Nesta terça-feira (11), a atleta Débora Simas, de 55 anos, natural de Rio do Sul (SC), recupera-se do esforço físico da última semana. No domingo (9), ela estabeleceu o novo recorde mundial feminino de corrida em esteira. “Existe uma ideia ainda muito presente na sociedade de que, depois de determinada idade, a mulher precisa reduzir expectativas. Eu acabei de viver exatamente o contrário: aos 55 anos, alcancei o maior resultado da minha carreira”, afirma a atleta em entrevista à Forbes Brasil.
“Envelhecer não significa diminuir nossos sonhos.”
Débora Simas
O desafio durou sete dias, com pausas programadas para sono, higiene e atendimento médico. Ao final do período, a ultramaratonista acumulou 866,21 km, marca superior aos 846,16 km da neozelandesa Emma Timmis, registrados em 2024.
“Quando você passa 168 horas em busca de um objetivo, o recorde deixa de ser apenas um número”, diz. “Quando percebi a quebra do recorde mundial, não pensei apenas nos quilômetros que ficaram para trás, mas em toda a estrada que precisei percorrer para chegar àquele momento.”
Um sonho pessoal
Débora dividiu os dois anos de preparação para o desafio com a rotina de dois empregos: de dia, atuava em uma loja agropecuária; à noite, em uma lanchonete. “Treinei sozinha, em casa, muitas vezes apenas na companhia da minha gata, enquanto conciliava os dois empregos.”
“Não existia uma vida à espera do meu sonho acontecer; existia um sonho que precisava caber dentro da vida que eu tenho.”
Débora Simas
O esforço foi colocado à prova no domingo (2), em uma esteira no Beiramar Shopping, em Florianópolis. Além do impacto esportivo, o desafio aberto ao público permitiu a interação direta com os espectadores e funcionou como uma ação solidária para arrecadar ração destinada a entidades de proteção animal.

A quebra da marca de Emma Timmis ocorreu às 9h14 do domingo seguinte. Apesar disso, Débora permaneceu na esteira até o meio-dia, horário oficial de encerramento das 168 horas de prova. A brasileira tinha um objetivo pessoal não revelado ao público.
“Tirei uma força de dentro de mim e fui buscar mais”, afirma. “Havia um número na minha cabeça que eu não tinha relatado a ninguém: 860 quilômetros. Era um compromisso meu comigo mesma. Fui atrás dele, ultrapassei também essa marca e consegui terminar ainda mais acima.”
O desafio apresentou momentos críticos. Na quarta-feira (5), a atleta sofreu uma forte câimbra e quase perdeu os sentidos. A equipe de apoio — formada por cerca de 110 profissionais, como médicos, fisioterapeutas e nutricionistas, com atuação em esquema de revezamento de 24 horas — precisou intervir.
A estratégia de sono, planejada inicialmente com intervalos de três horas em uma barraca atrás da esteira, também passou por reavaliações conforme as condições físicas da ultramaratonista. “Foram sete dias muito intensos. Tive que enfrentar o sono, as dores, o cansaço e momentos em que a cabeça precisava ser mais forte do que o corpo.”
Legado no esporte feminino
Aos 55 anos, ela pontua o papel da maturidade em sua trajetória no esporte. “Hoje conheço meu corpo e minha mente de uma maneira que não conhecia aos 30 ou aos 40”, diz. “Você aprende a administrar a dor, o cansaço, a ansiedade, os momentos ruins e, principalmente, entende que uma dificuldade não significa necessariamente que chegou ao seu limite.”
Com uma carreira de 22 anos no esporte, Débora soma quase 300 provas, com presença no pódio em todas elas. Em 2018, tornou-se a primeira mulher a correr 1.000 km no Brasil. Em 2019, no mesmo local em Florianópolis, estabeleceu os recordes brasileiro e sul-americano com 800,61 km na esteira.
Apesar da nova marca mundial, a atleta já pensa em seus novos passos no esporte. “Vivi o maior resultado da minha carreira, mas ele não me faz planejar pausas. Ao contrário: faz-me avaliar o quanto ainda existe pela frente.”
Por enquanto, com o recorde e os devidos dias de descanso, a nova meta é ampliar o impacto no esporte feminino. “Se a minha conquista fizer uma menina, uma atleta ou qualquer mulher olhar para o esporte e pensar ‘eu também posso chegar lá’, esse recorde passa a valer muito mais do que os quilômetros que percorri.”