A brasileira Luana Lopes Lara construiu uma fortuna bilionária apostando que o mercado de previsões vai transformar a forma como as pessoas investem e tomam decisões. “É apenas uma questão de tempo”, diz a cofundadora da Kalshi, convicta de que esse mercado será maior que o de ações em um futuro próximo. “O céu é o limite.”
Durante a abertura do Web Summit Rio, evento de inovação e tecnologia realizado nesta semana na capital fluminense, Luana afastou sua empresa de casas de apostas e prometeu negociar com o governo brasileiro para trazer a empresa para seu país natal.
Aos 30 anos, ela é a bilionária self-made mais jovem do mundo graças à startup que fundou em 2018 ao lado do libanês Tarek Mansour. A valorização da empresa tem sido meteórica. Em dezembro do ano passado, a Kalshi captou US$ 1 bilhão (R$ 5,18 bilhões), quando foi avaliada em US$ 11 bilhões (R$ 56,94 bilhões). Apenas seis meses depois, levantou mais US$ 1 bilhão (R$ 5,18 bilhões) e dobrou seu valor de mercado para US$ 22 bilhões (R$ 113,88 bilhões), segundo estimativas da Forbes. Os cofundadores detêm cerca de 12% da empresa cada um, participação avaliada em aproximadamente US$ 2,6 bilhões (R$ 13,46 bilhões).
A tese da empreendedora é de que prever eventos do mundo real é mais intuitivo e humano do que acompanhar as oscilações do mercado financeiro tradicional. “Quando você se sentar em uma mesa de jantar, não vai discutir se as ações da Meta vão cair. Estará conversando sobre eleições, pandemia, esportes.”
Na Kalshi, usuários compram e vendem contratos vinculados ao resultado de acontecimentos futuros, de eleições a eventos esportivos. Os preços refletem a probabilidade atribuída pelo mercado a cada cenário. Se a previsão estiver correta, recebem US$ 1 (R$ 5,18) por contrato; se não, nada.
Raízes brasileiras
Apesar de ter construído a empresa nos Estados Unidos, onde vive desde que foi estudar no MIT, Luana atribui parte importante de sua trajetória às origens brasileiras. “Uma qualidade pouco reconhecida dos brasileiros é o otimismo, essa crença de que as coisas vão dar certo no final”, afirma. “Sem isso, provavelmente a Kalshi não estaria aqui.”
Ela também destaca a formação recebida no país. “Metade do que aprendi sobre matemática e ciência veio do Brasil.”
A resiliência foi fundamental para atravessar os primeiros anos da empresa. Antes de lançar seu primeiro produto, a Kalshi passou anos negociando com a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos (CFTC), órgão responsável pela regulação de derivativos e futuros no país.
“Passamos três ou quatro anos sem ter um único produto no ar. Estávamos apenas tentando trabalhar com os reguladores para construir um mercado de previsões legal nos Estados Unidos.”
O aval finalmente veio em 2020. Mas os desafios regulatórios continuaram. Em 2023, a CFTC bloqueou os contratos eleitorais da empresa por entender que eles se assemelhavam a jogos de azar. Uma decisão judicial posterior reverteu a medida e permitiu que a Kalshi passasse a oferecer contratos ligados à eleição presidencial americana de 2024, impulsionando a popularização do setor.
Disputa regulatória no Brasil e no mundo
O embate com reguladores segue sendo um dos maiores obstáculos para a expansão global dos mercados de previsão.
Em abril, o governo brasileiro determinou o bloqueio de 27 plataformas do setor, incluindo Kalshi e a rival Polymarket. As autoridades argumentam que esses produtos funcionariam, na prática, como apostas disfarçadas sob outra classificação jurídica. “Muitos países estão exatamente onde os Estados Unidos estavam em 2018 e 2019, quando começamos a empresa”, diz Luana.
“A atividade não vai acabar se for banida. É mais uma questão de como construir do modo mais seguro possível.”
Ela afirma que pretende trabalhar com reguladores brasileiros para viabilizar a entrada da Kalshi no país. “Nosso trabalho é dar um passo para trás e pensar em como educar diferentes países sobre o que realmente fazemos.”
Os contratos ligados à política e aos esportes são os mais controversos: críticos dizem que os primeiros podem influenciar eleições, enquanto os segundos poderiam driblar regras de jogos de azar e ampliar as apostas esportivas, inclusive entre públicos mais jovens.
A fundadora rejeita essas comparações. “Se você é um cassino ou uma casa de apostas, ganha dinheiro quando seu usuário perde. Nós ganhamos com uma taxa de transação. Queremos que as pessoas continuem trazendo informação para o mercado e continuem ganhando.”
“É muito mais humano refletir sobre os mercados de previsão do que outras classes de ativos.”
Segundo ela, a empresa também monitora comportamentos considerados problemáticos. Usuários que apresentam perdas recorrentes podem ter depósitos limitados e ser obrigados a comprovar a origem dos recursos.
Ainda assim, Luana reconhece que as perdas fazem parte da dinâmica do mercado. “As pessoas perdem dinheiro na Kalshi. Existe risco em todo lugar. Mas, quando você olha para day trade de ações, criptoativos, futuros e apostas esportivas, as taxas de perda costumam ser significativamente maiores do que nos mercados de previsão.”
“Não é uma roleta. São indústrias, mercados, dados e eventos que realmente importam para as pessoas.”
“Estão tentando nos atacar”
Luana é diretora de operações da Kalshi, hoje com 170 funcionários. “Tivemos muita sorte em fazer a empresa crescer no mundo da IA. Cada engenheiro tem 20 agentes fazendo muito trabalho.”
Ela prefere manter uma estrutura enxuta. “Gosto que cada pessoa na empresa tenha apenas uma pessoa entre mim e eles, no máximo.” Na sua visão, a velocidade explica boa parte da vantagem competitiva da Kalshi. “O verdadeiro motivo de estarmos à frente é porque somos simplesmente mais rápidos do que todos os outros e fizemos as coisas do jeito certo.”
Nos próximos três anos, ela projeta que a empresa deverá chegar a 4.500 funcionários. “Mas talvez eu esteja subestimando.”
Para o futuro, ela mira alto: “Queremos ser a maior bolsa de derivativos do mundo. Só chegaremos lá se todos, do varejo ao Goldman Sachs, estiverem negociando no mesmo pool de liquidez.”
Luana não vê a concorrência de outras plataformas como ameaça. “O que construímos é realmente difícil replicar. Construir a empresa com tantas restrições regulatórias nos tornou muito mais fortes”, diz.
Já o contrário é verdadeiro: “As bolsas tradicionais estão tentando nos atacar”, afirma. “Estamos incomodando muitas pessoas com o que estamos fazendo, mas no final, os consumidores vencem quando há mais competição, preços menores. É apenas uma questão de esperar.”