1. Início
  2. /
  3. Forbes Mulher
  4. /
  5. “A Inclusão Não Muda Nada Se as Estruturas Forem as Mesmas”, Diz Angela Davis na Flip
Forbes Mulher

“A Inclusão Não Muda Nada Se as Estruturas Forem as Mesmas”, Diz Angela Davis na Flip

Aos 82 anos, a ativista protagonizou um dos encontros mais aguardados do evento e refletiu sobre futuro do trabalho, liderança feminina e transformação social

4 min

Aos 82 anos, a filósofa, escritora e ativista norte-americana Angela Davis protagonizou um dos painéis mais aguardados da 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) na noite de sábado (25), Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

Embora o encontro organizado pelo Sesc RJ não fizesse parte da programação oficial do festival, a alta procura fez com que os 700 ingressos distribuídos online esgotassem em poucos minutos.

Conduzida pela jornalista Flávia Oliveira, a mesa “América e África: uma conversa Atlântica” foi ancorada no pensamento de intelectuais negros brasileiros — de Milton Santos, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento a Nego Bispo, Abdias Nascimento, Sueli Carneiro e Conceição Evaristo, esta última presente na plateia do evento. “Sei que pessoas em todo o mundo estão inspiradas pelas Marchas das Mulheres Negras que acontecem aqui”, afirmou Angela Davis no encontro.

No decorrer do debate, a ativista transitou por temas como capitalismo, racismo estrutural, violência de gênero e futuro do trabalho. “Há demandas por inclusão, e de fato há mais inclusão agora. Mas a inclusão por si só não muda nada se as estruturas permanecerem as mesmas.”

Davis também refletiu sobre o poder das mulheres negras na transformação social. “Nós somos muito mais fortes do que aqueles que pretendem nos governar. Acho que não somos conscientes da nossa própria força porque a nossa concepção de poder, muitas vezes, envolve apenas aqueles que são eleitos para cargos públicos.”

A liderança de Angela Davis

Nascida no Alabama, nos Estados Unidos, durante o período da segregação racial, Angela Davis tornou-se um ícone global dos direitos civis por sua atuação junto aos Panteras Negras.

Em 1970, após ser perseguida politicamente e demitida da Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde atuava como professora assistente de filosofia, chegou a figurar na lista dos dez mais procurados do FBI. Foi presa e enfrentou a pena de morte, sendo absolvida em 1972 graças à campanha internacional “Free Angela”.

“Quando olho para trás hoje, percebo que também foi um presente que o resto da minha vida tenha sido moldado pelo que passei naquelas prisões, pelas minhas interações com as outras mulheres encarceradas”, lembrou durante o painel.

Ao revisitar a própria trajetória, ela creditou sua sobrevivência à rede de apoio global. “As pessoas sempre me perguntam sobre a luta. E eu sempre digo: ‘Eu não fiz muita coisa. Estava sentada na cadeia’. Foram as pessoas do lado de fora que fizeram todo o trabalho, que geraram o poder e a força que impediram a vitória daqueles homens poderosíssimos.”

Além de seu legado no ativismo, Davis construiu uma extensa trajetória acadêmica e literária. Ela é autora de obras como os clássicos “Mulheres, Raça e Classe” (1981), “Mulheres, Cultura e Política” (1989) e “Estarão as Prisões Obsoletas?” (2003).

O impacto intelectual e social rendeu à escritora reconhecimentos como a presença no Hall da Fama Nacional das Mulheres dos EUA, o Thomas Merton Award e um American Book Award pelo conjunto de sua obra, além de dar nome a um prêmio criado pela American Studies Association em sua homenagem.

Visão de futuro

Para desenhar um cenário mais igualitário, Davis apontou a arte e a literatura como ferramentas de mudança. “A arte nos permite experimentar como seria uma sociedade sem opressão. Histórias como as de Conceição Evaristo nos tocam intimamente, e nos fazem sentir poderosas e capazes de imaginar como seria viver em um mundo livre.”

Reconhecendo as conquistas recentes do movimento de mulheres no Brasil, o recado final de Angela Davis em Paraty foi focado na continuidade: “Celebrem essas vitórias, mas não se acomodem nelas. Usem-nas como plataformas de lançamento para continuar a luta. O Brasil está muito bem posicionado para fazer isso.”

*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.

Assine Forbes. Inspire-se, lidere, conquiste. Ao se cadastrar, você concorda com nossa Política de Privacidade e com o uso de seus dados para fins de comunicação.