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Conheça Sylvia Earle, a Cientista de 90 Anos Que Dedica a Vida a Salvar o Oceano

Em entrevista à Forbes, a oceanógrafa norte-americana reflete sobre a importância do mar e fala da necessidade de transformar a esperança em ação

6 min

Uma das vozes mais respeitadas em ciência marinha no mundo, a oceanógrafa norte-americana Sylvia Earle, de 90 anos, dedica-se à preservação dos oceanos há mais de seis décadas. Liderou mais de 100 expedições marítimas, passou milhares de horas debaixo d’água, tem 250 publicações em seu nome, 34 títulos honorários, lecionou em mais de 80 países e já ocupou cargos de grande prestígio, como o de Exploradora At Large da National Geographic.

Embaixadora da Rolex desde 1982, Sylvia é encantada pelo assunto desde a sua infância em Nova Jersey: passava horas no lago do seu quintal, hiptonizada por peixes e girinos. Ela criou, em 2009, a Mission Blue Foundation, uma iniciativa global que identifica e apoia regiões marinhas consideradas vitais para a saúde dos oceanos, áreas batizadas de Hope Spots.

Sylvia no submersível DeepSea mergulhando em Galápagos (2022), durante mais uma expedição da Mission Blue, fundação que ela criou em 2009
ROLEX/FRANCKSylvia no submersível DeepSea mergulhando em Galápagos (2022), durante uma expedição da Mission Blue

Hoje, são 168 desses locais espalhados em 115 países. Atualmente, apenas 8% dos mares do mundo são protegidos, mas mais de 100 países se comprometeram a proteger pelo menos 30% até 2030.

O Brasil também é parte dessa rede de proteção. O Arquipélago de Abrolhos (BA), as Ilhas Cagarras (a cerca de cinco quilômetros da Praia de Ipanema), o Arquipélago de Alcatrazes (litoral norte de São Paulo, a cerca de 35 quilômetros de São Sebastião) e, desde novembro, o arquipélago de Fernando de Noronha (PE) são Hope Spots. “O Brasil tem muitos desafios para enfrentar, mas é um país de maravilhas oceânicas”, enfatizou.

Em entrevista à Forbes Brasil, Syvia falou sobre a importância de se conhecer, respeitar e preservar os 70% do planeta que são água. “Estamos debatendo as mudanças climáticas, mas com pouca ênfase nos mares. Se ignorarmos a sua importância, não teremos um futuro”, afirmou. “A esperança é poderosa, mas só é transformadora quando leva a ações que realmente mudam o mundo e as pessoas. Ainda há muitos motivos para ter esperança no futuro.”

A seguir, confira os destaques da entrevista com a oceanógrafa Sylvia Earle

Forbes: Um dos temas centrais neste momento é a relação entre o oceano e o clima…

Sylvia Earle: O oceano é o verdadeiro motor que regula o clima do planeta. É onde estão 97% da água da Terra e a maior parte da vida existente. Por muito tempo, concentramos a discussão sobre mudanças climáticas apenas na atmosfera, esquecendo que o oceano é o sistema que define a temperatura, os ciclos de carbono e a própria química do planeta. Ele não é um cenário passivo, mas um organismo vivo, interconectado com tudo o que sustenta a vida.

O que já sabemos sobre o oceano?

Quase nada! Nós apenas tocamos a superfície. Podemos medir o oceano com satélites, aviões e sensores, mas entender as dinâmicas vivas, as correntes, os organismos, a comunicação entre espécies, ainda é um desafio enorme. A magnitude da nossa ignorância é espantosa. Cada mergulho revela novas espécies, novas relações ecológicas, novas formas de vida. E quanto mais fundo descemos, menos sabemos. Mas isso também é o que me dá esperança: estamos vivendo uma avalanche de descobertas que mostram o quanto ainda há para aprender e proteger.

Por que ainda repetimos os mesmos erros?

Ainda não aprendemos o princípio básico da medicina, que também serve para o planeta: primeiro, não causar dano. Criamos tecnologias poderosas, mas continuamos a destruir os sistemas naturais que nos mantêm vivos. O que tiramos da natureza tem um custo e por muito tempo fingimos que era gratuito.

O oceano tem recebido a atenção necessária nas negociações climáticas?

De forma alguma. O oceano ainda é o grande ausente nos debates climáticos. Poucos tomadores de decisão já mergulharam para ver o mundo abaixo da luz solar. Agora, no século 21, estamos apenas começando a explorar a maior parte do nosso planeta e a perceber que, sem o oceano, não há solução para o clima.

E no Brasil? Como avalia a situação do oceano e das zonas costeiras?

Abrolhos, por exemplo, é um tesouro, um verdadeiro Hope Spot, ou lugar de esperança, pela diversidade e beleza dos corais. Mas há desafios: poluição, sobrepesca e o descarte de resíduos no mar. Na natureza, nada é lixo. Tudo é parte de um ciclo. Quando tratamos nossos resíduos como algo sem valor, perdemos uma oportunidade de reconectar o sistema da vida. Precisamos parar de ver o oceano como depósito e começar a enxergá-lo como aliado.

A senhora é embaixadora da Rolex, parceira da Mission Blue. Qual é o papel dessas alianças privadas?

Vital. A Rolex foi uma das primeiras a apoiar a Mission Blue, permitindo que levássemos recursos a cientistas, educadores e comunidades que realmente atuam no campo. A esperança é poderosa, mas a esperança com ação transforma o mundo. É uma rede viva de cooperação científica, comunitária e emocional. Nenhuma organização faz isso sozinha; é uma colaboração global.

Após 60 anos de carreira, o que mais a inspira?

As histórias de sucesso. Vejo lugares que se regeneram quando damos uma chance à natureza. Em Shinnecock Bay, nos Estados Unidos, uma comunidade local restaurou o ecossistema plantando milhões de ostras. O mesmo aconteceu em Cabo Pulmo, no México, onde pescadores decidiram parar de pescar e criar uma reserva marinha. Hoje, o local é um santuário de vida e uma fonte de renda.

Então, podemos ter esperança?

Sim, e muita. O oceano é resiliente. Não infinitamente, mas o suficiente para se recuperar se pararmos de causar danos. Já o ferimos profundamente, mas ainda há tempo. Todos nós dependemos dele, direta ou indiretamente, para respirar, comer e existir. O século 21 é o momento mais importante da história humana: ou restauramos o equilíbrio, ou perdemos a chance. Acredito que podemos e devemos escolher a esperança.

*Reportagem publicada na edição 136 da revista Forbes, em dezembro de 2025.

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