As mulheres continuaram significativamente sub-representadas nos filmes de maior bilheteria de 2025 — como protagonistas, em papéis com fala, em posições de liderança e, especialmente, entre atores mais velhos.
Todos os anos, há mais de duas décadas, o Center for the Study of Women in Television and Film, da Universidade Estadual de San Diego, estuda a representação de gênero nos 100 filmes de maior bilheteria. Em sua análise mais recente, os pesquisadores examinaram mais de 1.900 personagens presentes nos principais filmes de 2025.
Esse tema é relevante porque a forma como homens e mulheres são retratados na tela, e o destaque que recebem, influencia como são percebidos na sociedade.
Representação feminina nos grandes filmes continua desanimadora
O ano de 2025 marcou um recuo notável nas histórias centradas em mulheres. A porcentagem de filmes de maior bilheteria contados principalmente a partir da perspectiva feminina caiu de forma acentuada, passando de 42% em 2024 para apenas 29% em 2025.
Em contraste, a perspectiva masculina predominou: 53% dos principais filmes tinham protagonistas homens. Os 18% restantes apresentavam protagonistas masculinos e femininos. “Enquanto filmes como ‘O Sobrevivente’, ‘Resgate Implacável’, ‘Superman’, ‘O Bom Bandido’ e ‘Lobisomem’ anunciavam claramente sua perspectiva masculina, produções contadas a partir do ponto de vista feminino foram mais difíceis de encontrar no ano passado”, explicou Martha Lauzen, autora do estudo e fundadora e diretora executiva do Center for the Study of Women in Television and Film, no relatório.
O desequilíbrio de gênero foi além dos protagonistas. Os homens continuaram dominando a visibilidade geral, ocupando quase o dobro de papéis com fala em relação às mulheres. Personagens femininas representaram apenas 38% dos papéis com fala em 2025 e apenas 36% dos personagens principais.
Essa lacuna de gênero não é um problema apenas porque significa menos bons papéis para atrizes; ela também envia uma mensagem forte ao público. “Representação é visibilidade. É capital social. Ser visto é ser relevante. Quando vemos menos mulheres na tela, a suposição é de que elas levam vidas menos interessantes e menos importantes”, disse Lauzen à Forbes.
Na tela, homens são definidos pelo trabalho e mulheres, pelo estado civil
O desequilíbrio de gênero também apareceu na forma como homens e mulheres foram retratados. Os homens tinham muito mais probabilidade de ocupar posições de autoridade na tela. Nos principais filmes de 2025, 62% dos líderes eram homens, em comparação com apenas 38% mulheres. O estudo definiu líderes como personagens que ocupam um papel de liderança dentro de uma organização, governo ou grupo social e cujas diretrizes são seguidas por pelo menos duas outras pessoas.
Os homens também tinham maior probabilidade em relação às mulheres de ter uma profissão identificável, de serem mostrados trabalhando e de estarem ativamente engajados em suas atividades profissionais.
Já as personagens femininas tinham mais probabilidade de ter seu estado civil especificado. Em outras palavras, os homens são mais definidos pelo trabalho, enquanto as mulheres são mais definidas pelo estado civil.
Mulheres 60+ representam 2% dos personagens femininos principais
Apesar de performances de destaque como as de Jamie Lee Curtis em “Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda” e Amy Madigan em “A Hora do Mal”, mulheres com mais de 60 anos estiveram fortemente sub-representadas nas telas no ano passado.
Esse grupo etário representou apenas 2% de todos os personagens principais femininos. Em comparação, homens acima de 60 anos representaram 8% dos personagens principais masculinos.
As oportunidades para mulheres caem acentuadamente com a idade, e até mesmo atrizes na faixa dos 40 anos tiveram menos papéis do que aquelas na faixa dos 30. Mulheres na casa dos 30 anos representaram 32% dos personagens principais femininos, enquanto mulheres na faixa dos 40 responderam por apenas 15%.
Entre os homens, a trajetória seguiu na direção oposta: a participação aumentou de 22% entre os que estavam na casa dos 30 para 29% entre os que estavam na casa dos 40.
“Essas diferenças relacionadas à idade permitem que os homens desfrutem de carreiras mais longas e envelheçam de forma crível rumo a posições de poder pessoal e profissional.”
Talvez o mais preocupante seja que as disparidades de gênero apontadas no relatório pouco mudaram ao longo das últimas duas décadas. Embora alguns possam argumentar que essas discrepâncias persistem porque filmes centrados em mulheres têm desempenho inferior nas bilheterias, Lauzen rejeita essa explicação. “Pesquisas mostram que o tamanho do orçamento é o que determina a arrecadação nas bilheterias, e não o gênero do diretor ou do protagonista. Filmes com protagonistas femininas já provaram ser sucessos de bilheteria”, afirma.
As mulheres representam metade da população, mas quem assistiu aos principais filmes do ano passado dificilmente perceberia isso. Para o público que quer ver histórias centradas em mulheres nas telas, ainda há algumas opções. Os filmes de maior bilheteria de 2025 com protagonistas femininas foram “Lilo & Stitch”, “Jurassic World Recomeço” e “Wicked: Parte 2”.
*Kim Elsesser é colaboradora sênior da Forbes USA. Ela é especialista em vieses inconscientes de gênero e professora de gênero na UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles)
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com