticidade que as pessoas reconhecem no filme.”

Por trás das câmeras
“O Agente Secreto” foi o maior filme já produzido por Emilie, em termos de ambição e orçamento (cerca de R$ 28 milhões). “É um filme de época, com muitas coisas que nunca tinha feito antes: um elenco gigante, muitas locações e cenários para construir”, diz. “A gente precisou parar o centro da cidade para filmar. São coisas que ninguém tinha feito aqui nessa dimensão.”

Desde mobilizar 200 figurantes e 169 veículos antigos até reconstruir um aeroporto da década de 1970 nos mínimos detalhes, a produtora viveu alguns dias especialmente desafiadores nos bastidores. “Foi muita gente trabalhando, figurantes, carros na rua, cenas em movimento, de dentro para fora”, conta. “Sempre acaba tendo mil perrengues para resolver.”
Não à toa, o início das gravações já começou com alguns. “Queríamos começar a filmagem com o início do longa, no posto de gasolina, mas não conseguimos por causa da previsão de chuva”, lembra. “Eu ficava pensando: ‘meu Deus, está começando tudo com problemas’”.

A arquitetura financeira de “O Agente Secreto”
“O Agente Secreto” estava sendo escrito desde 2020, mas as filmagens só começaram em janeiro de 2024 por uma questão de orçamento. “Em 2020, todas as políticas de incentivo tinham sido cortadas e não havia possibilidade de captar recursos no Brasil.”
Em um ano, Emilie reuniu recursos de quatro países — Brasil, França, Alemanha e Holanda. “Praticamente todos os editais internacionais em que inscrevemos o projeto deram certo. A maior parte é financiamento público, mas também há dinheiro privado”, explica. “Uma coprodução entre dois países já é complicada, com quatro há muito mais coisas que podem dar errado. Mas tudo correu de forma muito tranquila.”
História de cinema
Filha de uma mãe cinéfila, Emilie cresceu dentro de salas de cinema e não foi difícil herdar a paixão. Depois que saiu do colégio, até cogitou estudar audiovisual, mas postergou a ideia e decidiu fazer ciências políticas no Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux.
Sua mãe, que é argentina, também foi responsável por estabelecer a ligação da filha com a América Latina desde pequena. “Eu viajava muito para a Argentina nas férias e sempre gostei muito”, conta. “Já tinha vindo ao Brasil criança, como turista, mas nunca pensei em morar ou fazer carreira no país.”
Começou a trabalhar com cinema aqui um pouco por acaso, ou destino. Recém-formada, se inscreveu para um edital que permitia passar dois anos em uma embaixada, consulado ou empresa francesa no exterior. Foi escolhida para trabalhar no consulado da França em Recife.
No cargo, lidava com cooperação cultural e mostras de filmes franceses, e não demorou para conhecer diversas pessoas que atuavam com cinema no Brasil – inclusive o Kleber. “Foi realmente por acaso. Fui me enraizando no país, a gente casou, nada foi planejado, foi coisa da vida.”
O papel de produtora
Depois de conhecer o diretor, começou a ajudar nos seus primeiros curtas, em 2005, e fez um pouco de tudo no início da carreira. Com o tempo, assumiu o papel de produtora, responsável por captar e administrar recursos, apresentar projetos em editais, montar equipes, atuar no planejamento estratégico e acompanhar as etapas de produção e distribuição. “Existia uma organização que não era nem um pouco a área do Kleber, e ele não tinha um produtor fixo para trabalhar”, explica. “Fui aprendendo enquanto fazia. Comecei a assumir esse lado mais organizacional pela necessidade de conseguir fazer os filmes — não porque éramos um casal, isso já éramos antes.”
Juntos, criaram a produtora independente Cinemascópio, em 2007, e fundaram o festival Janela Internacional de Cinema do Recife, em 2008. Hoje, Emilie também tem um papel crucial na criação dos filmes: é a primeira leitora dos rascunhos de Kleber. “Minha participação começa bem no início, desde as primeiras ideias que ele divide comigo”, conta. “A gente conversa bastante sobre o que ele está pensando. Eu escuto, reajo e dou minha opinião.”
Próximos projetos
Para 2026, além da corrida ao Oscar, a produtora já tem alguns projetos em curso. Está na montagem de um filme de Ellen Beltrame, “Minha Carta para Bergman”; vai começar a pré-produção de um filme de Leonardo Lacca, “Sábado Morto”; e ainda produz uma série dirigida por Lacca e Marcelo Lordello, “Delegado”, do Canal Brasil.
Em breve, também deve tirar do papel um novo filme de Kleber. “Quando a correria passar, a ideia é ele sentar para começar a escrever um novo roteiro. Estou bem empolgada com o que já ouvi desse próximo projeto”, adianta. “Já existem muitas ideias, só que falta tempo com a agenda cheia.”