Aos 82 anos, a filósofa, escritora e ativista norte-americana Angela Davis protagonizou um dos painéis mais aguardados da 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) na noite de sábado (25), Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
Embora o encontro organizado pelo Sesc RJ não fizesse parte da programação oficial do festival, a alta procura fez com que os 700 ingressos distribuídos online esgotassem em poucos minutos.
Conduzida pela jornalista Flávia Oliveira, a mesa “América e África: uma conversa Atlântica” foi ancorada no pensamento de intelectuais negros brasileiros — de Milton Santos, Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento a Nego Bispo, Abdias Nascimento, Sueli Carneiro e Conceição Evaristo, esta última presente na plateia do evento. “Sei que pessoas em todo o mundo estão inspiradas pelas Marchas das Mulheres Negras que acontecem aqui”, afirmou Angela Davis no encontro.
No decorrer do debate, a ativista transitou por temas como capitalismo, racismo estrutural, violência de gênero e futuro do trabalho. “Há demandas por inclusão, e de fato há mais inclusão agora. Mas a inclusão por si só não muda nada se as estruturas permanecerem as mesmas.”
Davis também refletiu sobre o poder das mulheres negras na transformação social. “Nós somos muito mais fortes do que aqueles que pretendem nos governar. Acho que não somos conscientes da nossa própria força porque a nossa concepção de poder, muitas vezes, envolve apenas aqueles que são eleitos para cargos públicos.”
A liderança de Angela Davis
Nascida no Alabama, nos Estados Unidos, durante o período da segregação racial, Angela Davis tornou-se um ícone global dos direitos civis por sua atuação junto aos Panteras Negras.
Em 1970, após ser perseguida politicamente e demitida da Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde atuava como professora assistente de filosofia, chegou a figurar na lista dos dez mais procurados do FBI. Foi presa e enfrentou a pena de morte, sendo absolvida em 1972 graças à campanha internacional “Free Angela”.
“Quando olho para trás hoje, percebo que também foi um presente que o resto da minha vida tenha sido moldado pelo que passei naquelas prisões, pelas minhas interações com as outras mulheres encarceradas”, lembrou durante o painel.
Ao revisitar a própria trajetória, ela creditou sua sobrevivência à rede de apoio global. “As pessoas sempre me perguntam sobre a luta. E eu sempre digo: ‘Eu não fiz muita coisa. Estava sentada na cadeia’. Foram as pessoas do lado de fora que fizeram todo o trabalho, que geraram o poder e a força que impediram a vitória daqueles homens poderosíssimos.”
Além de seu legado no ativismo, Davis construiu uma extensa trajetória acadêmica e literária. Ela é autora de obras como os clássicos “Mulheres, Raça e Classe” (1981), “Mulheres, Cultura e Política” (1989) e “Estarão as Prisões Obsoletas?” (2003).
O impacto intelectual e social rendeu à escritora reconhecimentos como a presença no Hall da Fama Nacional das Mulheres dos EUA, o Thomas Merton Award e um American Book Award pelo conjunto de sua obra, além de dar nome a um prêmio criado pela American Studies Association em sua homenagem.
Visão de futuro
Para desenhar um cenário mais igualitário, Davis apontou a arte e a literatura como ferramentas de mudança. “A arte nos permite experimentar como seria uma sociedade sem opressão. Histórias como as de Conceição Evaristo nos tocam intimamente, e nos fazem sentir poderosas e capazes de imaginar como seria viver em um mundo livre.”
Reconhecendo as conquistas recentes do movimento de mulheres no Brasil, o recado final de Angela Davis em Paraty foi focado na continuidade: “Celebrem essas vitórias, mas não se acomodem nelas. Usem-nas como plataformas de lançamento para continuar a luta. O Brasil está muito bem posicionado para fazer isso.”
*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.