O dia 9 de dezembro de 2025 foi especial na vida da advogada Tania Zanella – e um marco no cooperativismo. Ela foi eleita presidente-executiva do Sistema OCB, a Organização das Cooperativas Brasileiras; tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo máximo da entidade criada em 1969 para representar, fomentar e defender o cooperativismo no país. “O que mais me marcou foi a quantidade de mulheres me escrevendo para dizer que se sentiram representadas”, afirma ela, um dos destaques da lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil de 2026.
A OCB reúne 4.384 cooperativas em cerca de 3.500 municípios. O sistema congrega 25,8 milhões de cooperados, o equivalente a 12,1% da população brasileira, e gera 518 mil empregos diretos. O dado mais recente sobre movimentação financeira do setor registra R$ 757,9 bilhões, com ativos administrados da ordem de R$ 351,4 bilhões. A agropecuária lidera em número de organizações e volume financeiro: são 1.179 cooperativas, responsáveis por movimentar cerca de R$ 438 bilhões.
A chegada de Tania já trouxe alguns resultados. “Não é possível defender políticas públicas apenas com narrativa. É preciso fundamento, números e equipe qualificada”, afirma. “Equipes de excelência entregam resultados de excelência.” Não por acaso, após assumir a presidência, quatro níveis hierárquicos abaixo dela foram reorganizados com profissionais formados na própria casa. “Sucessão não pode ser evento. Precisa ser processo.” O Brasil figura entre as maiores potências globais do modelo cooperativista, com 21 cooperativas listadas entre as 300 maiores do mundo, segundo o World Cooperative Monitor 2025.
A posição de Tania é um fato raro no mundo cooperativo. Compara-se à da britânica Pauline Green, a primeira mulher presidente na história de 120 anos da Aliança Cooperativa Internacional (ACI/ICA), eleita em 2009 e reeleita em 2013. A ACI é o maior organismo cooperativista do mundo, o equivalente global da OCB. Ambas quebraram a barreira histórica de gênero, após muitos anos de dedicação interna ao movimento – a trajetória de Tania na OCB já completou duas décadas.
Ela iniciou sua carreira estruturando a área parlamentar da entidade em Brasília. Antes da presidência, foi a primeira mulher a ocupar a gerência-geral e a superintendência. “Foi uma construção coletiva. Nunca fiz nada sozinha. E digo que houve participação de muitas mulheres nesse processo.”
Tania conta que, no início de sua carreira, chegou a receber uma “proposta irrecusável” do ponto de vista financeiro para sair do cooperativismo. “Mas o que me mantinha aqui, e o que ainda me mantém aqui, é saber da importância da OCB para milhões de brasileiros”, diz. “A proposta vinha de alguém com certeza de um sim, mas eu disse não.”
Os desafios vieram aos borbotões, quando começou a ficar nítido o seu trajeto como liderança máxima. “Precisei me provar muito, inclusive para quem tomaria a decisão final. Os resultados estavam postos, mas o processo exigiu resistência.” Foi seu legado na superintendência da entidade que a cacifou para o cargo. Tania conduziu um processo de profissionalização interna no qual a representação institucional passou a ser baseada em dados técnicos e consistência econômica.
*Reportagem publicada na edição 138 da revista Forbes, em fevereiro de 2026.