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“Fiz Algo Inédito Como Empreendedora no Brasil”, Diz Patrícia Lima após Venda da Simple Organic

Fundadora concluiu venda total para a Hypera Pharma depois de oito anos à frente da marca de clean beauty; agora, aposta em novos projetos dentro e fora do Brasil

8 min

Depois de concluir, em 2025, a venda total da Simple Organic para a Hypera Pharma, Patrícia Lima inicia 2026 abrindo um novo capítulo da carreira. “Uma fundadora mulher que constrói um negócio de impacto positivo e vende para uma empresa de capital aberto é algo inédito no Brasil”, diz em entrevista à Forbes.

A empresária deixou o cargo de CEO e diretora da marca de clean beauty, fundada por ela em 2017, após a farmacêutica — que havia adquirido 71,5% da companhia em 2021 — exercer a opção de compra da participação acionária restante. “Dez anos atrás, ninguém falava em uma empresa de impacto positivo, sustentável, com 90% de mulheres em cargos de liderança”, afirma. “Mas ganhamos tamanho, entramos nas farmácias, fomos para os médicos, fizemos testes clínicos e democratizamos o acesso — algo que nenhuma outra marca fez nesse nível.”

À frente da Simple Organic por oito anos, Patrícia acompanhou a transformação do negócio, que cresceu 16 vezes desde a aquisição parcial e encerrou 2025 com cerca de 100 SKUs e presença internacional. Com a transição, a Hypera Pharma passa a gerir totalmente a Simple Organic, enquanto a empresária se torna consultora da empresa.

Fora da rotina operacional, Patrícia passou a direcionar sua energia a novos projetos. Neste ano, pretende lançar um fundo de investimento voltado para mulheres, uma marca de wellness e um novo aplicativo de relacionamento, além de um projeto de beleza internacional. “Depois de vender um negócio, você volta dez passos e recomeça tudo do zero — só que com muito mais experiência.”

A seguir, confira os destaques da entrevista com Patrícia Lima, que fala sobre os bastidores da venda da Simple Organic, seus próximos movimentos como empreendedora e sua visão para o futuro da beleza brasileira.

Forbes: Por que a decisão de deixar a Simple Organic veio neste momento?

Patrícia Lima: Essa saída já fazia parte do contrato assinado cinco anos atrás, embora houvesse a possibilidade dessa etapa final não ser executada. Pelo contrato, eu precisava ficar pelo menos três anos, mas esse prazo foi sendo estendido, justamente porque todos estávamos confortáveis com a situação. Mas sempre existiu em mim o desejo de encerrar esse ciclo e partir para algo maior, mesmo sendo muito apegada à marca e à história que construí ali. Para um empreendedor raiz como eu, o mundo corporativo é cansativo. O cargo de CEO de uma empresa desse porte acaba sendo muito mais reunião do que inovação. Sentia falta de estar no criativo e entendi que podia ir ainda mais longe.

Como funcionou o processo de transição?

A minha decisão de vender a parte final — os 28,5% que eu ainda detinha — aconteceu entre o final de abril e o início de maio de 2025. Em julho, eu vivi o luto. Foi aquele momento de pensar: “Meu Deus, eu disse sim, e agora?”. Passei todo o segundo semestre fazendo a transição e organizando tudo.

Várias vezes eu me questionei se gostaria de não finalizar a venda. Mas meu sonho sempre foi provar que, como fundadora mulher, eu conseguiria executar a venda da minha própria empresa. No fim, essa transição levou cerca de seis meses e foi feita de forma leve e bem estruturada.

Você sempre falou da relação muito forte com a marca. Como foi o lado emocional desse momento?

É muito difícil. Houve uma preparação psicológica. Mas existem dois aspectos, e curiosamente o que torna mais difícil é também o que torna mais fácil: as pessoas. O mais difícil é deixar o meu time, que sempre foi como uma família. Sempre fui uma líder que construiu relações muito próximas dentro da empresa. Perder a rotina e não estar com essas profissionais todos os dias dói. Ao mesmo tempo, isso é o que me dá tranquilidade para sair, porque o DNA da Simple Organic não está em uma pessoa só. Ele está espalhado por todo o time.

Olhando para a sua trajetória, quais foram suas maiores conquistas?

Com certeza a maior conquista foi a venda. Uma fundadora mulher que constrói um negócio de impacto positivo e vende para uma empresa de capital aberto é algo inédito no Brasil. Hoje, sinto que estou vivendo meu próprio case de sucesso. Executei, entreguei e cumpri tudo o que prometi aos investidores. Dez anos atrás, ninguém falava em uma empresa de impacto positivo, sustentável, com 90% de mulheres em cargos de liderança. Mas ganhamos tamanho, entramos nas farmácias, fomos para os médicos, fizemos testes clínicos e democratizamos o acesso — algo que nenhuma outra marca fez nesse nível. Claro que houve erros, e eu fui responsável por muitos deles. Mas construímos um trabalho muito bonito.

E os aprendizados?

Nesse momento, estou redescobrindo a sensação de tempo. É outra dimensão. Em 2024, eu beirei o burnout. Chegava quatro da tarde e minha cabeça parava de funcionar, de tantos assuntos. Decidi que nunca mais vou trabalhar no ritmo dos últimos dez anos. Estou vivendo uma era de reavaliar qualidade de vida e de reestruturar prioridades. Fiz um projeto muito bonito, entreguei de forma bem-sucedida, e não quero voltar para aquele ritmo. Quero fazer tudo o que vem pela frente de uma forma mais leve e tranquila, não só para mim, mas também para as pessoas que trabalham comigo. Vou descansar, viajar e aproveitar o máximo possível. A maturidade traz um pouco disso.

Depois da transição, o que te ajudou a virar a chave?

Uma das coisas que fiz para não sentir tanto o impacto emocional foi já entrar, durante a transição, em outros projetos que eu queria tocar. Não queria sair e pensar: “Agora tenho todo o tempo do mundo, vou tirar um período sabático”. Não daria conta de todo esse tempo livre.

Quais são seus próximos projetos?

Vou lançar um fundo de investimento focado em mulheres e em negócios inovadores; um projeto de beleza internacional; uma marca de wellness, na qual estou trabalhando no desenvolvimento de produtos; e um aplicativo de relacionamento, que entra no final do primeiro semestre de 2026. São quatro projetos grandes. Até o início de março, lanço os três primeiros. Sigo com exclusividade na área de beleza com a Hypera, então não posso atuar fora disso nacionalmente.

O projeto de beleza internacional é uma das suas maiores apostas. Como ele vai funcionar?

É um projeto de posicionamento da cultura de beleza brasileira. Assim como a Coreia e outros países fizeram, trata-se de uma organização da indústria como um todo para se posicionar internacionalmente. A gente lança o projeto entre o final de janeiro e o início de fevereiro. Já temos cinco ou seis grandes ativações fora do Brasil. O projeto inicial prevê um trabalho de branding do Brasil enquanto indústria de beleza lá fora por, pelo menos, oito meses, para começar a construir essa narrativa. As marcas precisam registrar produtos e se enquadrar em algumas regras.

Como surgiu a ideia desse projeto?

Com a vivência na Simple, dentro da indústria, conheci fundadores, marcas e as dores de cada um, muito além do comercial. Lembro de ter ido a uma feira em Las Vegas, há três anos, e ver estandes muito bem estruturados das marcas americanas, com o “Made in USA”, esse orgulho coletivo, como um selo de força e credibilidade. As marcas inglesas têm isso, as coreanas têm isso. O Brasil ainda não.

Tenho conversado com várias amigas fundadoras de beauty, trocado ideias, e todas pensam de forma muito parecida. O Brasil vive um momento em que produtos como Havaianas estão entre os mais desejados do mundo. A cultura brasileira está em alta. Existem marcas vendendo o conceito de Brasil sem serem brasileiras, enquanto temos marcas incríveis aqui dentro. A nossa beleza precisa surfar essa onda.

Com esses novos projetos, como você avalia esse momento de carreira?

Depois de vender um negócio e operar em uma escala grande, você volta dez passos e recomeça tudo do zero — só que com muito mais experiência. É marca nova, business plan do zero, conceber tudo novamente. Vivi isso dez anos atrás sem dinheiro. Hoje tenho experiência, um aprendizado gigantesco e a possibilidade de financiar meus próprios sonhos. Então, literalmente, estou vivendo o meu melhor momento.

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